Talvez o maior truque de Sugar seja nos fazer esquecer constantemente a qual série estamos assistindo. John Sugar, vivido por Colin Farrell, dirige carros lindos por uma Los Angeles ainda mais bonita, veste ternos impecáveis, ama cinema antigo e investiga pessoas desaparecidas. Há crimes, famílias destruídas, corrupção, violência e mistérios suficientes para ocupar nossa atenção. Seguimos as pistas junto com ele e, quando percebemos, estamos novamente tratando Sugar como uma série policial. Só que não é. Ou, pelo menos, não é apenas isso.
Desde a primeira temporada sabemos que Sugar é um alienígena. A revelação, que na época pareceu quase absurda para parte do público, não era uma extravagância colocada no meio de um noir. Era a história principal que estava sendo contada diante de nós enquanto olhávamos para outra coisa.
O final da segunda temporada deixa isso muito mais claro e muda novamente a escala da série. Sugar passou esses episódios procurando pessoas, tentando descobrir o que aconteceu com sua irmã Djen e, sobretudo, se perguntando o quanto sua permanência na Terra o estava transformando. Descobrimos agora que talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido o que os humanos estavam fazendo com Sugar, mas o que os alienígenas pretendem fazer com os humanos.
Djen está viva.

A irmã desaparecida, que durante tanto tempo funcionou como a grande ferida de Sugar e a razão emocional por trás de sua obsessão em encontrar desaparecidos, não era exatamente uma vítima esperando para ser encontrada. Ela estava trabalhando em algo muito maior. Djen está por trás do projeto Acalica, uma tecnologia capaz de interferir no clima e apresentada aos humanos como uma possível ferramenta para ajudar a salvar um planeta ameaçado pela crise ambiental. A intenção, porém, parece ser outra: tornar a Terra adequada para a própria espécie de Sugar.
É difícil não chamar isso pelo nome que imediatamente nos ocorre: colonização.
Talvez ainda seja cedo para dizer que Sugar é definitivamente uma história sobre alienígenas tomando a Terra. A série preserva ambiguidades demais para uma conclusão tão simples, especialmente porque Djen acredita estar construindo alguma coisa e não necessariamente destruindo. Mas o final sugere claramente que aquilo que parecia uma missão de observação pode ter evoluído para a apropriação. Eles vieram estudar a humanidade. Agora um deles percebeu que este planeta pode servir também para eles.
E é justamente Sugar quem pode acabar defendendo os humanos.
A ironia é maravilhosa porque ele é provavelmente o alienígena que mais deveria compreender as falhas da nossa espécie. Sugar passa seus dias entrando nos lugares mais sombrios da experiência humana. Conheceu assassinos, torturadores, traficantes, homens poderosos capazes de comprar pessoas e instituições inteiras. Nesta temporada, ele próprio ultrapassou uma fronteira quando matou Vega e descobriu que conhecer a violência humana é muito diferente de praticá-la.
Sugar está mudando.
Come carne. Bebe. Deseja. Transa. Mente. Sofre. Mata. Sente culpa. Apaixona-se. E continua, apesar de tudo o que testemunhou, gostando das pessoas.
Esse talvez seja o verdadeiro experimento de Sugar. Djen e John chegaram à mesma humanidade e parecem ter aprendido coisas completamente diferentes com ela. Djen observa nossas falhas e aparentemente conclui que pode fazer melhor. Sugar conhece essas mesmas falhas e desenvolve algo muito mais próximo da compaixão. Quanto mais conhece os humanos, menos consegue permanecer apenas como observador.
Charlotte torna essa descoberta ainda mais dolorosa. A mulher por quem Sugar se apaixonou estava ligada a Djen e o observava a pedido dela. Até aquele romance, portanto, fazia parte de uma história que ele não sabia estar vivendo. Quando Charlotte usa justamente uma vulnerabilidade biológica de Sugar para incapacitá-lo, a traição funciona em dois níveis: é pessoal, mas também coloca Sugar diante da possibilidade de que aqueles que ele considerava “os seus” já não sejam necessariamente o seu lado.
É por isso que o retorno de Wiley no final é tão simples e tão importante. Depois de uma temporada inteira discutindo pertencimento, Sugar termina novamente cercado por vínculos que construiu na Terra. Não são relações determinadas pela espécie à qual pertence, mas pelas escolhas que fez.
E então aquela pequena caixa volta a piscar. É o aparelho através do qual Sugar tentou encontrar outros de sua espécie depois que os demais deixaram o planeta. Alguém respondeu.Não sabemos quem. Pode ser outro alienígena. Pode ser alguém que conhece os planos de Djen. Pode ser o início de uma resistência. O importante é que Sugar finalmente parece disposto a colocar em primeiro plano aquilo que passou duas temporadas escondendo atrás dos crimes que John investigava.
Talvez seja por isso que a série seja ao mesmo tempo tão fascinante e, por vezes, tão difícil de acompanhar. Ela funciona como o próprio Sugar. Parece uma coisa enquanto é outra. Nós nos distraímos procurando Ji Moon, Olivia Siegel ou qualquer outra pessoa desaparecida porque é assim que as histórias policiais nos ensinaram a assistir. Queremos descobrir quem sequestrou, quem matou, quem mentiu e onde está a vítima.

Enquanto isso, uma história sobre identidade, assimilação e possivelmente colonização alienígena acontece silenciosamente ao fundo.
No final da segunda temporada, a pergunta já não é mais se Sugar é um alienígena. Isso sabemos. Também não é apenas se os alienígenas estão entre nós. A pergunta que Sugar deixa é muito mais interessante: se chegar o momento em que John precisar escolher entre o povo ao qual pertence e a humanidade que aprendeu a amar, de que lado estará?
Desconfio que já sabemos a resposta.
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