Desde a segunda temporada de Only Murders in the Building, eu tenho duas brincadeiras recorrentes. A primeira é que o Arconia deve ser, estatisticamente, o endereço residencial mais perigoso de Nova York. A segunda é imaginar o desespero de qualquer corretor de imóveis tentando vender um apartamento ali. Prédio histórico, Upper West Side, arquitetura maravilhosa, vizinhos interessantes e… uma média de assassinatos difícil de explicar para um possível comprador.
A própria série percebeu a piada e, ao longo das temporadas, começou a incorporá-la. Os personagens passaram a comentar o número absurdo de crimes acontecendo no mesmo lugar e o Arconia deixou de ser apenas cenário para se tornar praticamente um personagem, com passagens secretas, moradores suspeitos, funcionários que sabem mais do que deveriam e cadáveres aparecendo com uma frequência que certamente provocaria alguma reunião extraordinária de condomínio.
Mas existia um problema ainda maior, criado pelo próprio título: Only Murders in the Building. Se Charles, Oliver e Mabel só investigam assassinatos relacionados ao prédio, como sustentar uma série que fez muito mais sucesso do que provavelmente seus próprios criadores imaginavam?

O curioso é que Only Murders conseguiu transformar essa limitação em parte de sua identidade. A cada ano, aumentou o grau de absurdo, ampliou o universo e trouxe convidados cada vez mais inacreditáveis. Meryl Streep deixou de parecer uma participação impossível e virou personagem recorrente. Depois vieram nomes como Paul Rudd, Renée Zellweger, Christoph Waltz e tantos outros. O pequeno podcast de três vizinhos obcecados por true crime tornou-se uma das vitrines mais desejadas da televisão.
Agora, finalmente, a série está pronta para admitir que ficou grande demais para o próprio prédio. A sexta temporada leva Charles, Oliver e Mabel para Londres, depois que o final da quinta colocou Cinda Canning, vivida por Tina Fey, no centro do novo mistério. É a primeira vez que a investigação abandona realmente não apenas o Arconia, mas Nova York e os Estados Unidos. A produção começou a ser rodada em Londres em maio.
E a Disney aparentemente resolveu brincar até com o título. Na D23, o material promocional da nova temporada apareceu como Only Murders in London, uma pequena alteração que diz muito sobre o tamanho da mudança. Ainda não está completamente claro se será um novo título oficial para toda a temporada ou apenas uma identidade promocional, mas dificilmente poderia existir uma maneira mais elegante de reconhecer o problema que acompanhava a série havia anos.
Londres também permite que Only Murders faça aquilo que aprendeu a fazer muito bem: brincar com seu elenco. A temporada reuniu David Tennant, Jodie Whittaker, Peter Capaldi, Nicola Coughlan, Martin Freeman, Jim Broadbent, Jennifer Saunders, Jane Horrocks, Sharon Horgan, Richard Ayoade, Simone Ashley, Derek Jacobi e até Geri Halliwell, entre muitos outros. É quase mais fácil perguntar quem não estará na temporada.
E talvez essa seja justamente a melhor notícia. Depois de cinco anos obrigando roteiristas a descobrir novas razões para alguém matar — ou morrer — dentro ou perigosamente perto do mesmo condomínio, Only Murders in the Building finalmente percebeu que seu verdadeiro endereço nunca foi o Arconia. São Charles, Oliver e Mabel.
Enquanto os três estiverem juntos, o assassinato pode acontecer em qualquer lugar. E agradecem os moradores do Arconia. Principalmente aqueles que ainda estão tentando vender seus apartamentos.
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