Lioness: nem o plot armour parece capaz de salvar Joe

O drama em torno de Joe e a constatação de que está virtualmente impossível resgatá-la — mesmo enquanto ela permanece em solo americano — são, ao mesmo tempo, irritantes e assustadores. Irritantes porque, pela segunda vez, sua equipe chega poucos minutos tarde demais. Assustadores porque seus sequestradores parecem conhecer cada movimento da CIA, antecipando rotas, operações e decisões com uma precisão que transforma o país mais poderoso do mundo em espectador do próprio fracasso.

“Murder Hornets”, quarto episódio da terceira temporada de Lioness, não precisa matar Joe para criar a sensação de que talvez ela não volte. É improvável que a protagonista interpretada por Zoe Saldaña seja sacrificada no meio da série, mas Taylor Sheridan está trabalhando arduamente para nos convencer de que nenhum plot armour será capaz de salvá-la.

O “problema” — além das idas e vindas no tempo, que continuam interrompendo a urgência do presente — é que a situação está tão insolúvel que já adotei o cenário três sugerido por Kaitlyn. Não exatamente porque espere ser tortuosamente surpreendida pela morte de Joe, mas porque o nó parece cego. Mesmo que ela seja encontrada, interceptada e retirada daquele avião, o que exatamente restará da mulher que conhecemos?

Joe já estava no limite antes de ser sequestrada

Quando o episódio começa, Joe continua sendo torturada pelos russos. Seus captores combinam violência física, exaustão e provocações políticas na tentativa de enfraquecê-la. Ela reage como sempre: ironiza, desafia, ataca a Rússia e se recusa a oferecer aos homens o prazer de perceberem seu medo.

Zoe Saldaña é especialmente boa nesses momentos em que a força de Joe deixa de parecer apenas coragem e começa a assumir a forma de uma compulsão pela resistência. Ela não pode demonstrar fragilidade porque construiu toda a sua identidade em torno da capacidade de sobreviver.

Mas Joe já estava no limite antes do sequestro. Estava exausta, paranoica, perseguida pela certeza de que o trabalho alcançaria sua casa e colocaria sua família em risco. Havia todos os sinais de um burnout se aproximando — embora, no universo de Lioness, o colapso só seja reconhecido quando o corpo literalmente já não consegue continuar.

Agora ela está sendo torturada, retirada do país e ameaçada com algo que talvez tema ainda mais do que a morte: entregar informações. Se sair viva dessa enrascada, dificilmente voltará psicologicamente inteira.

Joe tenta deixar o próprio sangue no local como um rastro para a equipe. É um gesto inteligente, muito característico dela, mas também dolorosamente insuficiente. Quando Kyle, Bobby e os demais invadem o hangar, encontram apenas a confirmação de que estiveram novamente muito perto. O avião já partiu.

A guerra particular de Kyle

A frustração de Kyle explode imediatamente. Diante de três russos capturados, ele executa um deles e usa o assassinato para obrigar outro a revelar o número de identificação da aeronave.

A informação é obtida. O método, evidentemente, é indefensável. Mas Lioness gosta de nos colocar exatamente nesse território moralmente desagradável: Kyle ultrapassa todos os limites, enquanto nós também estamos desesperados para que alguém diga onde Joe está.

Bobby reage ao que testemunhou e informa Kaitlyn. Kyle, por sua vez, não demonstra arrependimento. “Tratei como guerra”, argumenta. Para ele, é guerra.

Esse raciocínio é recorrente no universo de Taylor Sheridan. A guerra existe não apenas como circunstância, mas como justificativa prévia para qualquer violência. Se o perigo é suficientemente grande, as regras passam a parecer um luxo. E, naquele momento, Kyle está convencido de que perder Joe significaria expor agentes, operações, endereços e toda a estrutura clandestina do programa Lioness.

Kaitlyn o repreende, mas guarda qualquer julgamento mais sério para depois. A prioridade é encontrar o avião. A contradição é óbvia: a pista que talvez possa salvar Joe foi arrancada por meio de uma execução. Condenar Kyle significaria também admitir que todos usarão a informação que ele conseguiu.

Salvar Joe ou impedir que ela chegue viva?

O número da aeronave conduz a um Challenger 300, mas não resolve o problema. O transponder foi desligado e o avião voa baixo, dificultando o rastreamento. Cuba, México e Venezuela surgem como possibilidades, embora ninguém saiba se algum desses países será realmente o destino final.

Os russos podem estar levando Joe para negociá-la por Aleksi Yurimov, capturado pela CIA durante a operação na Ucrânia. Também podem entregá-la ao Irã, onde ela se tornaria simultaneamente fonte de informação, prisioneira política e instrumento de propaganda.

A ordem de Kaitlyn revela até onde os Estados Unidos estão dispostos a ir. Se o avião for localizado ainda em território americano, caças devem obrigá-lo a pousar. Caso já esteja em espaço aéreo internacional, a orientação é “engajar”. Ou seja: derrubá-lo, ainda que Joe esteja dentro.

É o momento mais assustador do episódio porque muda completamente a definição da missão. A prioridade inicial é resgatá-la. Mas, se isso se tornar impossível, o objetivo passa a ser impedir que as informações armazenadas por Joe cheguem ao inimigo. Viva, ela é uma agente a ser recuperada. Fora do alcance americano, transforma-se em uma ameaça a ser eliminada.

A operação que criou o impasse

As viagens ao passado explicam como a Operação Treasure ajudou a construir essa crise. Joe pretendia usar Oleksandra Balakin, a agente dupla ucraniana, para identificar pessoas recrutadas pela inteligência russa e, por meio delas, chegar aos responsáveis por controlá-las.

A estratégia consistia em aproximar uma Lioness dos ativos, oferecer uma saída em troca de informações e finalmente deter ou deportar os agentes russos. Era uma forma de usar contra a Rússia os mesmos instrumentos de sedução, chantagem e manipulação empregados por seus serviços de inteligência.

A conversa entre Kaitlyn, Byron e Maxim, o vice-embaixador russo, confirma o valor de Yurimov. Maxim jamais diz seu nome. Refere-se apenas a “algo” muito importante para o presidente russo, que teria sido roubado e precisaria ser devolvido. Byron também não reconhece que os americanos estejam com ele.

É espionagem reduzida à arte de discutir algo que todos conhecem sem permitir que sua existência seja oficialmente admitida. Maxim ainda deixa um dispositivo escondido sob a mesa, esperando gravar Kaitlyn e Byron depois de sua saída. A diplomacia continua sendo uma encenação — apenas com microfones ocultos.

O episódio quer demonstrar como a operação de Joe colocou em movimento as forças que agora a mantêm presa. O recurso funciona como explicação, mas nem sempre como narrativa. Quanto mais desesperadora se torna a busca no presente, menos paciência temos para retornar ao passado. Não porque a Operação Treasure seja desinteressante, mas porque Joe está em um avião que talvez seja abatido a qualquer momento.

Neal também está chegando ao limite

O passado esclarece outra tensão fundamental. Instalado com as filhas em uma base militar, Neal deveria se sentir protegido. Joe, porém, quer que ele aprenda a usar uma arma. Ele percebe imediatamente o absurdo: se aquele lugar é realmente mais seguro, por que um médico precisa aprender a matar?

Neal fez um juramento para preservar vidas. Joe responde que o restante do mundo usa a violência como moeda e que, depois do ataque sofrido pela família, esse mundo chegou à porta deles. Mas não foi apenas “o mundo” que chegou. Foi o trabalho de Joe.

Neal tampouco parece capaz de tolerar por muito mais tempo saber tão pouco e arriscar tanto — não apenas a própria vida, mas as das filhas. Seu casamento já dependia de um pacto muito frágil: ele aceitava não conhecer o trabalho de Joe porque precisava acreditar que ela ainda mantinha o perigo distante da família. O ataque à casa destruiu essa ilusão.

No presente, Kaitlyn vai procurá-lo. Não possui consolo, apenas três possibilidades. Na primeira, a CIA vence o relógio e Joe volta dentro de poucos dias. Na segunda, a busca se prolonga por meses ou mais. Na terceira, Joe não retorna. Kaitlyn manda que Neal se prepare para a última. Se ela não acontecer, o alívio será sua recompensa.

Nicole Kidman conduz a cena sem sentimentalismo, mas a aparente frieza de Kaitlyn não significa indiferença. Ela apenas conhece a máquina à qual todos entregaram a própria vida. Esperar pelo pior é sua maneira de continuar funcionando.

Eu, a esta altura, também já estou no cenário três. Não necessariamente esperando que Joe morra, mas incapaz de enxergar como a série poderá desfazer esse nó sem recorrer a alguma solução muito conveniente. Seus sequestradores estão sempre um passo à frente, o avião desapareceu dos radares e a própria CIA admite que poderá matá-la para impedir que seja entregue ao inimigo.

Mesmo que o inevitável plot armour funcione, a verdadeira pergunta não é apenas como Joe escapará. É como ficará depois disso.

Ela já não conseguia separar a agente da esposa e da mãe. Agora sua família sabe que pode ser atacada, Neal sabe que poderá ficar viúvo sem sequer receber explicações e Joe sabe que sua própria equipe recebeu autorização para derrubar o avião em que está presa.

Sobreviver talvez ainda seja possível. Voltar para a vida anterior, não.


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