Há balés em que a técnica pode quase se esconder atrás da história. Don Quixote definitivamente não é um deles. Desde que Marius Petipa criou a obra para o Ballet Imperial de Moscou, em 1869, com música de Ludwig Minkus, ela se tornou uma das grandes vitrines do repertório clássico. Saltos, giros, equilíbrios, velocidade, resistência, precisão, atitude: tudo está exposto. E, justamente por isso, o desafio talvez seja fazer com que o público esqueça completamente o esforço necessário para executar tudo aquilo.
É esse paradoxo que acompanha a volta de Don Quixote ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, depois de mais de três anos. A temporada, iniciada em 20 de agosto, reúne o Ballet e a Orquestra Sinfônica da casa, sob regência de Tobias Volkmann, em concepção, remontagem e adaptação de Hélio Bejani e Jorge Texeira.

Embora carregue no título o nome do personagem criado por Miguel de Cervantes, no palco o coração do balé pertence a Kitri e Basílio. São eles que amam, brigam, provocam, fogem e conduzem a energia da obra. Don Quixote entra nessa história ao confundir Kitri com sua idealizada Dulcinéia e acaba ajudando o casal a vencer a resistência do pai da jovem. É uma trama simples, quase uma desculpa para uma sucessão de danças espetaculares e é justamente aí que mora o perigo. Porque Don Quixote não pode parecer uma competição de passos.
Para Juliana Valadão, primeira bailarina do Theatro Municipal e uma das intérpretes de Kitri nesta temporada, o maior desafio está em uma contradição bastante cruel para qualquer bailarino: quanto mais difícil é o que está sendo feito, menos difícil deve parecer.
“Acho que o maior desafio de viver Kitri é justamente equilibrar a exuberância com o controle técnico”, diz. “Ela é uma personagem muito viva, forte, divertida e cheia de personalidade, mas a coreografia exige, acima de tudo, muita resistência e segurança. Então, para mim, o desafio é fazer com que toda essa dificuldade técnica pareça natural. A Kitri precisa parecer livre e cheia de energia 100% do tempo.”
E Kitri quase não tem autorização para desaparecer atrás da bailarina. Sua técnica precisa estar impecável, mas sua personalidade precisa chegar primeiro à plateia.
Juliana gosta especialmente da entrada da personagem e de sua primeira variação, justamente porque ali consegue estabelecer quem é aquela jovem antes que a sucessão de dificuldades técnicas tome conta da noite. Mas os momentos que mais a interessam surgem quando a técnica deixa, por alguns segundos, de ocupar conscientemente o centro de tudo.

“É muito bom quando, no meio de uma sequência extremamente técnica, eu consigo esquecer por alguns segundos a dificuldade e simplesmente reagir como a Kitri reagiria”, conta. “Nas cenas com Basílio isso acontece muito. Ela é apaixonada, provocadora, determinada, brincalhona… e essa relação permite que a personagem apareça nos pequenos olhares, nas reações e na maneira como ela se movimenta.”
É uma observação importante porque talvez explique parte da longevidade de Don Quixote. O público pode não saber o nome de um passo ou dimensionar sua complexidade, mas entende perfeitamente um olhar, uma provocação ou uma paixão. E poucos balés clássicos mantêm uma comunicação tão direta com a plateia.
Juliana sente isso do palco. “A resposta da plateia em Don Quixote é muito especial. É um balé que tem uma energia muito contagiante, e o público reage aos momentos de humor e também à relação entre Kitri e Basílio. Você sente a plateia junto com você, e isso acaba alimentando ainda mais a energia do espetáculo.”
Do outro lado da história está Basílio, outro papel frequentemente associado ao virtuosismo extremo. Mas, para o bailarino Wagner Carvalho, reduzir o personagem à técnica significa perder exatamente aquilo que transforma uma excelente execução em uma grande apresentação.

“A narrativa é muito importante”, explica. “Eu escolhi essa profissão porque, para mim, não tinha nada melhor no mundo do que poder me transformar num personagem, numa pessoa que viveu em outro tempo, num ser, numa forma. Eu sempre quis interpretar.”
É por isso que Wagner insiste na importância das chamadas misancènes, as cenas essencialmente teatrais que conectam as grandes variações e os pas de deux. Sem elas, a obra corre o risco de se transformar numa coleção de proezas. “É ali que se conta a história”, diz. “Elas humanizam o personagem e tiram um pouco desse foco do ‘salta, abre, rasga, vira, gira’. Essas ligações são muito importantes.” Sua definição é quase perfeita para explicar o desafio de Don Quixote: impedir que um dos balés tecnicamente mais exibicionistas do repertório pareça apenas uma exibição.
Para Wagner, a cumplicidade entre os personagens — Basílio, Kitri, o pai dela e todos que ocupam aquela praça espanhola — precisa ser orgânica. “Para que não seja só um divertissement de pequenos solos, conjuntos ou duetos, mas um espetáculo do início ao fim. Acho que isso realmente faz a grande diferença entre um amontoado de coreografias e uma história.”
Há ainda um terceiro parceiro invisível para quem assiste apenas aos bailarinos: a orquestra. E no Municipal essa relação ganha peso especial porque Ballet e Orquestra Sinfônica dividem novamente a produção.
“Trabalhar com orquestra é um presente”, diz Wagner. “No palco os artistas estão contando a história, mas no fosso os artistas também estão contando a história.”

Como o balé não dispõe da palavra, ele encontra justamente na música uma espécie de voz. “A orquestra canta. A orquestra é a nossa fala”, resume. “Assim como eu, como artista, estou interpretando o meu papel, os artistas da orquestra estão interpretando a música. É preciso estar com os ouvidos atentos para que seja tudo muito fluido, muito orgânico.”
Talvez seja essa soma que explique por que Don Quixote continua sendo amado por bailarinos e público mais de 150 anos depois. É tecnicamente assustador e, ao mesmo tempo, parece uma festa. Exige força e precisa parecer leve. Cobra precisão absoluta enquanto pede espontaneidade. E coloca artistas diante de algumas das sequências mais famosas do ballet clássico apenas para exigir deles, no final, algo ainda mais difícil: que ninguém esteja pensando nos passos.
A temporada segue no Theatro Municipal até 30 de agosto. Juliana Valadão dança Kitri ao lado do convidado Gabriel Lopes nos dias 21 e 23; o elenco principal inclui ainda Márcia Jaqueline e Cícero Gomes, Manuela Roçado e Rodrigo Hermesmeyer, e Marcela Borges e Mateus Imperial.
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