Hayden Panettiere morre aos 36, após uma vida diante das câmeras

Hayden Panettiere morreu aos 36 anos, poucos dias antes de completar 37 anos. A notícia foi confirmada por seu pai, Skip Panettiere, que disse estar compartilhando, com “profunda tristeza”, a perda da filha e a definiu como uma força da natureza que levou amor e alegria tanto a quem a conhecia quanto aos milhões que a acompanharam na televisão. A família pediu privacidade. Até o momento, a causa da morte não foi divulgada.

Para quem acompanhou televisão e cinema desde os anos 1990, é difícil conciliar os 36 anos com a sensação de que Hayden Panettiere esteve conosco por uma vida inteira. De certa forma, esteve. Começou a trabalhar ainda bebê, aos 11 meses, passou pelas novelas One Life to Live e Guiding Light e cresceu diante das câmeras. Ainda criança, dublou Dot em Vida de Inseto e apareceu em Duelo de Titãs, com Denzel Washington. Vieram depois Raising Helen, Ice Princess e outros filmes que fizeram dela um daqueles rostos que o público não conheceu antes da fama. Mas nada se compara ao que aconteceu em setembro de 2006, quando Heroes estreou na NBC.

É importante recuperar os números porque, 20 anos depois, a dimensão daquela febre pode se perder. O episódio de estreia foi assistido por 14,3 milhões de pessoas nos Estados Unidos e registrou a melhor estreia de um drama de outono da NBC entre o público de 18 a 49 anos em cinco anos. A primeira temporada manteve uma média próxima dos 14 milhões de espectadores e chegou a ultrapassar 16 milhões em seu ponto mais alto. Eram números de uma época em que milhões de pessoas ainda assistiam ao mesmo episódio na mesma noite e discutiam a série no dia seguinte.

Heroes não foi apenas um sucesso. Foi um fenômeno de cultura pop. A série criada por Tim Kring chegou no embalo da televisão de mistério serializado que Lost havia ajudado a transformar em obsessão mundial, mas oferecia algo diferente: pessoas comuns descobrindo poderes extraordinários em uma narrativa construída quase como uma história em quadrinhos semanal. Isso aconteceu antes da Marvel transformar os super-heróis no idioma dominante de Hollywood. Em 2006, esperar pelo próximo capítulo de Heroes, discutir suas pistas e tentar entender como aqueles personagens estavam conectados virou um ritual. E, no centro daquela primeira temporada, estava uma adolescente de 17 anos.

Hayden era Claire Bennet, a cheerleader capaz de regenerar o próprio corpo depois de qualquer ferimento. “Save the cheerleader, save the world” virou o lema de Heroes, repetido nos trailers, anúncios e discussões sobre a série. Claire não era apenas uma das personagens do enorme elenco. Salvar Claire passou a significar salvar o mundo, transformando Hayden em um dos rostos mais reconhecíveis daquele fenômeno. A imagem ficou marcada: a adolescente loira de uniforme de cheerleader descobrindo que podia cair, quebrar ossos, sangrar e voltar a se levantar.

Vinte anos depois, Hayden ainda falava de Heroes com enorme carinho. Durante a divulgação de sua autobiografia, contou que havia crescido naquele set e que a fama mudou sua vida praticamente de um dia para o outro. Os paparazzi apareceram, sua liberdade desapareceu e ela acreditava que os colegas da série tiveram um papel fundamental em mantê-la com os pés no chão quando ainda era muito jovem para compreender o tamanho do que estava acontecendo.

A série perdeu audiência nas temporadas seguintes e terminou em 2010, sem nunca reproduzir o impacto daquele primeiro ano. Mas Hayden conseguiu fazer algo que costuma ser ainda mais difícil para quem encontra uma personagem tão cedo: não ficou presa a Claire Bennet.

Em 2012 chegou Juliette Barnes, de Nashville. Ao lado de Connie Britton, Hayden encontrou seu melhor papel adulto. Juliette era uma jovem estrela da música country ambiciosa, insegura, sedutora, irritante, vulnerável e frequentemente autodestrutiva. Poderia ter sido apenas a rival mais jovem de Rayna Jaymes, mas cresceu muito além dessa função. Hayden encontrou nela uma personagem cheia de contradições e foi indicada duas vezes ao Globo de Ouro pelo trabalho. O problema é que, com o tempo, a distância entre a ficção e a vida começou a diminuir de uma maneira dolorosa.

Hayden falou publicamente sobre depressão pós-parto depois do nascimento da filha Kaya, dependência de álcool e drogas, períodos de tratamento e relacionamentos abusivos. Anos depois, reconheceria que algumas das histórias vividas por Juliette em Nashville começaram a refletir de maneira desconfortável o que acontecia fora das câmeras.

Havia ainda Kirby Reed, de Pânico 4. A personagem conquistou uma legião própria de fãs e permaneceu tão querida que Hayden voltou à franquia em Pânico VI, em 2023, mais de uma década depois. Era também seu retorno a uma grande produção após anos em que sua vida pessoal frequentemente ganhou mais espaço nas manchetes do que sua carreira.

Outro golpe veio em fevereiro de 2023, quando seu irmão mais novo, Jansen Panettiere, morreu aos 28 anos. A perda atravessa algumas das páginas mais dolorosas da autobiografia que Hayden lançaria três anos depois. Ela dizia que narrar esses capítulos para a versão em áudio havia sido especialmente difícil e rejeitava a ideia reconfortante de que o tempo simplesmente curasse uma perda daquela dimensão.

Em maio de 2026, Hayden publicou This Is Me: A Reckoning. O título não poderia ter sido mais direto. Depois de passar praticamente toda a vida interpretando personagens e vendo sua própria história narrada por tabloides, familiares, colegas, ex-companheiros e pelo próprio mecanismo da fama, ela decidiu contar sua versão.

No livro e nas entrevistas que o acompanharam, falou da infância trabalhando, das pressões enfrentadas como estrela adolescente, da dependência, da maternidade, da perda do irmão, de abusos e de escolhas que continuavam a causar dor. Mais importante, não apresentava o livro como uma despedida. Se apresentava como uma retomada.

Em maio, ao falar sobre o processo de escrevê-lo, disse ter descoberto que podia confiar mais em si mesma e que era mais corajosa do que acreditava. Queria que a história ajudasse outras pessoas a compreender que era possível passar por períodos devastadores, levantar e continuar. E uma das últimas entrevistas publicadas antes de sua morte torna esse momento ainda mais doloroso.

Em 22 de junho de 2026, Hayden falou à revista Odalisque sobre o que pretendia fazer depois da autobiografia. Estava entusiasmada. Queria trabalhar mais atrás das câmeras, dirigir, criar seu próprio programa e contou que já estava escrevendo uma série. Também pensava em criar uma marca de bem-estar e lifestyle. Depois de uma existência em que tantas decisões haviam sido tomadas por ela, dizia querer se concentrar no que a fazia feliz.

Não era uma mulher falando no passado. Era alguém fazendo planos. Em 27 de julho, três semanas antes de morrer, Hayden fez sua última publicação no Instagram. Aparecia sorrindo ao lado do fotógrafo Randall Slavin. A legenda tinha apenas algumas palavras: “Good times and good friends”.

Hayden Panettiere deixa a filha Kaya e uma carreira que atravessou praticamente toda a sua existência. Foi atriz infantil, estrela adolescente, cantora, protagonista de televisão e parte fundamental de dois fenômenos muito diferentes: primeiro, Heroes, quando 14 milhões de pessoas acompanhavam semanalmente uma cheerleader indestrutível; depois, Nashville, quando mostrou que tinha muito mais a oferecer como atriz do que a personagem que a tornara famosa.

Há uma crueldade impossível de ignorar na associação com Claire Bennet. Durante anos vimos Hayden interpretar uma adolescente que podia cair, se ferir de maneiras terríveis e sempre se regenerar. Na vida real, Hayden também passou anos falando sobre cair e se levantar. Só que, desta vez, sua história terminou quando ela própria dizia estar pronta para começar outra.


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