Para quem vive ou já viveu nos bastidores de um palco, o título Don’t Say Good Luck é imediatamente reconhecível. Não se deseja “boa sorte” antes de uma apresentação. Dá azar. No teatro, diz-se break a leg; na dança, na ópera, nos musicais, cada universo tem suas variações, mas a superstição atravessa gerações. É daquelas regras não escritas que artistas aprendem quase antes de aprender onde fica a coxia.
Only Murders in the Building já brincou maravilhosamente com esse universo das superstições teatrais, mas Don’t Say Good Luck parte de uma delas para uma história muito menos misteriosa e muito mais íntima: aquela idade em que tudo parece estar começando justamente quando alguma coisa muito importante está chegando ao fim.
Sophie Birenbaum, vivida por Sunny Sandler, consegue o papel principal na montagem escolar de Waitress. Deveria ser um dos grandes momentos de sua adolescência. Ao mesmo tempo, descobre que o câncer da mãe, Elizabeth, voltou. Melanie Lynskey interpreta a mãe; Max Greenfield é o pai, e ainda aparecem Stephanie Beatriz, Bebe Neuwirth, Steve Buscemi, Jack Champion, Scarlett Estevez e Jon Lovitz. A direção é de Julia Hart, que trabalhou no roteiro com Jordan Horowitz a partir do texto original de Laura Hankin.
A história tem origem justamente na vida de Hankin. Quando adolescente, ela conseguiu o papel principal no musical de sua escola enquanto a mãe enfrentava um câncer terminal. Na vida real, o espetáculo era Moby Dick! The Musical; no filme, tornou-se Waitress. A troca foi especialmente feliz porque Waitress também é uma história sobre uma mulher tentando descobrir quem é enquanto sua vida muda ao redor dela.

O musical nasceu do pequeno filme independente de 2007 dirigido por Adrienne Shelly e ganhou uma segunda vida na Broadway com músicas e letras de Sara Bareilles. Entre elas está “She Used to Be Mine”, talvez uma das canções mais emocionalmente cruéis — e bonitas — escritas para o teatro musical recente. E é aí que chegamos a Sunny Sandler.
Sim, ela é filha de Adam Sandler. E não vejo qualquer razão para fingir escândalo diante disso. Adam Sandler coloca a família em seus filmes há anos. Sunny começou ainda criança em pequenas participações e teve um papel muito maior em You Are So Not Invited to My Bat Mitzvah, também da Netflix, onde trabalhou ao lado da irmã, Sadie. O pai produz Don’t Say Good Luck, assim como Jackie Sandler, mãe de Sunny. Nada disso está escondido.
Também não deixa de ser curioso lembrar que Sandler foi uma das primeiras grandes estrelas de Hollywood a apostar seriamente na Netflix. Em 2014, quando a plataforma ainda estava tentando convencer Hollywood de que poderia ser também um estúdio de cinema, fechou com ele um acordo para quatro filmes exclusivos. Houve bastante ironia na época. A parceria foi renovada sucessivamente e Sandler acabou provando algo que seus críticos jamais conseguiram negar: ele entrega público.
É um fenômeno peculiar de Hollywood. Seus filmes podem provocar discussões infinitas sobre qualidade, mas ele conhece seu público, tem um extraordinário instinto para entretenimento e sempre teve um ouvido musical muito melhor do que sua própria voz faria supor. Porque aí está uma das ironias deliciosas de Don’t Say Good Luck: Adam Sandler ama música.
A música atravessa seus filmes, suas comédias e seus personagens. Basta lembrar The Wedding Singer. Suas trilhas frequentemente são ótimas, e ele sempre brincou com o fato de cantar com aquela voz pequena, meio torta, perfeitamente incorporada à persona cômica. E então sua filha abre a boca. Sunny Sandler canta espetacularmente.
Não “bem para uma atriz”. Não “bem para uma adolescente”. Ela tem uma voz poderosa, musical, com projeção e algo que imediatamente remete à Broadway. Quando começa a cantar, o filme parece crescer junto com ela. Como atriz, ainda há caminho. Sunny é muito jovem e seria injusto exigir dela um repertório dramático que talvez venha justamente com experiência. Há momentos em que faltam camadas, especialmente porque Sophie atravessa emoções enormes: a descoberta do desejo, o primeiro amor, mudanças nas amizades e, sobretudo, o primeiro contato verdadeiro com uma despedida definitiva.
Fisicamente, há momentos em que ela me lembra Sofia Coppola — e estou pensando especificamente na Sofia Coppola de O Poderoso Chefão III, o que não é necessariamente um elogio à interpretação. Existe certa rigidez, uma dificuldade ainda perceptível em fazer emoções muito diferentes aparecerem sem esforço. Ainda assim, Sunny segura o filme. E quando canta, qualquer hesitação desaparece.
É como se encontrasse na música uma liberdade que ainda não encontrou inteiramente como atriz. O fraseado, a potência e a segurança estão lá. Dá vontade, em determinados momentos, de pedir que parem de fazê-la falar e deixem a menina cantar o resto do filme inteiro.

Até porque o material ajuda. Além de Waitress, o filme brinca com outras referências pop, inclusive Katy Perry, e Julia Hart entende que a música não pode servir apenas como decoração. Ela é a linguagem através da qual Sophie consegue dizer aquilo para o qual ainda não possui palavras.
Esse talvez seja o grande acerto de Don’t Say Good Luck. A história nós já vimos incontáveis vezes. Adolescente amadurece diante da doença de alguém que ama. Primeiro romance. Amizades mudando. Família tentando permanecer inteira. O impossível equilíbrio entre viver um momento feliz e sentir culpa porque alguém ao lado está sofrendo. Nada disso é novo, mas o filme não precisa ser novo para funcionar. Só precisa ser delicado. E é.
Melanie Lynskey ajuda enormemente nisso. Sua Elizabeth poderia facilmente virar aquela mãe de filme feita apenas para morrer e provocar o amadurecimento da protagonista. Não vira. Existem humor, irritação, medo, maternidade e uma tentativa muito reconhecível de continuar sendo mãe mesmo quando o próprio corpo começa a impor outros limites. O filme trata do luto antes da morte, o luto antecipado, aquela estranha experiência de começar a perder alguém que ainda está ali.
Sophie, por sua vez, precisa aprender uma coisa ainda mais difícil: continuar vivendo enquanto ama alguém que está morrendo. Por isso, Waitress funciona tão bem dentro da história. Por isso “She Used to Be Mine” funciona. E por isso Sunny Sandler funciona. Ainda não sabemos que atriz ela vai ser, mas já sabemos que cantora ela é.
E depois de Don’t Say Good Luck, eu também fiquei curiosa para acompanhar o que ela vai fazer com essa voz.
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