Spoilers do terceiro episódio da terceira temporada de Lioness.
Apesar de a violência ter escalado a um grau de muito desconforto em nome de um “realismo”, é inegável que a terceira temporada de Lioness está ótima e, três episódios depois, já acho que entendi por quê. Taylor Sheridan praticamente deixou de lado a estrutura mais tradicional do programa Lioness para transformar Joe McNamara (Zoe Saldaña) no centro da própria operação. Até aqui, de alguma forma, a trajetória ascendente de Cruz Manuelos (Laysla De Oliveira) era o coração da ação, mesmo com a intensidade insalubre com que a líder Joe comanda sua equipe e suas missões.

A narrativa da temporada trabalha com duas linhas temporais simultâneas: o sequestro de Joe, em solo americano, e seu cativeiro no presente, enquanto acompanhamos o que aconteceu seis meses antes e levou até ali. O mistério não é apenas quem sequestrou Joe. Sabemos que são russos. A pergunta muito mais inquietante é como conseguiram descobrir quem ela era, onde morava, acompanhar seus movimentos e finalmente sequestrá-la em plena luz do dia, em solo americano.
E The Bear Is Infected, o terceiro episódio, finalmente começa a responder. Ou, como toda boa história de espionagem, troca uma pergunta por outra ainda pior.
Voltamos seis meses no tempo, imediatamente depois de Joe concluir que Oleksandra Balakin provavelmente havia entregado seu nome aos russos. Cruz, Kyle e Tex já tinham levado a agente ucraniana para interrogatório, mas Kyle não pretende correr riscos: enquanto fala com Oleksandra nos Estados Unidos, Cody e Grady estão em Kiev, dentro da casa da mãe e da irmã dela. Não é uma ameaça abstrata. Se Oleksandra estiver mentindo, sua família está ao alcance da CIA.
Só que Oleksandra insiste que não traiu Joe e, aos poucos, sua versão começa a fazer sentido. Mais interessante do que simplesmente provar sua inocência é a maneira como ela desmonta a lógica da investigação. Joe estava procurando a pessoa que entregou seu nome quando talvez o problema seja muito maior: não é preciso haver um único traidor quando existe uma rede inteira de informação funcionando dentro dos Estados Unidos. Kyle e Cruz saem convencidos de que ela não entregou Joe. Joe, naturalmente, quer ouvi-la pessoalmente.
É aí que o episódio fica realmente bom.
Oleksandra demonstra saber sobre uma antiga operação do próprio programa Lioness envolvendo Al-Zarqawi. Ou seja: informações que deveriam estar enterradas dentro da inteligência americana já chegaram aos russos. Aqui, meus parênteses: somos informados da trágica morte de Aaliyah Amrohi, paixão de Cruz e vítima colateral do mundo da espionagem. A frieza com que Cruz ouve a informação, ao lado da atual namorada e alvo da temporada passada, Josephina “Josie” Carrillo, me fez pensar imediatamente: corre, Josie. Mas agradeci com tristeza pelo update e me agarrei ao que aconteceria em seguida.

Quando Oleksandra se reúne com Joe, Kaitlyn, Byron e Amber Whelan, explica como o serviço de inteligência russo constrói seus ativos nos Estados Unidos e entrega um dossiê de pessoas que trabalham para Moscou. E então vem a informação que muda completamente a dimensão da história: Oleksandra ainda mantém ativos de alto escalão e eles incluem cinco senadores americanos em exercício.
Aí está a “infecção” do título. Joe passou duas temporadas viajando para países onde precisava descobrir quem era o inimigo. Agora talvez o inimigo esteja no mesmo corredor, usando o mesmo crachá, frequentando Washington e sentado dentro das instituições que supostamente deveriam protegê-la.
E isso torna o sequestro de Joe muito mais assustador. Porque já não estamos falando apenas de uma retaliação russa pela captura de Aleksi Yurimov na Ucrânia. Estamos falando de uma estrutura capaz de localizar uma agente da CIA dentro do próprio país sem aparentemente chamar a atenção até ser tarde demais.
Oleksandra propõe uma armadilha: tornar pública a captura de Yurimov e observar quem reage. Joe gosta da ideia, mas naturalmente a torna ainda mais perigosa. Não é preciso dizer o nome dele. Basta o governo anunciar que um agente russo foi capturado em solo americano. Quem fizer parte da rede saberá de quem estão falando. Oleksandra será liberada, seguida pela CIA e transformada em isca para que os russos saiam de seus esconderijos. Byron ainda quer pensar. Joe já colocou o plano em andamento.
E aqui Lioness faz o movimento mais inteligente do episódio.

Voltamos finalmente ao presente e encontramos Joe ainda sequestrada. Amarrada, privada de sono, com água pingando incessantemente sobre seu rosto, ela é obrigada a assistir justamente à coletiva de imprensa que anunciou, seis meses antes, a captura do agente russo.
Portanto, aquela operação não terminou. Talvez tenha acabado de começar.
O episódio não revela ainda exatamente quem entregou Joe, e acho ótimo que não revele. Pelo contrário: Oleksandra, que parecia a resposta mais óbvia no episódio passado, agora parece ser apenas mais uma peça de uma rede extraordinariamente maior. E o fato de os sequestradores obrigarem Joe a assistir àquela coletiva sugere que sua captura está diretamente ligada à armadilha que ela mesma criou seis meses antes. Joe tentou fazer os russos aparecerem. Em algum momento, foram eles que passaram a observá-la.
Paralelamente, Lioness continua fazendo algo que sempre foi uma de suas melhores qualidades, mas que nesta temporada ganhou outro peso: mostrar que não existe mais separação entre a guerra de Joe e sua família. Kate reúne todos e pede que a mãe abandone o trabalho. Joe responde que é uma soldado e que a liberdade de que a família desfruta existe porque pessoas aceitam fazer exatamente aquilo que ela faz. É uma defesa sincera, mas já não resolve o problema. Porque Kate e Charlie também estão pagando por essa escolha. Até um trajeto aparentemente normal vira uma operação quando Two Cups e Randy interpretam um carro próximo como possível ameaça.
Nas duas primeiras temporadas, Neal esperava que Joe voltasse da guerra. Agora a guerra chegou à porta de casa.
E é isso que faz esta terceira temporada funcionar tão bem. Zoe Saldaña continua impressionante nas sequências de ação, mas Lioness não está dependendo delas. O suspense está em descobrir o quanto os russos sabem, há quanto tempo sabem e quem, dentro dos Estados Unidos, está ajudando-os.
Três episódios depois, o maior ativo da CIA virou sua maior vulnerabilidade. Joe caçava pessoas escondidas. Agora é Joe quem está sendo caçada.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
