Fúria questiona por que ainda cobramos mulheres de serem vítimas perfeitas

Como publicado em CLAUDIA

Mulheres traumatizadas ou socialmente deslocadas sempre renderam boas detetives nas telas. Mas, embora ocupem a TV há décadas, mesmo quando finalmente assumiam o centro da narrativa precisavam provar constantemente que eram tão competentes quanto os homens ao redor. Fúria, a nova série do Hulu disponível no Disney+, pertence a um momento diferente do thriller. Aqui, duas mulheres estão no centro da história e nenhuma delas cabe confortavelmente nas categorias de heroína, vilã ou vítima.

Alice Black, vivida por Emmy Rossum, é uma agente do FBI que começa a investigar uma série de mortes e acaba no encalço de Catherine, interpretada por Lola Petticrew. Catherine é uma serial killer, mas descobrir quem ela matou e por quê transforma rapidamente aquilo que poderia ser apenas mais uma perseguição policial em uma discussão muito mais desconfortável sobre violência, justiça e vingança. É justamente nessa região cinzenta que a série criada por Liz Meriwether, de New Girl e Morrendo por Sexo, encontra seu melhor argumento.

Já entrevistei Liz aqui para CLAUDIA quando falamos de Dying for Sex. Sempre fui muito fã dela e não me decepcionei com o que encontrei aqui.

Livremente inspirada em O Mistério da Viúva Negra, filme de 1987, Fúria parte de uma pergunta conhecida do suspense — o que se passa na cabeça de uma assassina? — para chegar a outra muito mais contemporânea: o que acontece com uma mulher depois que ela sofre violência e não reage da maneira que esperamos que uma vítima reaja?

E aqui preciso fazer uma confissão diferente: eu adorava O Mistério da Viúva Negra. Debra Winger vivia o auge da popularidade e contracenava com uma sensualíssima e enigmática Theresa Russell. Mais do que a perseguição entre investigadora e assassina, havia entre as duas um fascínio quase erótico, uma atração que deixava a relação muito mais ambígua do que o tradicional jogo entre policial e criminosa. Era ousado em 1987. E pensar que, quase 40 anos depois, essa ideia de duas mulheres se observando, se reconhecendo e atravessando a fronteira entre caça e caçadora ainda consegue parecer tão contemporânea.

Meriwether usa uma expressão especialmente importante ao explicar a proposta de Fúria: “vítima perfeita”.

Na vida real, mulheres que denunciam violência ainda são frequentemente submetidas a uma espécie de prova moral paralela. Espera-se coerência absoluta, comportamento irrepreensível, sofrimento demonstrado da maneira considerada correta e nenhuma atitude que possa complicar a narrativa entre vítima e agressor. Fúria deliberadamente se recusa a oferecer essa simplicidade.

Essa discussão não foi construída apenas a partir da ficção. Durante o desenvolvimento da série, Meriwether e Emmy Rossum conversaram com agentes mulheres do FBI, policiais e promotoras para entender como casos de violência são tratados dentro do próprio sistema e também o fenômeno, muito mais raro, de uma serial killer mulher.

Catherine sofreu violência, mas isso não transforma automaticamente suas escolhas posteriores em atos justificáveis. Alice trabalha para o sistema de Justiça, mas também carrega traumas que interferem na maneira como enxerga o caso. As duas começam em lados aparentemente opostos e, aos poucos, revelam pontos de contato desconfortáveis.

Há um eco de Olivia Benson na maneira como Alice leva a sério a experiência das vítimas e se recusa a tratá-las apenas como peças de uma investigação. Mas a semelhança termina aí.

Benson, em Law & Order: SVU, transformou a empatia em uma forma excepcional de competência social. Ela sabe acolher, ler as pessoas, estabelecer confiança e circular por situações emocionalmente extremas com uma segurança que se tornou parte essencial da personagem.

Alice é quase o contrário.

Ela percebe muito, sente muito, mas parece constantemente deslocada nas relações humanas. Há nela uma rigidez, uma inadequação social e uma dificuldade de transformar sensibilidade em conexão. Isso faz com que sua empatia seja menos confortável e, talvez, mais perigosa. Quanto mais Alice compreende Catherine, mais difícil se torna manter intacta a divisão entre quem representa a Justiça e quem decidiu fazer justiça com as próprias mãos.

Esse desconforto ajuda a explicar por que Alice funciona tão bem como protagonista de Fúria. Ela está do lado institucionalmente correto, mas nunca parece completamente encaixada naquele sistema. E a série parece interessada justamente nesse tipo de personagem: mulheres que não ocupam com facilidade nem mesmo os lugares que, em teoria, deveriam defini-las.

É uma mudança importante na maneira como personagens femininas vêm sendo escritas. Durante décadas, mulheres complexas no cinema e na televisão frequentemente precisavam ser explicadas ou punidas quando demonstravam raiva, ambição, desejo ou violência. O thriller contemporâneo parece cada vez mais interessado em permitir outra coisa: mulheres contraditórias, difíceis e até desagradáveis sem que sua humanidade dependa de serem exemplos de virtude.

Isso não significa transformar uma assassina em heroína. Significa aceitar que compreender uma personagem não é o mesmo que absolvê-la. Emmy Rossum e Lola Petticrew sustentam justamente essa tensão. Caça e caçadora mudam de posição emocional ao longo da narrativa, enquanto a série evita oferecer ao espectador o conforto de decidir rapidamente quem merece sua empatia.

A recepção crítica reforça que essa ambiguidade funciona. Fúria estreou com 100% de aprovação dos críticos no Rotten Tomatoes, conquistando o selo Certified Fresh — um dado que chama a atenção justamente porque o thriller policial é um dos gêneros mais explorados da televisão e, ainda assim, a série conseguiu se destacar dentro dele.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais thrillers protagonizados por mulheres estejam encontrando tanto espaço atualmente. Não apenas porque finalmente há mais mulheres no centro dessas histórias, mas porque elas passaram a ter direito a algo que personagens masculinos sempre tiveram: ser moralmente complicadas.

Fúria não pergunta apenas quem matou ou quem conseguirá capturar quem. Sua pergunta mais interessante é outra: quando uma mulher deixa de corresponder à imagem da vítima que gostaríamos que ela fosse, continuamos dispostos a enxergar o que aconteceu com ela?

Os cinco primeiros episódios de Fúria já estão disponíveis no Disney+, com novos capítulos às segundas-feiras.


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