Lendo, como sempre faço, o The Hollywood Reporter, me deparei com mais uma caixa na qual fui colocada sem saber. Hollywood adora uma caixinha. Marketeiros não conseguem trabalhar sem reduzir seu público a labels e, quando alguma coisa funciona, parece indispensável descobrir imediatamente como chamá-la, quem a consome e, sobretudo, como repetir a fórmula. Há alguns anos, a Netflix tinha até seu “gourmet cheeseburger”, expressão usada internamente para definir aquela combinação tão desejada entre entretenimento popular e uma camada de prestígio. Agora temos uma nova categoria: white wine thrillers.


Se você assistiu e gostou de Big Little Lies, The Undoing, The Perfect Couple, Nine Perfect Strangers ou All Her Fault, talvez esteja nessa caixa comigo. São os exemplos usados para definir esse novo queridinho de Hollywood: thrillers protagonizados por mulheres, muitas vezes adaptados de best-sellers, que podem ficar sombrios, mas não sombrios demais. Há crimes e assassinatos, mas a violência costuma permanecer controlada. Há dinheiro, roupas bonitas, casas espetaculares, casamentos que parecem perfeitos apenas para quem olha de fora e um universo suficientemente aspiracional para que, apesar do cadáver, ainda queiramos saber onde compraram aquele sofá.
O vinho branco pode até aparecer na tela, mas a verdadeira brincadeira está na pessoa imaginada do outro lado da televisão. É a espectadora relaxando no sofá com uma taça enquanto acompanha mulheres ricas emocionalmente desmoronando dentro de cozinhas maravilhosas. A descrição tem algo de engraçado porque reconhecemos imediatamente o tipo de série do qual estamos falando. Também tem algo de revelador porque Hollywood não está apenas classificando uma história. Está classificando quem a assiste.
Foi aí que comecei a rir porque, sem saber, aparentemente venho bebendo dessa safra há anos.
Já escrevi muito sobre essas séries no MiscelAna e quase nunca foi o cadáver que mais me interessou. Big Little Lies não era apenas um mistério sobre quem tinha morrido e quem tinha matado. Era uma história sobre violência doméstica, maternidade, amizade feminina, casamento, privilégio e mulheres descobrindo umas nas outras uma solidariedade que talvez nem soubessem que precisavam.

The Undoing usava um assassinato para desmontar a vida de uma mulher que acreditava conhecer o marido. The Flight Attendant começava com uma comissária de bordo acordando ao lado de um homem morto em um quarto de hotel luxuoso, mas o que me prendeu foi a autodestruição de Cassie, sua relação com o álcool e a dolorosa tentativa de descobrir quem ela era quando não estava fugindo de si mesma.
Mais recentemente acompanhei All Her Fault episódio por episódio e, novamente, o desaparecimento de uma criança acabou me interessando menos do que aquilo que aparecia por baixo dele: maternidade, culpa, casamento e a facilidade assustadora com que mulheres acabam assumindo responsabilidades que não começaram com elas. Aparentemente eu já era uma consumidora fiel de white wine thrillers antes de alguém decidir colocar um nome na garrafa.
O mais divertido é perceber que a fórmula também nos permite olhar para trás. Desperate Housewives, por exemplo, parece hoje uma espécie de ancestral espirituoso da categoria. Wisteria Lane já oferecia casas perfeitas, jardins impecáveis, mulheres desesperadamente tentando sustentar aparências e cadáveres aparecendo no caminho. Só havia mais comédia e menos cashmere.
Little Fires Everywhere também mora perto desse território, com duas famílias, uma comunidade cuidadosamente organizada, maternidade, classe, raça, ressentimentos e segredos explodindo por baixo da superfície perfeita. The Couple Next Door troca a elite milionária por um subúrbio idílico no qual desejo, casamento e vizinhança se transformam em uma combinação perigosíssima. Doctor Foster praticamente desmonta a fantasia da esposa bem-sucedida quando a suspeita de uma traição transforma uma médica respeitada em investigadora obsessiva da própria vida, enquanto Anatomy of a Scandal leva a fórmula para a elite política britânica, colocando privilégio, casamento, sexo e consentimento dentro do suspense.

Também existe uma tradição que já chamávamos de domestic noir muito antes de alguém abrir a adega. Mulheres, casas, casamentos, maternidade, segredos, ameaças escondidas dentro da vida cotidiana: os elementos não nasceram em 2026. O White Wine thriller não inventou essas histórias. O que fez foi acrescentar uma camada específica de conforto visual e transformá-las em uma categoria comercial extremamente fácil de vender.
E aí entram as casas.
O The Hollywood Reporter menciona as famosas cozinhas de Nancy Meyers como referência estética e não poderia haver imagem melhor. Nancy Meyers praticamente possui uma assinatura própria dentro das comédias românticas. Basta uma mulher adulta, uma casa iluminada, uma cozinha gigantesca, cashmere impecável, comida bonita e uma crise sentimental para reconhecermos imediatamente seu universo.
O white wine thriller pega um pouco dessa fantasia e coloca um cadáver dentro dela. A cozinha continua maravilhosa, mas agora existe a possibilidade de alguém ter assassinado o marido.
É uma diferença importante porque nem toda série protagonizada por mulheres ricas em cenários lindos vira automaticamente um white wine thriller. The White Lotus compartilha o prazer voyeurístico de observar privilegiados se destruindo em lugares onde pagaríamos caro para passar férias, e ainda acrescenta cadáveres, mas sua sátira social é parte essencial da experiência. Expats tem Nicole Kidman, Hong Kong, luxo e uma tragédia familiar, mas é muito mais drama sobre perda, culpa e deslocamento do que thriller. The Morning Show tem mulheres poderosas, figurinos caríssimos, conspirações e segredos de bastidores, mas continua sendo essencialmente um drama corporativo.


Da mesma maneira, The Gilded Age e Palm Royale podem compartilhar conosco o prazer das roupas, das casas e de observar mulheres navegando códigos sociais cruéis, mas não basta uma bela produção de arte e um figurino para transformar qualquer história em vinho branco. A fórmula precisa do suspense.
Já Bad Sisters chega bem mais perto. Há mulheres, paisagens lindíssimas, um homem terrível que gostaríamos sinceramente de ver morto e irmãs tentando descobrir como chegar a esse resultado. O humor negro talvez a torne um vinho um pouco menos convencional, mas a garrafa pode ficar na mesma mesa.
Nicole Kidman, aliás, poderia ser declarada a sommelière honorária dessa adega. Big Little Lies, The Undoing, Nine Perfect Strangers, The Perfect Couple: se Nicole estiver no elenco e alguém possuir uma casa com vista espetacular, talvez seja prudente prestar atenção em quem está servindo o vinho e, principalmente, em quem pode não sobreviver até o último episódio.
The Perfect Couple talvez seja a destilação mais óbvia da fórmula. Temos Nantucket, uma família absurdamente rica, um casamento, uma morte e Nicole Kidman circulando pelo cenário com a segurança de quem parece já conhecer todas as safras. Nine Perfect Strangers troca a mansão por um sofisticado retiro de bem-estar e coloca nove pessoas em busca de transformação sob o comando de uma mulher cujos métodos não aparecem exatamente no folder do spa.

A Netflix também conhece muito bem essa lógica de suspense doméstico que não exige necessariamente o mesmo grau de luxo. Fool Me Once, adaptação de Harlan Coben, começa com uma viúva vendo nas imagens de uma câmera o marido que deveria estar morto. Talvez não seja o exemplar mais puro do white wine thriller, mas entende perfeitamente a compulsão que move essas histórias: entregar uma revelação no momento exato em que juramos que vamos dormir depois de “só mais um episódio”.
Naturalmente, depois de inventar uma categoria chamada white wine thriller, Hollywood não conseguiria parar na primeira garrafa. A reportagem da THR praticamente monta uma carta de vinhos inteira. Five Star Weekend, com Jennifer Garner, teria menos suspense e talvez fosse um rosé. Ride or Die, com Octavia Spencer e Hannah Waddingham, tem comédia e ação demais para caberem confortavelmente no vinho branco. Sua criadora, Tessa Coates, acha a expressão divertida porque deixa claro que parte do prazer está justamente em não levar tudo tão a sério. Segundo ela, verdadeiramente depreciativo seria chamar alguma coisa de prosecco thriller, porque aí estaríamos falando de algo doce, açucarado e bobo.
Lucky, com Anya Taylor-Joy, também circula perto da fórmula, mas a percepção na indústria é de que sua audiência tende a ser masculina demais para receber o rótulo. E talvez nenhuma informação resuma tão bem o problema quanto essa. O conteúdo pode ter uma mulher no centro, mas, para ser considerado white wine, aparentemente também é necessário que o marketing imagine mulheres do outro lado da tela.

Depois vêm os red wine thrillers, que mantêm algumas das mesmas características, mas tiram o conforto da experiência. Há mais violência, mais sujeira e uma ressaca emocional consideravelmente maior. Sharp Objects, com Amy Adams, é o exemplo perfeito. Mulheres, família, trauma, crime e uma pequena cidade estão todos lá, mas ninguém terminaria aquela história se sentindo refrescado.
Furious, com Emmy Rossum, também foi colocada pela indústria nessa taça mais pesada. E, se quisermos continuar a brincadeira além dos exemplos citados pela reportagem, Mare of Easttown certamente vive muito mais perto do vinho tinto do que do branco. Não há mansões aspiracionais nem cozinhas de Nancy Meyers; há uma cidade cinzenta, mulheres cansadas, perdas e um assassinato que pesa sobre todos. Love & Death, baseada em um crime real, também parte do universo doméstico e suburbano, mas atravessa uma fronteira de violência que deixa pouco espaço para o conforto da taça gelada.
A brincadeira chega ao ponto de um produtor ouvido pela THR dividir o gosto das plataformas. Peacock e Hulu estariam mais sedentos pelos vinhos brancos; Netflix e HBO Max aceitariam melhor os tintos; a Paramount, segundo ele, ainda não saberia exatamente o que quer. E o próprio autor da reportagem observa a desigualdade da classificação brincando que, se fôssemos aplicar a mesma lógica às produções masculinas, talvez Tires merecesse virar uma Kirkland Signature comedy.
Até aqui tudo seria uma ótima piada interna de Hollywood se essas etiquetas não tivessem começado a participar das decisões sobre aquilo que efetivamente chega às nossas telas. A THR conta que um roteirista, preocupado porque um projeto não saía do desenvolvimento, ouviu a explicação de que naquele momento os compradores estavam interessados apenas em white wine thrillers. O rótulo deixou de organizar retrospectivamente os sucessos. Passou a ajudar a decidir o que será comprado.
E Hollywood pode gostar de vinho, mas gosta muito mais de dinheiro. All Her Fault virou um enorme sucesso do Peacock, recebeu sete indicações ao Emmy e, até a chegada de Five Star Weekend, era o original mais assistido da plataforma. Pouco depois, o Peacock anunciou que finalmente tinha chegado à lucratividade. É impossível provar que uma coisa causou a outra, mas não é difícil entender por que executivos começaram a procurar a próxima garrafa. É justamente nesse ponto que a taça começa a me incomodar.


Porque histórias protagonizadas por homens raramente precisam desse tipo de qualificador. Reacher não é um bourbon thriller. Landman não virou whiskey television. Ninguém parece especialmente interessado em imaginar qual bebida um homem está segurando enquanto assiste a outro homem resolver seus problemas com petróleo, armas, dinheiro ou força física. Eles podem simplesmente pertencer a gêneros: ação, drama, suspense, western.
Mulheres continuam tendo mais dificuldade para conquistar esse privilégio. Literatura feminina, chick lit, filme de mulher, série para mulheres e agora white wine thriller. Mudam os nomes, mas a tentação de transformar metade da população em nicho continua impressionantemente resistente.
E existe um perigo muito concreto em toda caixinha: não apenas aquilo que colocamos dentro dela, mas tudo que ela passa a excluir. Um agente ouvido pela THR observa o risco de um executivo olhar para sua programação e decidir que “já tem seu thriller feminino”. É uma frase pequena que contém um problema enorme. Ninguém imagina que uma emissora que tenha Reacher já resolveu sua necessidade de protagonistas homens.
Da mesma maneira, Big Little Lies, The Undoing, All Her Fault, The Flight Attendant, Bad Sisters, Sharp Objects e Mare of Easttown não são versões da mesma série porque colocam mulheres no centro. Na verdade, talvez seja justamente sua diferença que explique por que venho gostando tanto de muitas delas.
Essas histórias permitem que mulheres sejam protagonistas sem exigir que sejam exemplares. São mães que erram, esposas que traem, amigas que invejam, mulheres traumatizadas, egoístas, ambiciosas, generosas, manipuladoras, assustadas, cruéis, engraçadas e contraditórias. Nem sempre precisamos gostar delas e, melhor ainda, nem sempre precisamos defender suas escolhas.

Personagens masculinos tiveram tranquilamente esse direito durante décadas. Tony Soprano não precisava representar os homens. Don Draper não precisava fornecer uma imagem positiva da masculinidade. Walter White podia se tornar monstruoso sem carregar sobre os ombros a obrigação de provar que homens mereciam histórias complexas.
Talvez o verdadeiro prazer dos chamados white wine thrillers não esteja, portanto, no vinho, nas casas ou mesmo nos assassinatos. Está em ver mulheres ganhando pouco a pouco essa mesma liberdade narrativa: o direito de serem interessantes antes de serem exemplares.
Nancy Meyers construiu uma assinatura tão reconhecível que suas cozinhas praticamente se transformaram em personagem, mas nunca precisamos reduzir Alguém Tem que Ceder ou Simplesmente Complicado à bebida que imaginávamos suas espectadoras tomando. Talvez essas mulheres cheias de segredos, falhas, desejos e crimes também mereçam escapar da prateleira.
Mas, enquanto Hollywood insiste na adega, pode servir uma taça. Eu continuo aqui pelas mulheres.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
