Hoje é o primeiro de muitos domingos até 2028, quando voltaremos a Westeros para assistir à conclusão da Dança dos Dragões. Especular será, até lá, inevitável e certamente muito explorado. Temos Alys Rivers, Homens Verdes, profecias, destinos alterados, dragões desaparecidos, sobreviventes inesperados e um livro que já não funciona exatamente como mapa. Assunto não vai faltar. Mas, ainda no calor do que acabamos de ver, vale primeiro olhar para trás, porque a terceira temporada de House of the Dragon foi, finalmente, aquela que a série vinha prometendo desde 2022. Não foi perfeita, nem de longe, mas foi a temporada em que a Dança efetivamente começou.


A missão ingrata de voltar a Westeros
House of the Dragon sempre teve uma missão infeliz. Precisava nos convencer a voltar a Westeros depois da péssima repercussão do final de Game of Thrones e, ao mesmo tempo, lidar com a sombra gigantesca de seu sucesso. Era uma comparação praticamente impossível de evitar e havia, teoricamente, uma vantagem enorme: desta vez a história estava pronta. A Dança dos Dragões já tinha começo, meio e fim em Fire & Blood. Ryan Condal não correria o risco que David Benioff e D.B. Weiss enfrentaram ao ultrapassar os livros de George R.R. Martin e precisarem encontrar sozinhos uma conclusão.
A vantagem rapidamente virou cobrança. Com a história publicada, cada alteração passou a poder ser comparada imediatamente com o original. Personagens retirados, outros fundidos, motivações modificadas, cronologias deslocadas e acontecimentos inventados foram analisados quase quadro a quadro pelos leitores. Em alguns momentos, o desentendimento chegou ao próprio George R.R. Martin. Não deve ser fácil ser Ryan Condal, eu admito.

Há ainda uma diferença importante que às vezes se perde nessa discussão: quem leu o livro e quem não leu não estão necessariamente assistindo à mesma série. Para nós, uma personagem que desaparece pode significar que outra terá de absorver seu destino. Uma morte antecipada altera imediatamente cinco acontecimentos futuros. Uma mudança aparentemente pequena acende um alerta porque sabemos o que deveria acontecer depois. A maioria do público não tem esse mapa.
Para quem nunca leu Fire & Blood, House of the Dragon certamente tem furos, problemas de ritmo e decisões difíceis de justificar, mas muitos dos motivos que provocam as maiores revoltas entre os leitores simplesmente não existem. Há coisas que não funcionam como adaptação e outras que não funcionam como televisão, e nem sempre são as mesmas.
Uma série melhor do que às vezes parece
No balanço dessas três temporadas, houve mais acertos do que erros, e o elenco foi um deles desde o início. House of the Dragon misturou atores conhecidos a uma quantidade enorme de rostos que ainda não tinham o peso de grandes estrelas internacionais e encontrou praticamente todos os seus personagens.
Emma D’Arcy recebeu talvez a responsabilidade mais ingrata de todas. Precisou assumir Rhaenyra depois do impacto enorme de Milly Alcock, carregar a protagonista de uma franquia gigantesca e ainda interpretar uma mulher que foi se tornando muito menos fácil de defender conforme a história avançava. Hoje é adorada pelo público de uma maneira que, guardadas as proporções, lembra a relação criada entre Emilia Clarke e os fãs de Game of Thrones.
Tom Glynn-Carney fez algo ainda mais difícil com Aegon: humanizou um homem sem apagar aquilo que havia de condenável nele. Olivia Cooke, Ewan Mitchell, Steve Toussaint, Sonoya Mizuno, Fabien Frankel e tantos outros ajudaram a fazer de personagens muitas vezes apresentados por Martin quase como nomes num relato histórico pessoas das quais passamos a gostar, desconfiar ou detestar. Mesmo com tudo isso, durante bastante tempo, House of the Dragon foi uma série mais morna do que tinha potencial para ser.

Uma boa primeira temporada e uma segunda que parecia não terminar
A primeira temporada tinha problemas enormes para resolver. Precisava cobrir décadas, trocar parte importante do elenco no caminho, criar relações emocionais em poucos episódios e ainda fazer com que nos importássemos com uma guerra que só começaria de verdade no futuro. Conseguiu fazer isso muito melhor do que seria razoável esperar e, quando Lucerys morreu, a promessa parecia clara: havia acabado a tentativa de evitar o conflito e agora viria a guerra.
Só que a segunda temporada resolveu continuar adiando boa parte dela. Foi uma temporada mais arrastada, repetitiva e estranhamente defensiva. Rhaenyra queria evitar a guerra, Alicent oscilava e Daemon foi enviado para Harrenhal, onde Matt Smith, um dos maiores recursos da série, passou boa parte dos episódios delirando pelos corredores, revendo mortos e sendo obrigado a enfrentar os próprios fantasmas.
Eu entendo o que Condal queria fazer com Daemon e, na verdade, depois da terceira temporada entendo ainda melhor. Isso não muda o problema de que, dramaturgicamente, foi tempo demais. Uma ideia pode fazer sentido para o arco de um personagem e ainda assim prejudicar o ritmo de uma temporada inteira. Harrenhal fez as duas coisas, e a segunda temporada terminou com a sensação incômoda de que havíamos passado oito episódios preparando algo que deveria ter acontecido antes.

Na terceira, finalmente houve uma guerra
A terceira temporada precisava pagar essa conta e pagou. Vieram batalhas, mortes, sangue, traições, dragões, mudanças de lado e consequências. A guerra deixou de ser uma ameaça discutida em conselhos e passou a destruir pessoas, cidades e alianças, tornando imediatamente House of the Dragon uma série mais viva.
Isso não aconteceu apenas porque dragões lutando são visualmente espetaculares, embora sejam. A diferença é que finalmente as decisões começaram a cobrar seus preços quase imediatamente. Ulf ganhou Silverwing e descobrimos o perigo de entregar uma arma nuclear a alguém sem qualquer estrutura moral ou emocional para entender o poder que recebeu. Hugh passou por uma transformação semelhante sem seguir necessariamente o mesmo caminho, o que tornou os dois muito mais interessantes do que a simples dupla de “Dois Traidores” que conhecemos do livro.
Tumbleton foi o ponto em que essas histórias finalmente colidiram e funcionou porque não era apenas espetáculo. Quando tudo começa a queimar, já sabemos quem são aquelas pessoas, o que cada uma acredita estar defendendo e o que pode perder.

James Norton e Tommy Flanagan chegaram tarde, mas deixaram marca
A terceira temporada também mostrou como House of the Dragon é boa em trazer alguém novo e fazê-lo parecer imediatamente parte daquele mundo. James Norton teve poucos episódios para transformar Ormund Hightower numa presença difícil de ignorar e conseguiu fazer de um personagem pomposo, autoritário, manipulador, ambicioso e por vezes quase ridículo alguém que nunca caiu inteiramente na caricatura. Havia prazer em odiá-lo, algo que uma série tão carregada de personagens atormentados também precisava.
Ormund encontrou o adversário perfeito em Roderick Dustin. Tommy Flanagan entrou em Westeros como se tivesse vivido ali desde sempre e deu a Roddy the Ruin aquela qualidade que os melhores personagens do Norte sempre tiveram em Game of Thrones: poucas palavras, nenhuma dúvida e a impressão constante de que morrer fazia parte do plano.
A despedida dos dois em Tumbleton foi brutal, absurda e estranhamente engraçada, exatamente como precisava ser. Roddy consegue matar Ormund antes que ambos sejam engolidos pelo fogo de Silverwing, encerrando dois personagens recém-chegados que, mesmo em pouco tempo, conseguiram ocupar um espaço enorme na temporada.

E então finalmente conhecemos Daeron
Daeron carregava outro problema criado pela própria adaptação. Durante duas temporadas ouvimos falar do quarto filho de Alicent e Viserys sem vê-lo. Para quem leu o livro, sua ausência sempre foi esquisita porque sabemos o quanto ele é importante para a Dança. Quando finalmente chegou, Benjamin Evan Ainsworth precisava fazer mais do que simplesmente apresentar outro Targaryen montado num dragão, e a série encontrou uma solução interessante ao transformar Daeron numa disputa moral entre dois Hightowers.
Ormund vê nele poder, sucessão e oportunidade. Quer moldá-lo, utilizá-lo e transformá-lo no rei de que precisa. Gwayne, por outro lado, enxerga o rapaz. Essa diferença permitiu que Daeron entrasse rapidamente na história sem parecer apenas mais uma peça no tabuleiro e, ao mesmo tempo, produziu uma das maiores surpresas da temporada.

A extraordinária ascensão de Gwayne Hightower
Freddie Fox já havia conseguido tornar Gwayne interessante, mas a terceira temporada fez dele muito mais. Em uma família que passou boa parte de House of the Dragon construindo uma reputação péssima, com Otto manipulando todos ao redor, Alicent participando da instalação de Aegon no trono, Aemond queimando o reino e Ormund usando Daeron como peça política, Gwayne apareceu como uma espécie de correção moral inesperada.
Não porque tenha virado santo, o que seria muito menos interessante, mas porque começou a demonstrar uma qualidade surpreendentemente rara naquela família: cuidado. Sua relação com Daeron fez isso de maneira particularmente bonita. Ormund oferece ao jovem príncipe uma ideia de grandeza, enquanto Gwayne oferece proteção, afeto e a possibilidade de escolher quem quer ser.
É uma transformação interessante também para o sobrenome Hightower. Durante muito tempo, a série quase nos treinou para desconfiar dele. Gwayne devolveu alguma dignidade à família justamente quando Ormund representava sua face mais oportunista. E sobreviveu, algo que para quem conhece Fire & Blood não era exatamente garantido, e abre mais uma mudança importante para a temporada final.

Criston Cole queria virar uma canção
Outros não tiveram a mesma sorte. Ser Criston Cole passou três temporadas colecionando motivos para ser odiado. Começou como cavaleiro idealizado por Rhaenyra, transformou rejeição em ressentimento, matou impulsivamente, tornou-se aliado e amante de Alicent, colocou Aegon no trono e ganhou o título pelo qual seria lembrado: Fazedor de Reis.
A terceira temporada fez algo que eu não esperava e tornou Criston mais interessante justamente quando começou a desmontar tudo aquilo que ele acreditava sobre si mesmo. A guerra que parecia gloriosa quando era discutida em salas fechadas deixou de ser gloriosa quando ele começou a caminhar entre corpos queimados. Criston queria significado, honra e, talvez, no fundo, transformar sua vida numa daquelas histórias que os homens contam sobre cavaleiros séculos depois.
Westeros não lhe deu esse presente. Sua morte foi quase cruel justamente por ser tão pouco grandiosa. Não houve duelo memorável nem oportunidade de escolher a própria despedida. O homem que ajudou a fabricar um rei não conseguiu controlar sequer a maneira como seria lembrado. Fabien Frankel deixou a série num momento em que Criston finalmente havia se tornado algo mais complexo do que o homem que adorávamos odiar, e talvez por isso sua morte tenha parecido tão abrupta. Talvez esse fosse justamente o ponto.

Helaena e uma das despedidas mais tristes
A morte de Helaena era conhecida por todos que leram o livro e, ainda assim, doeu. Phia Saban fez um trabalho delicadíssimo desde que assumiu uma personagem que poderia facilmente ter sido reduzida à “estranha” da família. Sua Helaena parecia estar sempre meio passo fora da realidade dos outros, não porque não entendesse o mundo, mas porque talvez entendesse coisas demais.
A série ampliou radicalmente esse aspecto e transformou suas frases aparentemente desconexas em visões. Na terceira temporada, a percepção de que Helaena sabe muito mais do que consegue ou deseja explicar deixou de ser apenas curiosidade e passou a ter peso real sobre a história.
Ela morre como em Fire & Blood, atirando-se da janela, embora a adaptação tenha mudado significativamente o caminho que a leva até ali. A ausência de Maelor obrigou a série a construir outra sequência emocional para chegar ao mesmo destino, e Phia Saban conseguiu fazer daquela despedida algo íntimo numa temporada marcada por batalhas gigantescas.
Helaena sai da história como viveu, vendo alguma coisa que os outros ainda não conseguem compreender. E olhando agora para trás, há muita coisa que ela disse, desenhou e bordou que merece ser revista. Voltaremos a ela porque sua morte encerra a personagem, mas certamente não encerra tudo o que ela deixou para trás.

Aegon foi a grande surpresa
Se existe um personagem cuja terceira temporada alterou completamente a maneira como o enxergamos, é Aegon. Isso não significa absolvição e nem deveria. A série nunca apagou quem ele foi: abusador, bêbado, irresponsável, despreparado e cruel. O mérito do trabalho de Tom Glynn-Carney está justamente em não precisar fingir que nada disso aconteceu para encontrar humanidade no personagem.
Aegon perdeu filhos, corpo, poder, dragão, autonomia e praticamente qualquer ilusão sobre a família que o colocou no trono. Curiosamente, foi depois de perder quase tudo que começou a aprender. Já escrevi antes que talvez seja o melhor arco da temporada porque existe uma inversão fascinante acontecendo entre ele e Rhaenyra: Aegon começa a mudar quando aprende a ouvir coisas que não quer ouvir, enquanto Rhaenyra começa a mudar quando passa a ouvir principalmente aquilo que confirma o que já acredita.
O retorno de Aegon a Aemond no final fecha essa transformação de maneira quase inesperada. Depois de tudo, inclusive da tentativa de assassinato, os dois terminam novamente diante um do outro e precisam reconhecer que a guerra ainda os liga. Não é um perdão simples, mas política, e talvez seja justamente o fato de Aegon finalmente começar a compreender isso que o torne muito mais perigoso.

Rhaenyra conseguiu o que queria. Esse é o problema
Rhaenyra termina a temporada exatamente onde passou a vida inteira dizendo que deveria estar: no Trono de Ferro. Só que a conquista deixou de parecer vitória. Emma D’Arcy fez uma temporada muito difícil porque Rhaenyra precisou atravessar uma transformação que a série vinha adiando. Durante muito tempo, Condal pareceu hesitar diante dos aspectos menos defensáveis da personagem. A Rhaenyra da televisão queria paz durante mais tempo, tentava impedir mortes, procurava alternativas e frequentemente parecia reagir à guerra em vez de conduzi-la.
Na terceira temporada isso finalmente começou a mudar. A insegurança não desapareceu, mas se transformou. Rhaenyra deixou de acreditar apenas que Viserys a escolheu e passou a acreditar que a escolha fazia parte de algo maior. A profecia, que antes era um segredo herdado do pai, tornou-se instrumento de legitimação e finalmente quase uma confirmação divina.
Quando declara ser o Príncipe que Foi Prometido, já não está apenas defendendo um direito sucessório. Está dizendo que precisa vencer, e existe uma diferença enorme entre querer poder e acreditar que o universo exige que você o tenha. A execução do Alto Septão, o tratamento dado a Helaena, o rompimento com Mysaria e as ordens cada vez mais violentas mostram uma mulher que finalmente tomou o trono ao mesmo tempo em que começa a perder as pessoas necessárias para mantê-lo.
Essa Rhaenyra é muito mais interessante, mesmo quando é muito mais difícil gostar dela.

E, finalmente, Daemon está ao lado de Rhaenyra
Depois de uma temporada inteira em Harrenhal brigando principalmente consigo mesmo, Daemon chegou à terceira temporada transformado. Não domesticado, graças aos deuses antigos e novos, porque também não faria sentido, mas finalmente alinhado com Rhaenyra.
Talvez essa tenha sido a verdadeira função de tudo aquilo que nos cansou tanto na segunda temporada. Daemon precisava abandonar a fantasia de que o trono poderia ou deveria ser seu para escolher Rhaenyra sem transformar cada aliança entre os dois numa disputa de poder. Na terceira temporada, eles finalmente passaram a lutar a mesma guerra.
Isso não significa que reajam da mesma forma a ela. Pelo contrário. Tumbleton produz uma ironia ótima: justamente quando Rhaenyra começa a aceitar cada vez mais a lógica de fogo e sangue que Daemon sempre defendeu, Daemon é colocado diante da consequência real dessa lógica. O homem que tantas vezes achou Rhaenyra fraca por hesitar olha para a destruição que o fogo dos dragões produziu e já não parece tão confortável com aquilo que passou a vida pregando.
Matt Smith funciona muito melhor quando Daemon pode agir, provocar, lutar, amar, odiar e se contradizer do que quando passa episódios caminhando sonâmbulo pelos mesmos corredores. A terceira temporada devolveu isso ao personagem sem apagar aquilo que Harrenhal havia mudado nele. Daemon e Rhaenyra chegam à reta final do mesmo lado, talvez pela primeira vez de verdade, mas isso não significa que estejam se tornando as mesmas pessoas.

Nunca vimos Westeros tão bonita
Tecnicamente, é difícil encontrar grandes ressalvas. House of the Dragon está deslumbrante e hoje parece mais rica do que Game of Thrones teve condições de parecer durante boa parte de suas oito temporadas. Os dragões ganharam peso, comportamento e personalidade próprios. Já não são apenas criaturas diferentes por tamanho ou cor. Reconhecemos como se movimentam, como atacam e até como se relacionam com seus cavaleiros.
As batalhas da terceira temporada finalmente aproveitaram isso e, ainda assim, conseguiram não depender apenas do espetáculo. Game of Thrones teve sequências que me causaram um impacto emocional e narrativo maior porque escala nunca substitui construção, mas tecnicamente House of the Dragon atingiu um nível impressionante.
Minha grande ressalva visual continua sendo os figurinos. São bonitos, caros e muito mais elaborados do que os de praticamente qualquer outra série no ar, mas nunca chegaram aos pés do que Game of Thrones fez. Michele Clapton conseguia contar ascensão, luto, poder, sexualidade e transformação política através de uma manga, uma cor ou um bordado. Em House of the Dragon, mesmo com peças belíssimas, raramente sinto a mesma força narrativa.

Ramin Djawadi encontrou outra Westeros
Já falei separadamente sobre a trilha, portanto não vou repetir tudo aqui, mas Ramin Djawadi merece estar em qualquer balanço da temporada. A música ficou mais sombria, mais orquestral e menos dependente dos temas herdados de Game of Thrones. Aos poucos, temas que começaram como variações de uma herança conhecida ganharam identidade até House of the Dragon encontrar uma sonoridade realmente própria.
Djawadi fez algo particularmente difícil ao manter a memória musical de Game of Thrones sem transformar a nova série numa sucessão de referências ao passado. Na terceira temporada, sua música parece muitas vezes saber antes dos próprios personagens que a história já entrou definitivamente em sua fase trágica.
O problema das mudanças não é mudar
Chegamos então ao ponto mais delicado. A terceira temporada continuou alterando bastante Fire & Blood. Em alguns casos, melhorou os personagens. Em outros, encontrou soluções muito boas para a televisão. Em vários, ainda não consigo enxergar por que a mudança era necessária. Mas talvez a discussão mais interessante já não seja simplesmente fidelidade.
Alterar o livro nunca foi, por si só, o problema. O problema é que cada alteração cria uma nova obrigação narrativa. Se Hugh não traiu junto com Ulf, é preciso haver uma razão e um destino para isso. Se Gwayne sobreviveu, sua permanência precisa significar alguma coisa. Se Mysaria foi levada a um lugar completamente diferente daquele que ocupa no livro, o caminho até seu destino também terá que mudar, se o destino continuar sendo o mesmo.
Se Helaena ganhou uma capacidade profética muito mais explícita, aquilo que ela viu não pode simplesmente desaparecer. Se Alys Rivers agora carrega uma história que muda nossa compreensão sobre quem ela é, teremos que entender por quê. Se os Homens Verdes foram colocados fisicamente diante dos personagens, deixaram de existir apenas como uma nota obscura da mitologia de Westeros.
A quarta temporada não terá apenas a responsabilidade de concluir a Dança. Terá também que pagar todas as promessas que a própria adaptação criou.

Então, a terceira foi a melhor temporada?
Talvez seja a temporada mais próxima que House of the Dragon chegou da série que sempre teve potencial para ser. A primeira ainda me parece mais coesa em alguns aspectos. A terceira herdou problemas, continuou criando alguns novos e tomou decisões que só poderão ser realmente julgadas quando soubermos onde pretendem chegar. Mas foi mais emocionante, mais perigosa e mais surpreendente.
James Norton e Tommy Flanagan chegaram e foram embora deixando marcas enormes. Benjamin Evan Ainsworth finalmente deu rosto e personalidade a Daeron. Freddie Fox transformou Gwayne Hightower numa improvável referência moral. Fabien Frankel e Phia Saban se despediram com duas mortes completamente diferentes e igualmente coerentes com seus personagens. Tom Glynn-Carney continuou fazendo o impossível com Aegon. Emma D’Arcy finalmente ganhou uma Rhaenyra mais difícil, contraditória e interessante. Matt Smith voltou a ter um Daemon que participa da história em vez de apenas sonhá-la.
Tumbleton deixou claro que agora não há volta, e talvez esse seja o melhor elogio que posso fazer à terceira temporada: terminou e imediatamente queremos saber o que acontece depois. O curioso é que sabemos. Mais ou menos.
Fire & Blood continua nos dizendo onde muitos desses personagens vão terminar, só que House of the Dragon mexeu o suficiente no caminho para retirar nossa segurança sobre como chegarão lá. Depois de uma série que às vezes parecia excessivamente preocupada em explicar e preparar tudo, alguma imprevisibilidade faz muito bem.
Agora temos muitos domingos pela frente e vamos falar de Alys Rivers, dos Homens Verdes, de Helaena, do Olho de Deus, de Daemon e Aemond, de Rhaenyra e Daenerys, de Aegon, de profecias, de dragões e de todas as mudanças que ainda podem implodir alguma teoria perfeitamente construída. Até 2028, teremos tempo. Pela primeira vez desde que House of the Dragon começou, isso parece mais uma promessa do que uma ameaça.
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