Como publicado no Blog do AMaury Jr./Splash UOL
Passei algum tempo sem escrever sobre Harry e Meghan porque, conhecendo minimamente esse casal que acompanhamos tão de perto há quase dez anos, eu sabia que alguma coisa grande estava para acontecer. E aconteceu. Os Sussex estão voltando à Inglaterra por um período ainda indefinido, com os filhos matriculados em escolas britânicas, embora mantenham a casa em Montecito e, portanto, o pé firmemente colocado nos Estados Unidos.
É claro que essa permanência americana tem razões profissionais, financeiras e afetivas. Mas também funciona como rota de escape. Se a experiência britânica não der certo, se a família real voltar a fechar as portas ou se o próprio casamento algum dia terminar, Meghan terá para onde voltar. Não se trata necessariamente de uma mudança definitiva, muito menos de uma rendição. É mais uma vez a tentativa de ocupar dois mundos, exatamente o modelo híbrido que eles queriam em 2020 e que a rainha Elizabeth II recusou.

Desde que a notícia surgiu, críticos passaram a dizer que os Sussex voltam porque fracassaram nos Estados Unidos, perderam contratos, estão sem dinheiro ou descobriram que não conseguem sustentar a própria relevância longe da monarquia. Pode haver pequenos elementos de verdade nisso, assim como há elementos de delírio na defesa incondicional feita pelos fãs. Com Harry e Meghan, os dois extremos costumam enxergar alguma coisa e exagerar todo o resto.
A patologia do casal — e uso a palavra como leitura de uma dinâmica, não como diagnóstico clínico — é incomodar. Harry e Meghan parecem ter uma certeza absoluta sobre a própria verdade, sempre apresentada como a verdade. O mundo está contra eles, mas eles mudarão esse mundo. As críticas, que alegam não buscar, acabam alimentando justamente a posição da qual retiram força: a de duas pessoas perseguidas por uma estrutura poderosa porque tiveram coragem de enfrentá-la.
É inegável que eles crescem na adversidade. Quanto mais são atacados, mais encontram combustível para continuar. O conflito lhes oferece missão, identidade, narrativa e até linguagem. Por isso, essa dinâmica deve ser observada tanto com a desconfiança dos críticos quanto com certa sensibilidade que os fãs preservam. Porque Harry e Meghan podem manipular os símbolos da própria exclusão, mas também foram de fato feridos por uma instituição rígida, por uma imprensa brutal e por relações familiares muito mal resolvidas.
Antes de transformar a volta em confissão de fracasso, porém, existe um dado que não pode ser ignorado: o rei está com câncer. Não sabemos qual é o câncer de Charles, qual é o prognóstico nem quanto tempo ele tem pela frente. O palácio nunca divulgou esses detalhes. Portanto, afirmar que o rei está nos últimos anos de vida seria irresponsável. Harry, no entanto, foi quem alimentou essa preocupação ao dizer, em maio de 2025: “Não sei quanto tempo meu pai ainda tem”. Na mesma entrevista, falou sobre reconciliação, sobre a brevidade da vida e sobre o desejo de voltar a se aproximar da família. A frase provocou especulações justamente porque Charles continua em tratamento.
Em julho, Charles finalmente reencontrou Archie e Lilibet em Highgrove, quatro anos depois da última vez em que estivera pessoalmente com os netos. Meghan também participou da reunião. Pouco depois, veio a decisão de transferir a família para a Inglaterra por um período prolongado. A sequência dos fatos não comprova que a saúde do rei tenha piorado, mas torna impossível desprezar a possibilidade de que aquele encontro tenha mudado alguma coisa em Harry. A reunião marcou um degelo real entre pai e filho.

E aqui é preciso reconhecer o que existe de genuíno. Independentemente das entrevistas, das acusações, do livro, da série da Netflix e do dinheiro obtido com a exposição da família, Harry é um filho que deseja recuperar algum tempo com o pai antes que seja tarde. Isso não deveria ser criticado. Faz muito mais sentido que ele volte agora do que permaneça na Califórnia e repita a experiência de acompanhar à distância os últimos anos de uma pessoa fundamental.
Harry já perdeu a mãe de forma violentíssima. Também viveu longe da avó no fim da vida dela e chegou tarde demais para se despedir em Balmoral. Para alguém cuja história psíquica é marcada pela perda, voltar para perto do pai é compreensível, humano e, em algum nível, admirável.
Mas essa não é toda a história. Harry não está voltando apenas para Charles. Está voltando para o sistema e, dentro dele, para William.
O próprio Harry chamou o irmão de “meu amado irmão e arqui-inimigo” e admitiu que sempre houve competição entre eles, determinada em parte pela lógica do herdeiro e do reserva. Não é uma interpretação construída exclusivamente pelos críticos: foi ele quem escolheu essas palavras e reconheceu essa rivalidade. Harry relacionou explicitamente a competição à estrutura “heir/spare”.
Minha leitura é que, quando Harry fala de William, frequentemente fala de si mesmo. Ele acusa o irmão de ciúme, inveja e incapacidade de aceitar seu brilho, mas é Harry quem passou a vida diante do homem destinado a ocupar o lugar que ele jamais poderia alcançar. É Harry quem precisa elaborar a suposta superioridade de William, não necessariamente como indivíduo, mas como função: o primogênito, o herdeiro, o futuro rei.
É um mecanismo clássico de projeção. Aquilo que é insuportável reconhecer em si aparece atribuído ao outro. Isso não significa que William seja inocente, generoso ou livre de rivalidade. Significa apenas que a verdade contada por Harry nunca chega limpa. Ela vem encharcada de sentimentos, ressentimentos, traumas e de uma necessidade profunda de reorganizar a própria história para encontrar nela um culpado identificável.

O sistema realmente danificou Harry. Ele foi criado para ser importante, mas nunca tão importante quanto o irmão. Recebeu visibilidade mundial sem possuir poder correspondente. Era indispensável até que William tivesse filhos. Depois, cada nascimento — George, Charlotte e Louis — empurrou o tio mais para baixo na linha sucessória e tornou institucionalmente explícito aquilo que ele sempre temeu: sua substituição.
A vida de Harry parece ter melhorado longe do irmão. A de William também. O problema é que a aparente tranquilidade de William diante do afastamento talvez seja intolerável para Harry. Tudo indica que o príncipe de Gales não quer conversar, não quer negociar e não quer reintroduzir Meghan e Harry em sua vida. A relação entre os irmãos permanece sem contato, mesmo com a reaproximação entre Harry e Charles. A mudança para a Inglaterra não alterou, até agora, esse afastamento.
Para Harry e Meghan, a recusa não encerra o conflito. Ela estabelece uma meta. Se William não os aceita voluntariamente, eles se tornarão impossíveis de ignorar. Viverão novamente no mesmo país, colocarão os filhos em escolas britânicas, estarão próximos do rei e voltarão a ocupar o espaço simbólico da família. Se você quiser reduzir tudo à guerra binária entre Sussex e Wales, poderá chamar isso de reconciliação ou provocação. Provavelmente é um pouco dos dois.
Há um episódio aparentemente menor que, para mim, ajuda a entender a mudança. Quando Harry foi chamado por um repórter de “ex-royal”, incomodou-se e corrigiu a expressão. A reação revelava algo essencial: ele pode ter deixado de ser um membro ativo da monarquia, mas não aceita ter sido retirado da realeza. Nos anos seguintes, quase todas as suas escolhas reforçaram essa ligação. O título aparece, os filhos são príncipe e princesa, a origem real sustenta sua projeção pública e a instituição continua sendo o centro gravitacional de sua narrativa.

Harry conseguiu fama, dinheiro, contratos, entrevistas, documentários e liberdade. Conseguiu demonstrar felicidade longe da Inglaterra. O que não conseguiu foi atingir William e a monarquia de dentro do espaço que realmente importa para ele. Do outro lado do Atlântico, podia causar escândalos, mas também começou a correr o risco mais perigoso de todos: ser apagado.
E Harry não suporta ser tratado como ex-realeza porque sua identidade continua inteiramente ligada àquilo que diz ter abandonado. A proximidade da ascensão de William torna esse problema ainda mais urgente. Charles é pai, tem culpa, afeto e uma conhecida aversão ao confronto. Também sabe como é terminar transformado em vilão numa guerra pública familiar. Harry conhece essas fragilidades e sabe como pressioná-las. Uso “manipular” deliberadamente: não porque seu desejo de estar com o pai seja falso, mas porque um sentimento genuíno também pode ser usado estrategicamente.
Ao voltar durante o reinado de Charles, Harry se reinsere no cenário antes que William possa redesenhá-lo. Recupera presença, aproxima os filhos do avô, estabelece vínculos britânicos e torna qualquer afastamento futuro uma ação atribuível ao irmão. Se, depois de se tornar rei, William mantiver os Sussex do lado de fora, a ruptura passará a ser dele. Charles poderia ter evitado isso e não evitou. O pai abriu a porta; o irmão terá de decidir se a fecha.
Há, porém, uma correção factual importante. William não poderia simplesmente retirar Harry e os filhos da linha sucessória, pois isso exigiria legislação. Também não poderia extinguir sozinho o Ducado de Sussex. Mas o precedente de Andrew mostrou que o monarca pode retirar as dignidades de príncipe e princesa e o tratamento real por Cartas Patentes, o que já seria um sinal de alerta para Harry.
Também não basta argumentar que são “americanos” ou que cresceram longe da família real. Residência e nacionalidade não os eliminam automaticamente. Mas isso não reduz a importância simbólica do movimento. Harry sabe que títulos, pertencimento e legitimidade não sobrevivem apenas nos documentos. Dependem de presença, de reconhecimento e de uma história que possa ser contada publicamente.

Matricular Archie e Lilibet na Inglaterra os transforma, aos olhos do público, em netos do rei que vivem no país do qual poderão um dia representar a Coroa, ainda que essa hipótese seja remotíssima. Eles nunca chegarão perto do trono em condições normais, mas não é preciso acreditar que serão rei e rainha para compreender por que Harry considera fundamental preservar esse lugar. Ele passou a vida definido por uma posição na linha sucessória. Naturalmente, projeta nos filhos o medo de perder o que lhe restou.
A volta, portanto, não significa que os Sussex retomarão funções oficiais. As informações disponíveis indicam que continuarão como membros não atuantes da família real, mantendo seus projetos particulares e a residência americana. A permanência na Inglaterra não restaura o modelo de “meio dentro, meio fora” recusado em 2020. Ao menos, não formalmente.
Informalmente, porém, Harry está tentando reconstruir exatamente esse lugar. Ele quer a liberdade americana e a relevância britânica. Quer denunciar a instituição e continuar reconhecido por ela. Quer distância quando a proximidade o fere e proximidade quando a distância ameaça apagá-lo. Quer dizer que escapou, mas não aceita que a vida da monarquia tenha seguido perfeitamente sem ele.
Por isso, não vejo essa mudança simplesmente como fracasso, falta de dinheiro ou súbita saudade da chuva inglesa. Vejo amor por um pai doente, medo de outra perda, rivalidade com o irmão, preocupação com o legado e uma operação cuidadosamente construída para voltar ao tabuleiro antes da mudança de reinado.
Harry não está pedindo para voltar a ser príncipe. Está lembrando a todos de que nunca deixou de ser. E, numa versão aristocrática de Zagallo, retorna à Inglaterra com uma mensagem bastante clara para William, para a monarquia e para todos os que já começavam a chamá-lo de ex-realeza: vocês vão ter de me engolir.
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Charles III conseguiu, facilmente, remover os títulos reais de Andrew sem precisar passar por parlamento, reinos da Commonwealth ou Câmara dos Comuns. Dormiu príncipe e duque e acordou um cidadão privado.
Ao meu ver, William deve seguir a linha da outrora rainha Margrethe, da Dinamarca, que retirou a denominação “Sua Alteza Real” e títulos de príncipe e princesa dos netos que não eram da linha principal de sucessão. Assim, eles se tornariam no máximo condes/condessas e poderiam viver uma vida privada e não seriam sustentados pela Coroa (o que William deseja, uma monarquia “slimmed down”).
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Então, você tem razão ao lembrar o precedente da rainha Margrethe, e esse é um caminho perfeitamente possível para William. Mas há uma distinção jurídica importante: Charles retirou de Andrew a dignidade de príncipe e o tratamento de Sua Alteza Real por Cartas Patentes. (ajustei isso no texto pq vc tem razão que faltava) e Andrew também deixou de usar o título de duque, foi removido do registro do pariato, mas o Ducado de York não foi juridicamente extinto porque para isso seria necessária uma lei do Parlamento. Só que Andrew tampouco se tornou um cidadão privado comum: continua na linha sucessória.
A Ranha Margrethe retirou dos netos os títulos de príncipe e princesa e o tratamento de Alteza, mas eles também permaneceram na sucessão dinamarquesa e passaram a ser condes e condessas de Monpezat. William poderia fazer algo semelhante com Archie e Lilibet, especialmente dentro do projeto de uma monarquia mais enxuta. O que ele não poderia fazer sozinho seria extinguir o Ducado de Sussex ou excluir Harry e os filhos da linha sucessória. Era essa diferença que tentei estabelecer no texto.
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