“Silo” explica o fim do mundo — e a verdade é ainda pior

Depois de quase três temporadas fazendo a mesma pergunta — o que aconteceu com o mundo? —, Silo finalmente começou a oferecer uma resposta. E “Gray Goo”, oitavo episódio da terceira temporada, confirma que estávamos procurando a catástrofe no lugar errado. Não foi apenas uma guerra nuclear, uma pandemia ou a destruição provocada pelas mudanças climáticas. Foi algo ao mesmo tempo mais sofisticado e aterrorizante: a nanotecnologia transformada em arma.

Mas essa ainda não é toda a verdade. Pelo menos não para quem leu Shift, segundo livro da trilogia de Hugh Howey. Porque os silos não foram construídos apenas para proteger a humanidade de um apocalipse inevitável. Eles fazem parte do próprio apocalipse.

Per Stensen, o bilionário vivido por Colin Hanks, explica a Daniel e Helen que a mesma tecnologia que o tornou o homem mais rico do mundo já havia sido desenvolvida como arma pelo Irã. A nuvem negra que derrubou o esquadrão de Charlotte não era uma tempestade, uma arma química ou algum fenômeno desconhecido. Era uma concentração de nanorrobôs capazes de agir coletivamente, invadir equipamentos e destruir tudo em seu caminho.

Daí o título “Gray Goo”, a “gosma cinzenta” associada à hipótese de que nanomáquinas autorreplicantes poderiam escapar ao controle, continuar se multiplicando e consumir ou destruir toda a matéria disponível. Na série, a ideia parece um pouco menos literal. Não estamos necessariamente diante de uma massa cinzenta devorando o planeta, mas de uma tecnologia invisível, barata e programável que pode ser usada por governos, grupos terroristas ou qualquer pessoa capaz de dominá-la.

Para Stensen, o fim do mundo não pode mais ser evitado. Apenas sobrevivido. Os 50 silos seriam, portanto, uma espécie de arca de Noé subterrânea: guardariam sementes, alimentos, equipamentos, livros, obras de arte e, principalmente, seres humanos. Depois de séculos protegida, aquela população poderia retornar à superfície e repovoar a Terra.

É a versão aparentemente humanitária do projeto. O problema é que Silo já nos mostrou o resultado.

As comunidades subterrâneas não conhecem a própria história, ignoram a existência umas das outras, têm a reprodução controlada, recebem substâncias capazes de apagar suas lembranças e vivem sob regras que transformam qualquer curiosidade em ameaça. Se um silo se torna instável, o comando central pode realizar um reset coletivo ou simplesmente liberar o Safeguard e matar aproximadamente dez mil pessoas. O abrigo é também a arma.

Daniel ainda não compreendeu completamente essa dimensão quando chega à obra. Arquiteto e congressista, ele olha para a imensa escavadeira e oferece uma solução técnica aparentemente inocente. Stensen planejava construir dez máquinas e transportá-las de uma escavação para outra. Daniel sugere fabricar 50 e deixar cada uma no fundo do silo que ajudou a construir.

É por isso que existe uma escavadeira gigantesca sob o Silo 18. Daniel, sem perceber, acaba de contribuir para a estrutura que aprisionará gerações inteiras. Essa é uma das aproximações mais importantes com Shift. No livro, Daniel se chama Donald Keene e é recrutado pelo senador Paul Thurman para projetar aquilo que acredita ser uma instalação de contenção de resíduos nucleares. Como possui formação em arquitetura, também desenha um abrigo autossustentável para os funcionários. Donald trabalha durante anos sem saber que está ajudando a construir o sistema destinado a substituir a civilização.

Na adaptação, Daniel recebe mais informações, participa diretamente da discussão sobre os 50 silos e parece perceber o perigo mais cedo. Mesmo assim, continua sendo manipulado por pessoas que sabem muito mais do que revelam.

Isso também explica sua aparente passividade diante do tratamento de Charlotte. Daniel começa acreditando que Victor está apenas cuidando das consequências neurológicas do acidente. Quando descobre que a medicação mantém as lembranças da irmã bloqueadas, fica assustado, mas o médico apresenta a manipulação como uma forma de compaixão. Por que obrigar Charlotte a recordar a morte de todos os seus companheiros? Por que devolver uma verdade que poderá destruí-la? É uma pergunta sedutora porque se apresenta como cuidado.

Victor explica que pode selecionar quais memórias serão recuperadas e quais permanecerão inacessíveis. Daniel é necessário porque conhece a história da irmã. Ele pode contar episódios da infância, mostrar fotografias e oferecer objetos capazes de reabrir determinados caminhos neurológicos. O alecrim funciona como um desses gatilhos: a mãe dos dois preparava frango com a erva, e o aroma provoca em Charlotte uma lembrança familiar.

Daniel acredita que está ajudando a irmã a recuperar quem era. Victor está usando o afeto dele para reconstruí-la de acordo com uma narrativa previamente escolhida. A memória da mãe pode voltar. A verdade sobre a missão, não.

Só que as lembranças não permanecem em compartimentos perfeitamente isolados. O alecrim abre uma porta, e Charlotte começa a recuperar também o que aconteceu antes da queda do avião. Descobre, então, que seu esquadrão jamais teve uma chance real.

Os pilotos foram enviados para provocar o Irã e obrigá-lo a revelar o estágio de desenvolvimento de sua arma nanotecnológica. Enquanto Charlotte e os companheiros serviam de isca, outra equipe havia passado dois anos cavando um túnel de aproximadamente 120 quilômetros até a instalação iraniana. O verdadeiro ataque seria realizado com uma arma nuclear de baixa potência. Charlotte e os demais não foram apenas derrotados. Foram sacrificados pelo próprio governo.

Ainda assim, ela aceita entrar no projeto dos silos como piloto de drones. A decisão é desconcertante, especialmente porque Daniel e Helen acabam de perceber que Stensen, Thurman e Victor não são filantropos preocupados com o futuro. São pessoas que consideram aceitável sacrificar alguns, manipular outros e escolher quem merece sobreviver.

Mas Charlotte talvez conclua que permanecer dentro do sistema seja a única maneira de compreender o que aconteceu — ou de fazer com que a morte de seus companheiros tenha algum sentido. Também é possível que sua decisão já seja resultado da reconstrução conduzida por Victor. Quanto de Charlotte realmente escolheu entrar no projeto e quanto foi preparado para aceitar essa função?

A pergunta não é secundária. Na linha temporal do presente, Camille faz exatamente a mesma coisa com Juliette. As duas mulheres sobrevivem a situações que deveriam matá-las. As duas acordam com partes essenciais da própria história apagadas. As duas são cercadas por pessoas que dizem estar cuidando delas. E, nos dois casos, alguém tenta ocupar o espaço deixado pela memória com uma narrativa mais conveniente.

Victor usa Daniel, o alecrim e as lembranças familiares para reconstruir Charlotte. Camille usa Sims, medicamentos e uma falsa versão dos acontecimentos para fabricar uma Juliette dócil. A diferença é que Daniel demora a perceber que está ajudando o médico a editar sua irmã, enquanto Sims finalmente compreende o que Camille está fazendo e se recusa a continuar colaborando. Por isso ele termina preso ao lado de Juliette.

Daniel e Helen, por sua vez, recusam o convite de Stensen e Thurman. Ele diz que prefere virar “gray goo” a passar o resto da vida embaixo da terra com aquelas pessoas. Helen responde que prefere virar “gray goo” com ele, e os dois se beijam antes de entrar no helicóptero.

A cena inteira parece uma despedida. Eles conheceram o segredo mais importante do governo, rejeitaram a proposta para participar e deixaram claro que não concordam com o projeto. O episódio não mostra o helicóptero explodindo, mas quer que desconfiemos de que os dois não serão simplesmente autorizados a voltar para casa.

A alteração em relação ao livro torna esse risco ainda mais significativo. Em Shift, Helen é esposa de Donald. Na série, ela foi transformada em jornalista e sua relação com Daniel está sendo construída diante de nós. Anna, filha de Thurman e antiga paixão de Donald no romance, também permanece na história, criando uma nova disposição emocional entre os personagens.

No livro, quando a catástrofe finalmente começa, Donald é conduzido ao complexo dos silos, mas Helen acaba na área errada. Ele passa décadas sendo despertado de períodos de criogenia, medicado e chamado por outro nome, sem conseguir compreender completamente o que aconteceu com a mulher. A adaptação pode seguir outro caminho, mas colocar Daniel e Helen juntos naquele helicóptero parece uma maneira deliberada de prepará-los para uma separação tão brutal quanto a de Shift.

Charlotte também ganhou uma participação muito maior. No livro, ela já é piloto de drones e será despertada no futuro pelo irmão para ajudá-lo a investigar a superfície. Na série, estamos vendo como ela é incorporada à Operação Cinquenta antes do fim do mundo. Sua presença aproxima as duas linhas temporais e pode explicar por que a personagem será tão importante na reta final da história. A maior diferença, porém, ainda está por vir.

Em Shift, Thurman, Victor e os demais responsáveis pela Operação Cinquenta não constroem os silos apenas porque acreditam que uma guerra nanotecnológica acontecerá. Eles concluem que a humanidade inevitavelmente utilizará os nanorrobôs para se destruir e decidem realizar essa destruição de maneira controlada. Em outras palavras, matam o mundo primeiro.

Os chamados “bad nanos” já estavam espalhados e poderiam ser ativados para matar praticamente toda a população. As explosões nucleares criam a aparência visível do apocalipse, mas são os nanorrobôs que tornam a destruição global. As pessoas previamente protegidas e conduzidas aos silos sobrevivem. Todos os demais são eliminados.

O projeto não pretende salvar as 50 comunidades. Durante cerca de 500 anos, cada silo será observado, controlado e avaliado. Apenas um deles será escolhido para herdar a Terra. Os outros serão exterminados. O Algoritmo que conversa com Camille na série parece ser a atualização mais direta dessa lógica: transformar a sobrevivência humana numa equação e tratar liberdade, memória e verdade como variáveis perigosas. Enquanto o passado revela como a prisão foi construída, Juliette tenta impedir que ela se torne uma câmara de extermínio.

Lukas e Kennedy conseguem chegar ao Silo 17 e descobrem como a mãe de Jimmy morreu. Ela encontrou o cano do Safeguard, cortou a tubulação e tentou soldá-la enquanto queimava o agente mortal que escapava. Quando percebeu que não conseguiria terminar antes de o combustível acabar, selou a si própria dentro do compartimento. Não abandonou o filho. Sacrificou-se para impedir que o veneno continuasse entrando.

A descoberta oferece a Juliette uma possibilidade concreta de salvar o Silo 18: prensar o cano, cortá-lo depois do ponto bloqueado e soldar uma tampa. O desenho feito por Bernard mostra que os silos estão ligados ao centro de comando por grandes ramificações. Gus, pai de Knox, confirma a lógica da instalação. Em vez de 49 tubulações independentes, o sistema dividiria os silos em sete grupos alimentados por linhas principais.

Mas Juliette percebe tarde demais que o Silo 17 possui uma orientação diferente. Shirley foi enviada ao compartimento errado justamente quando Sandy consegue avisar, por meio de um código, que o Judicial descobriu a operação.

Juliette se entrega para permitir que Shirley escape e continue procurando o cano correto. Sua decisão é ainda mais dolorosa porque o episódio praticamente confirma que Shirley está grávida. Ela e Knox retiraram clandestinamente o implante anticoncepcional porque decidiram ter um filho. Em meio a uma sociedade que controla até quem pode nascer, a gravidez é também um ato de resistência: os dois estão apostando que existe um futuro possível.

Agora, porém, o grupo precisa decidir entre resgatar Juliette ou concluir a missão. Explodir o Judicial poderá matar a mulher que todos querem salvar. Abandonar a busca pelo Safeguard deixará dez mil pessoas sob a ameaça permanente do Algoritmo.

Juliette já fez sua escolha. Ela se deixou prender para que Shirley permanecesse livre. Salvar o silo importa mais do que salvá-la.

“Gray Goo” finalmente explica por que os silos foram construídos, mas a comparação com Shift torna a revelação ainda mais sombria. O verdadeiro vilão não é apenas a nanotecnologia. É a certeza de Stensen, Thurman e Victor de que somente eles possuem inteligência, autoridade e coragem para decidir o destino de todos.

O fim do mundo pode ter começado com nanorrobôs. A distopia, no entanto, começou antes: quando um pequeno grupo passou a acreditar que salvar a humanidade lhe dava o direito de destruí-la.


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