Na despedida de Dolly Parton eu aposto que ela será lembrada ao som de Jolene. E, inevitavelmente, de I Will Always Love You. Eu me despeço com 9 to 5.
Não porque as outras duas canções sejam menos importantes. Jolene, com aquele violão imediatamente reconhecível e sua combinação quase insuportável de vulnerabilidade e contenção, talvez seja um dos exemplos mais perfeitos de Dolly como contadora de histórias. I Will Always Love You é uma das grandes canções de despedida já escritas, e talvez a demonstração mais espetacular de seu tamanho como compositora. Whitney Houston a transformou em uma das maiores performances vocais da história do pop, mas a canção era de Dolly: a melodia, as palavras, aquela extraordinária capacidade de tornar sentimentos complicados aparentemente simples. Mas 9 to 5 diz mais, para mim, sobre a mulher por trás de tudo isso.
Dolly Parton morreu nesta terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos, depois de mais de seis décadas de uma carreira que começou no Tennessee e se expandiu muito além da música country. Cantora, compositora, atriz, empresária e filantropa, tornou-se uma dessas raras figuras que já não pertencem apenas à profissão que escolheram. Dolly era um ícone cultural americano. E sabia perfeitamente o que estava fazendo.

Os cabelos enormes, as unhas intermináveis, os cristais, saltos, decotes e a maquiagem deliberadamente excessiva construíram uma personagem que ela jamais tentou negar. Ao contrário: fazia a piada antes que qualquer outra pessoa pudesse fazê-la. Sua célebre observação de que custava muito dinheiro parecer tão barata era engraçada justamente porque revelava o segredo. Tudo era exagerado. Nada era acidental. Enquanto o mundo olhava para a embalagem, ela escrevia Jolene, Coat of Many Colors, I Will Always Love You e um repertório que acabaria ultrapassando completamente as fronteiras do country. Essa mesma inteligência chegou ao cinema em 1980.
Quando Jane Fonda convidou Dolly para estrear como atriz em 9 to 5, ao lado dela e de Lily Tomlin, Dolly também escreveu a música-tema. Nos intervalos das filmagens, começou a bater as unhas de acrílico umas contra as outras, imitando o som de uma máquina de escrever. Dali nasceu o ritmo de uma das canções definitivas de sua carreira. É uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas depois para tornar uma lenda ainda melhor. No caso de Dolly, aconteceu.
9 to 5 é divertida, leve e irresistivelmente pegajosa, mas fala de salários ruins, exploração, falta de reconhecimento e homens que se apropriam do trabalho das mulheres. O filme tratava exatamente das mesmas coisas. E sua grande sacada foi colocar Dolly no centro daquela história como Doralee Rhodes, uma secretária sexualizada pelo chefe, julgada pelas colegas e confundida com a imagem que projetava. Doralee era mais inteligente do que todos imaginavam. Dolly conhecia bem esse mecanismo.

Sem abrir mão do humor nem assumir a solenidade tantas vezes exigida de mulheres que querem ser levadas a sério, ela transformou a feminilidade exagerada em poder. Não havia contradição entre parecer uma fantasia de cristais e ser uma compositora meticulosa, uma empresária formidável e uma mulher que compreendia muito bem como funcionava uma indústria dominada por homens.
O sucesso de 9 to 5 abriu outra frente importante de sua carreira. Vieram The Best Little Whorehouse in Texas, Rhinestone e, principalmente, Steel Magnolias. Como Truvy, a cabeleireira que observa a vida de uma pequena comunidade sulista passar por seu salão, Dolly mostrou na tela algo que suas músicas já revelavam havia anos: um ouvido extraordinário para a gente.
Cercada por Sally Field, Shirley MacLaine, Olympia Dukakis, Julia Roberts e Daryl Hannah, não precisava disputar atenção. Tinha timing, calor e uma compreensão instintiva de como tornar uma personagem imediatamente familiar. O cinema não foi uma tentativa de escapar da música. Foi apenas outra forma de contar histórias. Por isso, chamá-la simplesmente de estrela country sempre foi insuficiente.

Dollywood tornou-se ao mesmo tempo um grande negócio e uma declaração permanente de lealdade à região do Tennessee de onde ela veio. A Imagination Library, criada em homenagem ao pai, que não sabia ler nem escrever, cresceu até se transformar em um enorme programa de incentivo à leitura, distribuindo livros a crianças. Sua filantropia alcançou educação, comunidades atingidas por desastres e pesquisa médica. E nada disso exigiu uma reinvenção pública.
Talvez esse tenha sido um dos feitos mais interessantes de Dolly Parton: ela nunca precisou desmontar Dolly Parton para que entendêssemos a mulher por trás da personagem.
Agora virão as retrospectivas. Vamos ouvir aquela abertura hipnótica de Jolene. Vamos rever Whitney Houston transformando I Will Always Love You em algo quase sobre-humano. As duas canções merecem estar no centro da despedida. Mas eu ainda fico com o som daquelas unhas batendo como uma máquina de escrever. Há algo especialmente perfeito em lembrar Dolly por uma música que transformou um dos elementos mais exagerados de sua aparência — aquelas enormes unhas postiças — no som de mulheres trabalhando.
Dolly era 9 to 5: engraçada, popular, afiada, musicalmente brilhante e muito mais complexa do que parecia à primeira vista. E é justamente por isso que nunca haverá outra.
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