Entre os ballets que atravessaram os séculos como obras-primas dramáticas, também há os que sobrevivem pela música, pela tradição ou porque determinados papéis se tornaram sonhos de qualquer grande bailarino. Dom Quixote conseguiu algo mais raro: 156 anos depois de sua estreia, continua parecendo uma festa, uma competição e uma prova de fogo acontecendo ao mesmo tempo.
Nesta semana, teremos uma boa oportunidade para comprovar isso no Rio. O Ballet e a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal voltam a apresentar Dom Quixote a partir de 20 de agosto, em uma temporada que segue até o dia 30. A concepção, remontagem e adaptação são de Hélio Bejani e Jorge Texeira, com Tobias Volkmann à frente da orquestra. E há um dado que talvez diga mais sobre a longevidade do ballet do que qualquer explicação histórica: os ingressos já estão esgotados.

Um clássico que já tem 156 anos
O Don Quixote que reconhecemos hoje nasceu em Moscou em 1869, com coreografia de Marius Petipa e música de Ludwig Minkus. A estreia aconteceu em dezembro daquele ano no Teatro Bolshoi, em 14 de dezembro pelo calendário então usado na Rússia, equivalente a 26 de dezembro no calendário gregoriano. Em dezembro de 2026, portanto, completa 157 anos.
Não significa que tenha permanecido congelado desde então. Muito pelo contrário. Petipa voltou à obra em São Petersburgo, em 1871, e Alexander Gorsky a transformou novamente em 1900. É dessa linhagem Petipa-Gorsky, alterada sucessivamente por coreógrafos e pelos próprios bailarinos, que descendem praticamente todas as versões que vemos atualmente. O próprio Mariinsky reconhece algo delicioso sobre essa história: tantos intérpretes acrescentaram truques e ideias ao papel de Basílio que alguns podem ser considerados, de certa forma, seus co-coreógrafos.
Há ainda Don Quixotes anteriores a Petipa — o personagem de Cervantes já havia chegado ao ballet no século 18 —, mas é a versão de Minkus e Petipa que se transformou em um dos pilares do repertório clássico.

E existe uma primeira curiosidade para quem nunca viu o espetáculo: apesar do título, Don Quixote praticamente não é o protagonista de Don Quixote.
O ballet usa apenas uma pequena parte da monumental obra de Miguel de Cervantes. Sua verdadeira história de amor é a de Kitri, filha de um estalajadeiro, e Basílio, o barbeiro pobre que seu pai não considera um marido à altura. Don Quixote surge como uma espécie de catalisador poético e cômico da aventura, confundindo Kitri com sua idealizada Dulcinea e ajudando, de uma maneira muito própria, os jovens apaixonados.
Por que Dom Quixote continua tão popular?
Porque seja quase o oposto do ballet contemplativo. Giselle pede atmosfera. O Lago dos Cisnes exige uma construção dramática e estilística muito específica. La Bayadère cria um universo espiritual próprio. Don Quixote praticamente abre a cortina dizendo: vamos dançar.
Giselle pede atmosfera. O Lago dos Cisnes exige uma construção dramática e estilística muito específica. La Bayadère cria um universo espiritual próprio. Don Quixote praticamente abre a cortina dizendo: vamos dançar.
Há humor, romance, leques, capas, toureiros, ciganos, fandango, tavernas, moinhos de vento, uma cena de sonho e a música irresistivelmente rítmica de Minkus. Kitri desafia o pai para ficar com o homem que ama, Basílio transforma até uma falsa tentativa de suicídio em comédia; e a praça espanhola de Gorsky foi concebida justamente para parecer uma multidão viva, e não um corpo de baile geometricamente organizado.

É também um ballet extraordinariamente acessível para quem nunca entrou em um teatro para assistir à dança clássica. A história é simples, os personagens são imediatamente compreensíveis e, principalmente, não é necessário conhecer técnica para perceber que alguém acaba de fazer alguma coisa dificílima. O público entende o risco.
E Dom Quixote distribui oportunidades de brilhar. Kitri e Basílio concentram o espetáculo, mas há Espada, Mercedes, Cupido, a Rainha das Dríades, amigas de Kitri, toureiros, ciganos e um corpo de baile constantemente envolvido na ação. Não é apenas um teste dos protagonistas. É um daqueles ballets capazes de revelar o estado técnico e artístico de uma companhia inteira.
Balanchine: O Don Quixote que rompeu com Petipa
Antes de Nureyev e Baryshnikov transformarem Don Quixote em uma das grandes vitrines do virtuosismo do século 20, George Balanchine fez algo completamente diferente com o personagem.
E aqui é importante não misturar as linhagens. O Don Quixote criado por Balanchine para o New York City Ballet em 1965 não era uma remontagem de Petipa, não usava a música de Minkus e deliberadamente não seguia a versão russa do século 19. Era um novo ballet completo, com música de Nicolas Nabokov, encomendada pelo New York City Ballet, e uma leitura muito mais sombria, filosófica e pessoal do romance de Cervantes.

A estreia oficial aconteceu em 28 de maio de 1965, no New York State Theater, mas há um detalhe extraordinário: na pré-estreia beneficente, na noite anterior, o próprio Balanchine dançou Don Quixote. Ele voltaria a interpretar o personagem outras vezes. Suzanne Farrell, então no momento em que se tornava uma das grandes musas de sua obra, dançava a figura feminina central. Naquele mesmo ano, ela foi promovida a principal dancer do New York City Ballet.
E o que Balanchine fez com Dulcinea também diz muito sobre sua leitura. Em vez de simplesmente reproduzir a jovem idealizada que conhecemos da tradição de Petipa, ele fez com que a mulher desejada por Don Quixote aparecesse sob diferentes formas — criada, pastora, Virgem Maria e outras encarnações — como se o cavaleiro estivesse sempre tentando encontrar no mundo real uma perfeição que existe apenas em sua imaginação.
É quase o negativo fotográfico do Dom Quixote de Minkus. No ballet que hoje domina o repertório mundial, Don Quixote empresta seu nome à obra, mas deixa que Kitri e Basílio tomem conta da festa. Em Balanchine, o cavaleiro volta ao centro. A questão deixa de ser apenas se os jovens amantes conseguirão ficar juntos e passa a ser a distância entre o ideal e a realidade, o desejo e a impossibilidade.
Por isso, Balanchine merece um lugar particular nesta história. Ele não acrescentou novos fouettés a Kitri ou novas dificuldades técnicas a Basílio. Ele provou que Cervantes podia criar um balé completamente diferente daquele de Petipa.
E talvez seja justamente a comparação que ajude a entender por que a versão Petipa-Gorsky-Minkus venceu a batalha da popularidade. O Don Quixote de Balanchine foi uma experiência autoral, intelectual e profundamente ligada à sua própria estética. O outro Don Quixote oferece algo irresistível para companhias, bailarinos e público: personagens exuberantes, música que impulsiona o movimento e uma estrutura praticamente construída para permitir que grandes intérpretes sejam grandes intérpretes.
É essa segunda linhagem que Rudolf Nureyev e, depois, Mikhail Baryshnikov ajudariam a empurrar ainda mais em direção ao espetáculo técnico que conhecemos hoje.


Nureyev e a transformação do bailarino em estrela
Se hoje esperamos que Basílio entre em cena quase desafiando a gravidade, parte dessa expectativa passa inevitavelmente por Rudolf Nureyev.
Nureyev conhecia profundamente o papel. Dançou Basílio ainda no Kirov e levou Dom Quixote consigo depois de sua ida para o Ocidente. Em 1966, criou para a Ópera de Viena sua própria versão do ballet, baseada em Petipa. A montagem permanece ligada à história da companhia e seria depois adotada por outros grandes grupos. Para a produção, Nureyev pediu ao maestro e arranjador John Lanchbery uma nova orquestração e adaptação da música de Minkus.
Mas a contribuição de Nureyev vai muito além de uma remontagem. Sua chegada ao Ocidente ajudou a mudar o próprio lugar do homem no ballet clássico. O virtuosismo masculino deixou de significar apenas ser um excelente partner da bailarina. Saltos, piruetas, velocidade, batterie e presença passaram a ser esperados como espetáculo em si. A crítica Joan Acocella observou que a influência de Nureyev elevou dramaticamente o padrão técnico masculino no Ocidente e mudou inclusive a maneira como as plateias assistiam às variações dos homens.

E poucos ballets se beneficiariam tanto dessa mudança quanto Don Quixote. Na versão de Nureyev, os passos são notoriamente rápidos, densos e incansáveis. Há pouco espaço para respirar: uma sequência técnica parece imediatamente empurrar o bailarino para outra. Uma crítica recente da versão australiana resumiu muito bem essa assinatura ao observar a tendência de Nureyev de colocar mais um rond de jambe, mais uma dificuldade, mais alguma coisa dentro da frase musical.
Basílio, assim, deixa definitivamente de ser apenas o namorado divertido de Kitri para desempenhar também um grande papel de bravura masculina.
Em 1970, Nureyev montou sua versão para o Australian Ballet. Dois anos depois, dirigiu com Robert Helpmann uma adaptação cinematográfica, lançada em 1973, na qual ele próprio dança Basílio ao lado de Lucette Aldous como Kitri e Helpmann como Dom Quixote. O filme ajudou a projetar internacionalmente tanto a produção quanto a companhia australiana e permanece uma referência visual da obra.
E então veio Baryshnikov
Se Nureyev ajudou a redefinir o que o público esperava de um bailarino, Mikhail Baryshnikov levou a combinação de precisão, velocidade, elevação e aparente facilidade a outro patamar.
Baryshnikov também chegou ao papel pela tradição russa e, em 1978, criou sua própria produção de Don Quixote para o American Ballet Theatre, concebida e dirigida por ele, com coreografia baseada em Petipa e Gorsky. Gelsey Kirkland foi sua primeira Kitri. Não era uma ruptura com Petipa. Era quase o contrário: Baryshnikov entendia perfeitamente que a natureza de Don Quixote permitia pegar aquela tradição e levá-la até o limite.
Quem assistiu à produção original recordaria depois sua energia praticamente ininterrupta. E quem viu Baryshnikov como Basílio entende imediatamente o motivo. O personagem tem velocidade, insolência, comicidade, charme e uma técnica tão limpa que o perigo parece desaparecer. Até a famosa variação da taverna, com toda sua exigência, vira nas mãos dele uma cena de sedução. A produção ficaria eternizada também nas gravações do ABT dos anos 1980, especialmente com Baryshnikov e Cynthia Harvey.


Nureyev e Baryshnikov não criaram sozinhos o Don Quixote moderno, nem todos os passos que hoje associamos ao ballet nasceram com eles. Mas os dois ajudaram a cristalizar uma expectativa que permanece: Basílio precisa ser uma estrela tão espetacular quanto Kitri.
E aqui começa o problema para quem tem que dançar.
Por que os bailarinos adoram Don Quixote?
Porque Don Quixote permite personalidade. Há ballets nos quais o intérprete precisa desaparecer dentro de uma estética extremamente determinada. Em Don Quixote, principalmente como Kitri e Basílio, o bailarino pode entrar em cena praticamente dizendo: “Olhem para mim.” É parte da tradição.
Uma Kitri pode sustentar um equilíbrio um pouco maior. Outra pode transformar os fouettés em duplos. Outra aposta na velocidade. Basilios brincam com piruetas, saltos, tours e diferentes maneiras de terminar suas diagonais. Isso não significa que vale tudo. Significa que existe dentro do próprio DNA da obra uma tradição de superação.

Por isso, o Grand Pas de Deux do casamento ganhou vida independente. Mesmo pessoas que jamais assistiram ao ballet completo provavelmente já viram suas variações em galas, concursos, festivais ou vídeos de grandes estrelas.
É quase uma Olimpíada do ballet, só que o atleta precisa ainda atuar, flertar, interpretar e convencer a plateia de que está se divertindo.
E por que é tão temido?
Kitri é particularmente cruel porque exige várias bailarinas dentro da mesma bailarina.
No primeiro ato, ela precisa ter ataque, velocidade, saltos, trabalho rápido de ponta, segurança, coqueteria e domínio absoluto do palco. Kitri não pode parecer cuidadosa. Mesmo calculando cada passo, precisa transmitir a sensação de que poderia fazer tudo aquilo brincando.
Então vem a cena do sonho. E muda tudo. A mesma mulher que estava incendiando a praça precisa se transformar em Dulcinea: linha clássica, adágio, equilíbrio, pureza, controle. De repente, os grandes gestos espanhóis desaparecem e a bailarina fica exposta em movimentos sustentados que não permitem esconder praticamente nada.
Depois ela ainda precisa chegar ao casamento. E aí está uma das maiores crueldades de Don Quixote: a parte que todo mundo está esperando acontece quando os protagonistas já dançaram muito.

Kitri chega ao Grand Pas de Deux com seus famosos fouettés — a sequência tradicionalmente associada aos 32 giros, hoje frequentemente ornamentada com duplos e outras combinações — além dos equilíbrios que grandes bailarinas transformaram quase em competições silenciosas com o público.
Para Basilio, o desgaste pode ser ainda mais brutal: grandes saltos, giros, tours, velocidade, partnering e levantamentos. Tudo isso mantendo a aparência de um homem absolutamente seguro de si, um barbeiro pobre que tem certeza de que vai conquistar a garota, o sogro e a plateia. É uma técnica feita sob o efeito de adrenalina.
E existe um risco curioso em Don Quixote: justamente porque a obra estimula o exibicionismo técnico, ela convida o bailarino a tentar um pouco mais. Saltar mais alto. Girar mais. Sustentar mais. A energia do público alimenta o intérprete, e o intérprete responde.
No Brasil, Dom Quixote também virou tradição
No Brasil, e particularmente no Rio, essa relação tem uma história própria.
Don Quixote passou a ocupar um lugar especial no repertório do Ballet do Theatro Municipal a partir da histórica produção criada por Dalal Achcar em 1982. Era uma montagem de grandes dimensões, com cenários de José Varona e um elenco que reuniu artistas internacionais como Fernando Bujones, Yoko Morishita, Zhandra Rodríguez e Jean-Yves Lormeau. Entre os brasileiros estavam Ana Botafogo e Sílvia Barroso.

Para mim há também uma memória afetiva nessa história. Foi numa matinê daquela temporada, vendo Ana Botafogo ao lado de Graham Bart, que tive meu primeiro encontro com esse Don Quixote. A parceria dos dois ultrapassaria o palco: eles se casariam pouco depois e Bart passaria a integrar o Ballet do Municipal até sua morte, em 1988.
A obra voltou inúmeras vezes. Em 1994, foi escolhida para as comemorações dos 85 anos do Theatro Municipal, com Ana Botafogo e Cecília Kerche entre as Kitris e convidados como Igor Zelensky, então primeiro bailarino do Kirov. Em 2010, a montagem de Dalal retornou depois de 16 anos, reunindo Dorothée Gilbert, Marcelo Gomes, Sascha Radetsky, Márcia Jaqueline, Cícero Gomes e outros nomes.
É justamente isso que torna Don Quixote interessante na história brasileira da dança. Ele não é apenas um clássico importado que periodicamente volta ao palco. Para gerações de bailarinos, virou também uma medida de chegada: dançar Kitri ou Basílio é assumir um daqueles papéis que imediatamente colocam técnica, personalidade e resistência sob exame.
E agora, novamente no Municipal
A versão que retorna nesta semana ao Theatro Municipal nasceu em 2022, com concepção, remontagem e adaptação de Hélio Bejani e Jorge Texeira. É uma leitura que preserva Petipa, mas trabalha especialmente a teatralidade, o humor e a personalidade dos intérpretes, algo particularmente apropriado para um ballet no qual técnica sem presença nunca é suficiente.

Márcia Jaqueline e Cícero Gomes voltam a uma obra que conhecem profundamente. Cícero, aliás, considera Basílio seu personagem preferido e lembra que dançou seu primeiro Don Quixote com Márcia em 2005. Ela também define bem o paradoxo da obra: tecnicamente e fisicamente dificílima, mas leve e divertida de interpretar.
Há ainda um encontro interessante nesta temporada. O brasileiro Gabriel Lopes, formado pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil e com carreira construída na Rússia, volta ao país para dançar Basílio com Juliana Valadão. Em 2026, ele já havia passado pelo palco do Municipal como partner de Natalia Osipova no Prix Osipova; agora retorna integrado ao Ballet da casa para um dos papéis que melhor funcionam como cartão de visitas para um bailarino. Ele dança com Juliana nos dias 21, 23 e 25 de agosto. E talvez não pudesse haver momento melhor para rever o ballet.
O verdadeiro segredo de Don Quixote
Porque, no fim das contas, existe algo em Don Quixote que vai além dos 32 fouettés, dos saltos de Basilio, dos equilíbrios de Kitri ou das diferentes versões deixadas por Petipa, Gorsky, Nureyev e Baryshnikov.
Don Quixote é um dos raros ballets em que a técnica não deve parecer nobre: deve parecer prazerosa. Isso muda tudo. Você pode ver o esforço de Albrecht em Giselle e incorporá-lo à tragédia. Siegfried pode parecer exausto e continuar sendo Siegfried. Kitri não pode parecer cansada. Basilio não pode parecer preocupado. Eles precisam realizar coisas absurdamente difíceis e ainda transmitir: “Estou me divertindo mais do que vocês.”
Talvez seja justamente por isso que os bailarinos o amam e o temem na mesma proporção. E talvez explique por que, 156 anos depois de sua estreia, um ballet que praticamente transformou virtuosismo em argumento dramático ainda consegue fazer algo que muitas obras muito mais jovens não conseguem. Lotar um teatro antes mesmo da cortina subir.


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