Meghan Markle nunca foi uma estrela antes de conhecer o príncipe Harry. Era uma atriz profissional, trabalhava com regularidade e havia conquistado estabilidade em uma indústria brutalmente competitiva, o que não é pouco. Mas seu papel como Rachel Zane em Suits, embora importante dentro da série, foi o ápice de uma carreira que estava longe de transformá-la em um nome mundial. A fama planetária veio com o casamento. E se tornou ainda maior com a guerra subsequente contra a imprensa britânica e alguns parentes do marido. Fãs ou não de Meghan, esses são fatos.
O que se discute desde então é o que ela fez com essa fama. Desde que “se recusou” a aceitar as regras da monarquia — ou foi vítima de racismo, ciúmes e inveja, cada lado escolhe a narrativa que prefere —, seu nome passou a ser associado a praticamente tudo o que existe de tóxico e complexo na relação contemporânea com a celebridade: racismo, modernidade, oportunismo, vitimismo, assédio, machismo, hipocrisia, autenticidade e narcisismo. Não necessariamente nessa ordem, tampouco sempre com justiça, mas certamente com frequência.

A seu favor, Meghan é uma mulher forte. Ou delusional, se você estiver no time anti-Meg. Porque parece transformar cada crítica em combustível. Quando dizem que fracassou, lança outro produto. Quando afirmam que perderam relevância, aparecem diante das câmeras. Quando tentam separar sua marca da monarquia, ela assina profissionalmente como Meghan, Duquesa de Sussex. E quando sua anunciada volta à Inglaterra já seria suficientemente explosiva, surge a notícia de que estaria negociando com Guy Ritchie um papel na possível terceira temporada de The Gentlemen.
Para a Família Real, é difícil imaginar uma combinação simbolicamente mais desconfortável. A Duquesa de Sussex está participando de uma série na qual duques, lordes e proprietários de palácios decadentes cedem suas terras para plantações clandestinas de maconha? Não é um conteúdo, digamos, alinhado à dignidade do título ao qual Meghan continua a se agarrar.
O detalhe importante é que, por enquanto, nada está fechado. Segundo as informações divulgadas pela imprensa americana e repercutidas pela Reuters, Meghan estaria em conversas para integrar uma eventual terceira temporada. A Netflix ainda não renovou oficialmente a série, o papel não foi revelado e nem a plataforma nem os representantes da duquesa confirmaram sua escalação. Portanto, estamos falando de uma negociação preliminar para uma temporada que ainda não existe oficialmente, embora seja difícil acreditar que tanta fumaça tenha surgido sem algum fogo.
De onde veio The Gentlemen
The Gentlemen nasceu como filme. Lançada em 2019, a comédia criminal marcou a volta de Guy Ritchie ao universo em que construiu sua carreira em títulos como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch. A trama acompanhava Mickey Pearson, personagem de Matthew McConaughey, um americano que havia construído um gigantesco império de maconha na Inglaterra e pretendia vender o negócio.
Para manter a produção escondida, Mickey fazia acordos com aristocratas britânicos sem dinheiro suficiente para sustentar suas propriedades. As mansões continuavam imponentes diante das câmeras, mas escondiam plantações subterrâneas. O contraste era a melhor piada do filme: a velha nobreza sobrevivia graças ao dinheiro do crime organizado, enquanto os novos criminosos compravam o acesso, o prestígio e a proteção social que os títulos ainda ofereciam.
O filme custou cerca de 22 milhões de dólares e arrecadou mais de 115 milhões mundialmente. Era inevitável que esse universo fosse explorado novamente. A série da Netflix, porém, não é uma continuação direta e não traz os mesmos personagens. Ela reaproveita o princípio central e o transforma em uma história própria.

Eddie Horniman, vivido por Theo James, é um militar que volta para casa após a morte do pai e descobre que herdou inesperadamente o título de Duque de Halstead, ultrapassando o irmão mais velho, Freddy. Junto com a propriedade rural e os privilégios da aristocracia, Eddie recebe também um problema: sob as terras da família funciona uma gigantesca plantação de maconha comandada por Susie Glass, personagem de Kaya Scodelario.
Inicialmente, Eddie quer libertar a família do acordo. Aos poucos, porém, descobre que possui um talento bastante natural para ameaças, chantagens, alianças criminosas e decisões moralmente duvidosas. O duque não é uma vítima inocente tragada pelo submundo. O submundo apenas revela quem ele talvez sempre tenha sido.
Esse é o ponto mais interessante de The Gentlemen. Guy Ritchie não apresenta a aristocracia como uma instituição corrompida pelos traficantes. Ele sugere que nobres e criminosos sempre falaram idiomas muito parecidos: ambos defendem territórios, protegem sobrenomes, acumulam poder, exigem lealdade e acreditam que determinadas regras não se aplicam a eles. Como resumiu Kaya Scodelario ao falar da série, os aristocratas foram, em algum nível, “os gangsters originais”.
O tamanho do sucesso
A primeira temporada estreou em março de 2024 e se transformou em um dos maiores sucessos britânicos daquele semestre na Netflix. De acordo com o relatório oficial da plataforma, The Gentlemen acumulou 76 milhões de visualizações entre janeiro e junho daquele ano, ficando atrás apenas de Fool Me Once e Baby Reindeer entre as séries britânicas mais vistas no período.
A resposta da crítica foi positiva, ainda que sem entusiasmo absoluto: 75% de aprovação no Rotten Tomatoes. A série foi elogiada pelo elenco, pelo humor, pela violência estilizada e pela inconfundível assinatura visual de Guy Ritchie, mas também criticada por repetir uma fórmula que o diretor utiliza há quase três décadas.
A segunda temporada estreia em 3 de setembro de 2026, novamente com oito episódios. Eddie e Susie agora trabalham como parceiros dentro do império de Bobby Glass, pai dela, mas começam a desconfiar das decisões do chefe. A ambição leva os negócios para fora da propriedade inglesa e até os lagos italianos, onde entram em cena novos criminosos e novas disputas de poder.
Theo James, Kaya Scodelario, Daniel Ings, Ray Winstone, Joely Richardson e Vinnie Jones retornam. Entre as novidades estão Hugh Bonneville, Benedetta Porcaroli, Michele Morrone, Sergio Castellitto, Maya Jama e Benjamin Clementine. Guy Ritchie volta como diretor e corroteirista.
É o desempenho dessa segunda temporada que, em condições normais, determinaria a renovação da terceira. Mas a entrada de Meghan mudaria completamente a equação. Ela não seria apenas uma nova integrante do elenco. Seria um acontecimento cultural, político e publicitário capaz de garantir à série uma exposição que nenhuma campanha tradicional conseguiria comprar.


Quem estaria usando quem?
A primeira leitura, inevitavelmente, é que Meghan estaria mais uma vez lucrando com a Família Real. Sem o título, o casamento e a ruptura pública, sua eventual escalação dificilmente teria a mesma repercussão. Uma atriz que deixou Suits em 2017 não provocaria uma disputa internacional de manchetes ao negociar um papel ainda indefinido em uma temporada não renovada.
Mas existe outra leitura igualmente possível: Guy Ritchie e a Netflix também estariam lucrando com Meghan e, por consequência, com a Família Real. Escalá-la para The Gentlemen seria uma decisão de marketing extraordinariamente consciente. Meghan interpretando uma aristocrata, uma americana infiltrada entre nobres ou, como já especulam os tabloides, uma sedutora ligada ao crime seria uma provocação construída para gerar curiosidade antes mesmo da primeira cena.
É justamente aí que a eventual participação se torna tão perfeita. The Gentlemen fala sobre a comercialização da aristocracia. Seus personagens usam títulos, propriedades históricas e símbolos de tradição para sustentar negócios modernos e frequentemente ilícitos. Meghan construiu sua vida pós-monarquia em torno de um dilema semelhante: deseja se libertar das regras da instituição, mas não de seu capital simbólico.

Ela não é mais uma integrante ativa da Família Real e o Palácio não possui controle editorial sobre sua carreira. Portanto, aceitar o papel não seria uma violação institucional. Até porque, antes mesmo do casamento, a Rainha teria deixado claro que Meghan poderia continuar trabalhando como atriz, caso não quisesse assumir funções reais em tempo integral. O problema do projeto com Guy Ritchie em particular é simbólico. Meghan continuaria aparecendo como Duquesa de Sussex enquanto participaria de uma ficção que transforma duques em traficantes, propriedades aristocráticas em fazendas de maconha e a decadência da elite britânica em entretenimento global.
Talvez a pergunta, portanto, não seja se Meghan está novamente desafiando ou explorando a Família Real. Talvez seja porque ainda esperamos que ela escolha entre as duas coisas.
Meghan pode estar desafiando a monarquia justamente porque aprendeu a lucrar com ela. E a monarquia, que sempre dependeu da imagem, do espetáculo e da curiosidade pública para preservar sua relevância, não pode alegar completo espanto ao ver uma ex-integrante utilizar as mesmas armas. O que torna sua possível entrada em The Gentlemen tão fascinante é que, pela primeira vez, ela não precisaria explicar essa contradição. Bastaria interpretá-la.
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