Jack Reacher está de volta e, aparentemente, alguém decidiu que as três primeiras temporadas ainda não tinham quebrado ossos suficientes. Os primeiros episódios da quarta temporada chegaram ao Prime Video e a violência está, de fato, em outro nível. Há lutas longas, golpes que parecem doer através da tela e aquela lógica particular desse universo em que Alan Ritchson entra em um ambiente, calcula rapidamente quantas pessoas terá que derrubar e nós sabemos que a verdadeira dúvida não é se ele vai conseguir, mas exatamente como cada pobre coitado tomou uma decisão tão ruim na vida.
O curioso é que continua funcionando. Talvez até melhor justamente porque Reacher jamais demonstrou vergonha da própria fórmula.
A quarta temporada adapta Gone Tomorrow, o 13º romance de Lee Child, publicado em 2009. A história começa com Reacher encontrando uma mulher aparentemente perturbada no metrô. Algo dá terrivelmente errado e um episódio que poderia terminar como uma tragédia isolada abre a porta para uma conspiração envolvendo autoridades, segredos políticos e interesses muito maiores.

Como acontece praticamente a cada temporada, Reacher chega sozinho, encontra um problema que teoricamente não é dele, percebe que há algo errado, começa a fazer perguntas e conclui rapidamente que determinadas pessoas fizeram coisas que não deveriam ter feito. A partir daí, passam os episódios seguintes impondo uma espécie de justiça extremamente pessoal.
Nada disso é exatamente uma surpresa. E aí está uma parte importante do sucesso da série.
Existe uma diferença entre uma série previsível e uma série que conhece sua própria identidade. Reacher frequentemente anda perigosamente perto da primeira categoria, mas até agora continua se salvando pela segunda. A série sabe exatamente o que é, quem é seu protagonista e, principalmente, quem está sentado do outro lado da tela.
Jack Reacher é uma fantasia masculina quase primitiva. É fisicamente invencível, intelectualmente acima da média, não precisa de emprego fixo, quase não possui bens materiais, não presta contas a ninguém e pode simplesmente ir embora quando a missão acaba. Ele entra em lugares onde instituições falharam e resolve problemas usando uma combinação de dedução, código moral e força física absolutamente desproporcional.
Seria fácil transformar isso em algo insuportavelmente solene. Alan Ritchson entendeu que o personagem só funciona porque existe também um pequeno grau de absurdo na equação. Reacher sabe que é enorme. Nós sabemos que ele é enorme. Os inimigos, incompreensivelmente, continuam achando uma boa ideia enfrentá-lo.
A secura com que Ritchson interpreta tudo isso cria boa parte do humor da série. Ele não pisca para a câmera, não transforma Reacher em paródia e tampouco tenta convencer o público de que estamos diante de uma profunda desconstrução da masculinidade contemporânea. Há uma precisão quase antiquada na proposta: alguém fez algo errado, Reacher vai descobrir quem foi e pessoas terminarão muito machucadas durante o processo.
Nesta quarta temporada, muito mais machucadas.

A violência de Reacher nunca pretendeu ser realista no sentido estrito. Existe algo quase cartunesco na resistência física do personagem, mas as novas lutas parecem deliberadamente mais agressivas. Há menos distância entre Reacher e seus adversários, mais combate corpo a corpo e uma preocupação evidente em fazer com que cada impacto pareça particularmente desagradável.
É impossível assistir aos primeiros episódios sem perceber a escalada. A série parece ter concluído que, se essa é uma de suas principais atrações, não há razão para fingir pudor depois de quatro temporadas.
Mas existe um limite, e talvez seja justamente aí que este novo ano fique interessante. Porque aumentar permanentemente a brutalidade cria a mesma pergunta das grandes franquias de ação: para onde você vai depois? Se toda luta precisa superar a anterior, em algum momento o espetáculo corre o risco de engolir o personagem.
A trama também está mais complicada. Gone Tomorrow oferece uma conspiração mais intrincada do que algumas das histórias anteriores, e isso produz um contraste curioso com a simplicidade essencial de Reacher. Ele é um personagem direto colocado dentro de uma narrativa que tenta esconder cada vez mais camadas.
Nem sempre essa combinação funciona perfeitamente. Às vezes, a investigação parece existir apenas para atrasar o momento em que Reacher finalmente poderá resolver tudo do jeito que sabemos que vai resolver. Mas talvez essa previsibilidade seja menos um defeito do que um contrato. Porque Reacher tem uma qualidade cada vez mais rara no streaming: não parece estar tentando conquistar um público diferente a cada temporada.
A série sabe quem veio assistir. Não tenta subitamente transformar Reacher em um homem torturado por crises existenciais apenas para provar profundidade, nem desmonta o personagem em nome de uma reinvenção considerada obrigatória depois de alguns anos. Há consequências emocionais, relações e perdas, mas elas acontecem dentro da lógica estabelecida desde o começo.
Reacher continua sendo Reacher. Isso poderia ser preguiça. Em muitos programas seria. Aqui virou parte do acordo com o espectador. Talvez por isso a repetição continue sendo confortável em vez de cansativa. Você sabe que Reacher encontrará corrupção, que alguém vai subestimá-lo, que haverá um momento em que um adversário olhará para aquele homem de quase dois metros e ainda assim decidirá partir para cima dele. E você sabe, evidentemente, como isso vai terminar.

A série não depende da surpresa para funcionar. Depende da execução e Alan Ritchson continua sendo fundamental nisso. Há algo extremamente difícil em interpretar um personagem que quase nunca perde o controle, raramente demonstra medo e entra em praticamente qualquer situação sabendo que é a pessoa fisicamente mais perigosa do ambiente. Sem algum humor e alguma humanidade, Reacher seria apenas uma máquina. Ritchson consegue preservar justamente o suficiente das duas coisas para impedir isso.
A simplicidade, portanto, não é necessariamente uma limitação. Pode ser uma escolha.
Há séries melhores escritas, mais sofisticadas, mais ambiciosas e certamente menos violentas. Mas poucas são tão eficientes em estabelecer uma promessa e cumpri-la. Jack Reacher aparecerá em algum lugar. Algo parecerá errado. Ele começará a fazer perguntas. Pessoas perigosas concluirão erroneamente que podem intimidá-lo. Algumas cometerão o erro ainda maior de tentar bater nele.
E Reacher vai resolver a situação. Na quarta temporada, com mais violência do que nunca. Pode ser repetitivo. Pode ser absurdo. Às vezes são as duas coisas ao mesmo tempo. Mas enquanto a série continuar entendendo que sua fórmula precisa ser executada com convicção, e não usada como desculpa para fazer qualquer coisa, provavelmente continuaremos assistindo.
Até porque, quatro temporadas depois, aparentemente ninguém ainda avisou aos vilões que provocar aquele homem continua sendo uma ideia péssima.
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