Billie Eilish será Esther em A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath

É praticamente impossível falar de Sylvia Plath sem que sua morte apareça em algum momento. Talvez seja justamente esse um dos problemas. Mais de seis décadas depois de seu suicídio, aos 30 anos, a tragédia continua disputando espaço com a escritora extraordinária que ela foi. Sua relação conturbada com o poeta Ted Hughes, a separação, a depressão e os últimos meses de vida criaram em torno dela uma espécie de mitologia que, por vezes, transformou tudo o que escreveu em prenúncio de sua morte. No entanto, reduzir Sylvia Plath à mulher que morreu tão jovem é perder de vista uma autora que escreveu sobre morte, identidade, casamento, maternidade, ambição e sofrimento porque estava, acima de tudo, tentando compreender como viver.

É essa mulher, e não apenas a personagem trágica que a posteridade construiu, que volta ao centro das atenções com uma nova adaptação de A Redoma de Vidro, seu único romance. Sarah Polley escreve e dirige o filme, atualmente em produção, e escolheu uma protagonista que imediatamente despertou curiosidade: Billie Eilish será Esther Greenwood, no primeiro papel principal de sua carreira no cinema. Carey Mulligan interpretará a mãe de Esther e Connor Storrie também integra o elenco, enquanto ainda não há uma data de estreia anunciada.

A escolha de Billie parece ousada à primeira vista, sobretudo porque estamos falando de uma cantora mundialmente famosa assumindo uma das personagens mais complexas da literatura americana moderna. Quanto mais pensamos nela, porém, menos aleatória a escalação parece.

Sylvia Plath nasceu em 1932 e foi desde muito jovem brilhante, competitiva, extremamente ambiciosa e determinada a se tornar escritora numa época em que a ambição feminina ainda precisava negociar permanentemente com casamento, maternidade e as expectativas sobre aquilo que uma mulher deveria desejar. Estudante do Smith College, em 1953, aos 20 anos, foi para Nova York trabalhar como editora convidada da revista Mademoiselle. Era, em teoria, exatamente a oportunidade que uma jovem como ela deveria celebrar, uma espécie de confirmação de que o futuro extraordinário que imaginara para si começava a acontecer.

Na prática, naquele mesmo verão, Plath entrou em uma grave crise depressiva, tentou o suicídio, foi internada e passou por tratamentos de eletrochoque, experiências que mais tarde seriam recriadas ficcionalmente em A Redoma de Vidro. Depois de se formar, foi para Cambridge com uma bolsa Fulbright, conheceu o poeta britânico Ted Hughes e se casou com ele em 1956. Tiveram dois filhos e uma relação intelectualmente intensa, apaixonada e turbulenta. O casamento desmoronou em meio à infidelidade de Hughes e os dois se separaram em 1962. Poucos meses depois, em 11 de fevereiro de 1963, Sylvia morreu por suicídio em Londres.

Essa é a parte mais conhecida de sua história, mas definitivamente não deveria ser toda ela. Plath já era poeta publicada em vida, autora de The Colossus, mas sua reputação cresceu de maneira extraordinária depois da morte, especialmente com Ariel, publicado em 1965. Poemas como Lady Lazarus, Daddy e Ariel ajudaram a consolidar uma voz feroz, desconfortável e profundamente original, capaz de transformar corpo, maternidade, casamento, raiva, desejo, morte e renascimento em imagens poderosas, muitas vezes violentas. Frequentemente incluída entre os chamados poetas confessionais, Plath é mais complexa do que essa definição sugere, porque sua poesia parte do íntimo, mas o transforma artisticamente. Não se trata simplesmente de um diário colocado em versos.

Talvez por isso também seja tão difícil separar sua obra de sua biografia. Hollywood já tentou contar sua história diretamente em Sylvia, de 2003, no qual Gwyneth Paltrow interpretou a escritora e Daniel Craig viveu Ted Hughes. Dirigido por Christine Jeffs, o filme se concentrou principalmente na relação entre os dois e na espiral emocional que antecedeu a morte de Plath. Paltrow entregou uma interpretação delicada, mas o próprio recorte reforçava um problema recorrente quando falamos sobre Sylvia: a mulher que morreu acaba, mais uma vez, ocupando mais espaço do que a escritora que produziu.

A Redoma de Vidro permite uma entrada diferente e talvez mais interessante.

Publicado originalmente na Inglaterra em janeiro de 1963, poucas semanas antes da morte de Plath e sob o pseudônimo de Victoria Lucas, o romance acompanha Esther Greenwood, uma jovem estudante extremamente talentosa que ganha uma temporada em Nova York trabalhando em uma revista feminina. Tudo deveria ser perfeito. Ela conseguiu aquilo que desejava, está cercada de oportunidades e aparentemente começa a vida adulta com enorme vantagem sobre outras jovens da mesma idade. Ainda assim, não consegue sentir a felicidade que deveria acompanhar suas conquistas.

Talvez seja justamente esse “deveria” o verdadeiro antagonista do livro. Esther deveria aproveitar Nova York, deveria desejar um bom casamento, deveria escolher uma carreira, deveria querer filhos, deveria ser sexualmente respeitável sem deixar de ser desejável, deveria ser brilhante sem intimidar ninguém e, principalmente, deveria saber exatamente qual das muitas vidas possíveis quer viver. Enquanto tenta encontrar uma resposta, sente todas essas possibilidades se fechando sobre ela.

A famosa redoma do título representa justamente essa sensação de viver como se estivesse presa debaixo de um vidro, respirando o próprio ar contaminado e separada do mundo mesmo quando aparentemente participa dele. Depois de voltar para casa e sofrer uma rejeição profissional, Esther começa a desmoronar. Não consegue dormir, ler ou escrever, passa por um tratamento psiquiátrico traumático, tenta tirar a própria vida e é internada. Aos poucos, inicia uma recuperação sob os cuidados de uma médica que, pela primeira vez, parece tratá-la como alguém capaz de participar das decisões sobre a própria existência. A história é ficção, mas suas correspondências com aquilo que Sylvia viveu em 1953 são evidentes.

É também aí que está a importância duradoura de A Redoma de Vidro. O livro não é apenas um romance sobre depressão, mas sobre uma mulher deprimida dentro de uma sociedade que já era, por si só, sufocante para mulheres que queriam mais de uma vida possível.

Uma das imagens mais famosas do romance ajuda a explicar por que ele permanece tão atual. Esther imagina sua existência como uma figueira em que cada fruto representa um futuro diferente: carreira, casamento, filhos, literatura, viagens, amor. Escolher um significa abrir mão dos outros e, enquanto ela hesita, os frutos começam a morrer diante dela. Mais de 60 anos depois, é difícil encontrar uma metáfora que tenha envelhecido menos, especialmente para mulheres ensinadas que podem ter tudo e que depois descobrem que o problema nunca foi apenas ter oportunidades, mas decidir quem querem ser sem decepcionar todas as expectativas construídas ao redor delas.

O romance também tem humor ácido, crueldade e muitas contradições, e Esther nem sempre pretende ser agradável. Isso importa. Ela pode ser egoísta, invejosa, esnobe e desconcertante, além de carregar preconceitos de sua época. Talvez justamente por isso tenha sobrevivido como personagem. Plath permitiu que uma jovem mulher fosse intelectualmente ambiciosa, sexualmente curiosa, furiosa, adoecida e desagradável sem transformar cada característica em uma lição moral.

Adaptar tudo isso para o cinema é complicado. A Redoma de Vidro teve uma versão cinematográfica em 1979, dirigida por Larry Peerce e estrelada por Marilyn Hassett, que nunca conquistou o mesmo lugar cultural do romance. Depois vieram diferentes projetos que não se concretizaram, incluindo uma adaptação que chegou a ter Kirsten Dunst ligada à direção e Dakota Fanning como Esther. Talvez o problema esteja na própria natureza do livro, porque quase tudo o que realmente importa acontece dentro da cabeça da protagonista. Transformar sua linguagem interior em imagens sem reduzi-la a uma sequência convencional sobre doença mental é o grande desafio.

E é exatamente aqui que Sarah Polley se torna uma escolha especialmente promissora. Ela nunca foi uma diretora interessada apenas no acontecimento, mas naquilo que se passa emocionalmente enquanto aparentemente pouco está acontecendo. Em Longe Dela, acompanhou um casamento transformado pelo Alzheimer e conseguiu falar de memória, amor, fidelidade e perda sem transformar seus personagens em conceitos. Em Entre o Amor e a Paixão, olhou para o desejo, casamento e insatisfação feminina sem oferecer respostas confortáveis. Em Histórias que Contamos, voltou a câmera para a própria família para questionar memória, narrativa e a possibilidade de existir uma única versão verdadeira de nossas histórias.

Depois veio Entre Mulheres, talvez o argumento definitivo para que Polley seja uma das cineastas mais interessantes para entrar na cabeça de Esther Greenwood. A história de mulheres obrigadas a decidir se permanecem, fogem ou enfrentam uma estrutura que as violentou poderia facilmente ter se transformado em discurso, mas Polley fez dela uma reflexão sobre autonomia, fé, medo, desejo e escolha. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e lhe deu o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. A Redoma de Vidro será seu primeiro longa como diretora desde então.

E então temos Billie Eilish.

É importante lembrar que este não será exatamente seu primeiro trabalho como atriz. Billie já surpreendeu em uma participação em Swarm, em 2023, vivendo Eva, líder de um culto, mas será sua estreia como protagonista de um longa de ficção, com uma responsabilidade muito diferente. A atuação também não é completamente estranha ao universo em que cresceu. Sua mãe, Maggie Baird, é atriz, roteirista e professora, e seu pai, Patrick O’Connell, também trabalhou como ator. Billie e Finneas cresceram em uma casa em que interpretação, música e criação faziam parte do cotidiano.

Ainda assim, é a conexão artística com Esther que torna o casting realmente interessante. Não há motivo para inventar agora uma relação biográfica ou literária entre Billie e Sylvia Plath que nunca foi estabelecida pelas duas. A aproximação mais forte está nas questões que atravessam suas obras e suas imagens públicas.

Desde adolescente, Billie construiu parte importante de seu trabalho em torno do desconforto de existir dentro da própria pele, da dificuldade de reconhecer a si mesma na imagem que os outros criam, da relação entre corpo e olhar, da depressão, do desejo, da solidão e da estranha distância entre conquistar aquilo que se queria e descobrir que o sucesso não responde às perguntas mais importantes. Ao falar sobre fama, corpo e expectativas impostas às mulheres, ela voltou inúmeras vezes ao conflito entre aquilo que sente e aquilo que o mundo espera enxergar.

É impossível não pensar em What Was I Made For?, não porque a música tenha qualquer relação direta com Sylvia Plath, mas porque sua pergunta poderia perfeitamente pertencer a Esther Greenwood. Para que fui feita? Para qual dessas vidas? Para satisfazer quem? Quem sou quando retiro aquilo que esperavam que eu fosse?

Há ainda uma ironia interessante nessa escolha. Esther chega a Nova York porque é uma jovem extremamente talentosa que alcançou uma oportunidade extraordinária cedo demais para saber exatamente o que fazer com tudo aquilo. Billie Eilish se tornou mundialmente famosa ainda adolescente. Uma vive nos anos 1950, quando uma jovem excepcional precisava lutar para conquistar espaço; a outra pertence a uma época em que uma jovem pode conquistar o mundo e descobrir que ser vista por todo mundo também pode se transformar em uma forma de aprisionamento.

Isso não transforma Billie em Sylvia e seria um erro psicológico e biográfico fazer essa equivalência. Esther tampouco é simplesmente Sylvia Plath. É justamente nessa distância, entre experiência pessoal, ficção e interpretação, que o filme pode encontrar algo novo.

As primeiras imagens das filmagens mostram Billie transformada para os anos 1950, com cabelo castanho-avermelhado, roupas, maquiagem e penteados do período. A produção recria a Nova York que recebe Esther no início do romance, aquela cidade cheia de promessas que aos poucos se transforma em parte de seu estranhamento. Carey Mulligan, como a mãe de Esther, acrescenta ainda outra camada promissora ao projeto, principalmente porque é uma atriz particularmente boa em personagens que escondem enormes conflitos atrás de uma aparência de controle.

O figurino, porém, dificilmente será o verdadeiro teste para Billie Eilish. O desafio será encontrar a violência silenciosa de Esther, uma personagem cujo sofrimento acontece muitas vezes naquele intervalo terrível entre parecer funcional para quem olha de fora e perceber que, internamente, alguma coisa deixou de funcionar. Billie já sabe usar silêncio, desconforto, olhar e imobilidade como performer, enquanto Sarah Polley sabe filmar mulheres pensando, hesitando e tentando encontrar palavras para experiências que nem sempre conseguem explicar.

Se uma conseguir confiar na outra, talvez esteja justamente aí a combinação que tantas tentativas anteriores de adaptar A Redoma de Vidro procuraram. Existe, porém, uma responsabilidade ainda maior: Sylvia Plath não pode voltar ao cinema apenas para morrer outra vez.

Talvez a melhor adaptação de seu romance seja justamente aquela capaz de lembrar que A Redoma de Vidro não termina com uma morte. Esther sobrevive, ainda que saiba que a redoma pode descer novamente. Não existe cura milagrosa ou garantia de felicidade, apenas a possibilidade de continuar vivendo. Para uma escritora cuja história foi tantas vezes lida de trás para frente, começando pelo fim, talvez seja finalmente a maneira mais justa de voltar a olhá-la.


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