Slow Horses: o que o trailer da sexta temporada revela

A volta de Sid Baker roubou, com razão, a atenção do trailer da sexta temporada de Slow Horses. Olivia Cooke, ou Sid Baker, surgindo diante de River Cartwright cinco temporadas depois de levar um tiro na cabeça, merecia mesmo uma pauta própria. Mas, passada a surpresa, vale olhar novamente para o trailer porque há uma história muito maior sendo montada ali: desta vez, não é Slough House que tropeça numa conspiração. É Slough House que está sendo caçada.

A Apple já havia confirmado que a sexta temporada, com estreia em 16 de setembro, vai juntar Joe Country e Slough House, o sexto e o sétimo livros da série de Mick Herron, em apenas seis episódios. É uma mudança importante. Até agora, a adaptação vinha trabalhando aproximadamente um romance por temporada; agora, duas histórias diferentes serão fundidas em uma só. E o trailer começa a mostrar como isso será feito.

A informação mais importante vem do próprio Jackson Lamb. O pai de um garoto roubou um arquivo com os nomes dos Slow Horses, morreu e, agora, segundo Lamb, seus “Joes” estão sendo perseguidos. Em paralelo, Molly Doran descobre que Slough House desapareceu completamente dos sistemas do MI5. Roddy Ho traduz a situação de forma ainda mais direta: eles não existem mais.

É uma ideia perfeita para a série. Desde o começo, Slough House é o lugar para onde o Serviço manda os agentes que prefere esquecer. Eles ainda pertencem ao MI5, mas vivem numa espécie de morte profissional, fazendo trabalhos inúteis sob o comando de Lamb até pedirem demissão ou aceitarem que suas carreiras acabaram. A sexta temporada parece levar essa condição ao extremo: alguém não está apenas tentando matar aqueles agentes, mas retirar dos registros qualquer prova de que eles algum dia existiram.

Essa é justamente uma das grandes linhas de Slough House. No romance, o grupo percebe que seus dados desapareceram dos sistemas enquanto pessoas ligadas à unidade começam a ser observadas e eliminadas. O que inicialmente parece paranoia passa a formar um desenho muito mais assustador: há uma operação em andamento contra eles, e o apagamento burocrático é parte da mesma ameaça.

A diferença é que a série chega a esse livro num ponto diferente dos romances. Diana Taverner agora é First Desk, depois de passar cinco temporadas tentando chegar ao topo. A sinopse oficial da Apple diz que será ela quem envolverá os Slow Horses num jogo mortal de “retaliação e vingança”, portanto a pergunta não é simplesmente quem está caçando o grupo, mas qual operação de Diana abriu essa porta.

E aqui Peter Judd volta a ser uma peça importante. Desde a primeira temporada, ele funciona como uma das conexões mais constantes entre política, inteligência, dinheiro e interesses pessoais. Judd entra e sai da história sempre que o MI5 precisa lidar com aquilo que não pode fazer de maneira limpa ou oficial, e sua ligação com estruturas financeiras clandestinas já voltou a ser importante na quinta temporada. Nos livros, sua relação com Diana se torna ainda mais perigosa justamente quando ela chega ao topo e precisa operar fora dos limites formais do Serviço.

Esse é um fio que Slow Horses vem costurando há anos: Diana acredita que consegue manipular políticos, agentes e operações secretas desde que mantenha controle suficiente sobre a informação. Judd, por sua vez, quase sempre enxerga o caos como oportunidade. Separados já são perigosos. Juntos, representam exatamente o tipo de mistura de ambição política e inteligência clandestina que costuma terminar com Jackson Lamb tendo que limpar a bagunça.

Mas a sexta temporada não vem apenas de Slough House. A outra metade é Joe Country, e aí entra novamente Frank Harkness, o pai de River, interpretado por Hugo Weaving. No livro, Louisa Guy se envolve na procura por um adolescente desaparecido enquanto River volta a cruzar o caminho de Harkness, e as duas histórias acabam convergindo. Na televisão, parte desse material já foi antecipada: Harkness apareceu na quarta temporada e a série reorganizou bastante a história da família Cartwright. Por isso, não devemos esperar uma adaptação literal.

O trailer sugere justamente essa fusão. A ameaça de Slough House — agentes perseguidos e a unidade apagada dos sistemas — parece fornecer a espinha dorsal da temporada, enquanto Joe Country entrega personagens, conflitos e especialmente Harkness para alimentar essa perseguição. Louisa também está de volta à ação, apesar de ter tentado se afastar daquele mundo, o que combina perfeitamente com uma temporada em que até quem saiu de Slough House parece continuar preso à lista de Lamb.

Talvez seja essa a grande novidade narrativa da sexta temporada. Em vez de adaptar dois romances em sequência, a série parece desmontá-los e remontá-los como uma única conspiração. E isso faz sentido porque Slow Horses já modificou tantas peças da cronologia literária que seguir os livros rigidamente seria quase impossível neste ponto. Mick Herron continua sendo a base, mas a série já conquistou liberdade suficiente para reorganizar seu universo.

Há ainda uma mudança importante nos bastidores. Esta será a primeira temporada sem Will Smith, que comandou a adaptação nas cinco anteriores e foi fundamental para definir aquele equilíbrio tão particular entre espionagem, violência, melancolia e humor britânico venenoso. Gaby Chiappe assume a escrita da sexta temporada, enquanto Adam Randall, que dirigiu a quarta, retorna para comandar os episódios. Pelo menos pelo trailer, o tom continua reconhecível: mais ação, perseguições e explosões, mas Lamb, Roddy, River e Diana continuam exatamente dentro daquele universo que conhecemos.

E então, claro, há Sid Baker. Sua volta pertence à trama de Slough House e ganha outro significado quando colocada nesse contexto: ela reaparece justamente quando agentes ligados à unidade estão sendo perseguidos e seus rastros começam a desaparecer. Mas isso é apenas mais uma peça de uma temporada que parece estar mirando algo maior do que o retorno de qualquer personagem individual.

O trailer da sexta temporada sugere, portanto, uma inversão muito interessante. Durante cinco anos, os Slow Horses sobreviveram porque eram subestimados. Eram os agentes que ninguém queria, esquecidos num prédio que Regent’s Park preferia fingir que não existia. Agora alguém parece ter percebido que eles existem perfeitamente — e resolveu fazer alguma coisa a respeito.

A ironia é maravilhosa. Durante anos, o MI5 tentou enterrar Slough House. Agora alguém quer terminar o serviço. E, para isso, terá que passar por Jackson Lamb.


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