Nicole Kidman sempre teve uma maneira muito particular de falar sobre seus relacionamentos: é franca sobre o que sentiu, mas nunca parece precisar transformar um ex-marido em vilão para explicar por que uma história terminou.
Em 2020, escrevi aqui sobre isso ao lembrar a forma como ela atravessou publicamente o fim do casamento com Tom Cruise. Mesmo depois de uma separação traumática e inesperada, Nicole nunca refez o passado para dizer que tudo havia sido um erro. Falava de um casamento feliz, de uma paixão verdadeira e de um homem por quem havia sido profundamente apaixonada. Naquele texto, quando Nicole ainda estava casada com Keith Urban, terminei com uma pergunta que, confesso, preferia que continuasse apenas teórica: como ela manteria essa mesma transparência caso um dia precisasse falar sobre outra separação? Agora sabemos.

Em uma longa e excelente entrevista à British Vogue, publicada esta semana, Nicole fala com uma abertura incomum sobre o fim de seu casamento de 19 anos com Keith Urban. Não explica o que aconteceu entre os dois, não distribui culpas e tampouco oferece alguma grande revelação sobre os bastidores da separação. Em vez disso, fala sobre o que aconteceu com ela quando a vida deixou de seguir o roteiro que imaginava.
“Eu tinha uma visão diferente de como seria minha vida”, admite. Nicole conta que chegou a se sentir “muito assustada e profundamente vulnerável” e que, durante algum tempo, percebeu que tinha basicamente duas escolhas: se fechar ou continuar andando para a frente com esperança. É uma distinção importante. Ela não disse por que o casamento terminou. Disse o que significa perceber, aos 59 anos, que os planos que pareciam sólidos simplesmente deixaram de existir.
Talvez por isso a melhor resposta de toda a entrevista tenha surgido quando o repórter perguntou se atravessar um divórcio tão público quanto o de Tom Cruise, em 2001, havia lhe dado alguma experiência útil para enfrentar o atual. Nicole levantou as mãos, riu e respondeu: “É tudo novo”. Quando o entrevistador insistiu, perguntando se era assim toda vez, ela confirmou: “Toda vez”.
Pode parecer uma frase simples, mas é provavelmente a reflexão mais honesta da entrevista. Não existe currículo para separação. Ter sobrevivido ao fim de um grande amor não ensina necessariamente como sobreviver ao fim do próximo.
Tom Cruise reaparece na conversa de uma maneira que confirma exatamente a Nicole que acompanhamos há mais de duas décadas. Ela tinha apenas 22 anos quando os dois se apaixonaram e lembra que ouviu alertas de que se casar com uma estrela daquele tamanho poderia prejudicar sua própria carreira. Nicole não estava nem um pouco interessada nessa análise. Estava apaixonada e queria se casar.
“Eu não me importo. Estou apaixonada. Quero me casar”, recorda. E completa que, naquele momento, teria até colocado a carreira de lado se fosse necessário. É uma declaração extraordinária não porque Nicole Kidman esteja dizendo que mulheres devem abandonar carreiras por homens — sua própria trajetória demonstrou exatamente o contrário —, mas porque ela continua se recusando a falsificar quem era aos 22 anos usando a consciência que tem aos 59.

Ela amou Tom Cruise, casou porque quis, foi feliz durante parte daquele casamento e depois a relação terminou. Uma coisa não precisa anular a outra. Em 2020, quando voltou a falar sobre os rumores de que De Olhos Bem Fechados teria contribuído para a ruptura dos dois, Nicole já fazia a mesma coisa. Dizia que as pessoas haviam criado essa narrativa, mas que sua lembrança daquele período era de um casamento feliz. Ela e Tom filmavam cenas emocionalmente devastadoras com Stanley Kubrick e depois saíam às três da manhã para correr de kart.
A memória, afinal, não precisa obedecer à conclusão. Talvez seja exatamente essa a qualidade mais interessante de Nicole quando fala sobre seus casamentos: ela não transforma o final em explicação para tudo que veio antes.
Com Keith Urban parece seguir pelo mesmo caminho. Nicole admite que sofreu, teve medo e se viu diante de uma vida que não reconhecia como aquela que havia planejado, mas não está oferecendo ao público um culpado que torne tudo mais fácil de compreender. Há até algo quase irônico nisso. Durante décadas perguntaram a Nicole Kidman sobre Tom Cruise como se uma separação devesse obrigatoriamente conter uma resposta definitiva sobre o que aquele casamento “realmente” havia sido. Agora, diante de uma nova ruptura, ela parece dizer que talvez as relações não funcionem dessa maneira.


Algumas histórias são felizes até deixarem de ser, alguns planos funcionam até não funcionarem e experiência nenhuma impede que uma nova perda seja sentida como nova. Nicole diz que o futuro lhe parece completamente desconhecido neste momento. Está viajando, trabalhando, acompanhando as filhas, saindo para dançar — às vezes usando uma pequena peruca escura em Ibiza para não ser reconhecida — e se preparando para o lançamento de Da Magia à Sedução 2, novamente ao lado de Sandra Bullock.
Mas a imagem mais interessante da entrevista não é a da estrela internacional em festas pela Europa. É a da mulher que admite não saber exatamente o que vem depois. Em 2020, eu me perguntava como Nicole Kidman falaria sobre uma nova separação. Seis anos depois, temos a resposta: da mesma maneira como sempre falou sobre o amor, sem negar a dor quando termina, mas também sem destruir aquilo que existiu apenas para tornar o final mais fácil de explicar.
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