Atenção: o texto contém spoilers da terceira temporada de Silo e dos livros de Hugh Howey.
Já escrevi algumas vezes sobre autores que entendem que adaptar não significa ilustrar um livro, quase página por página. Stephen King talvez seja o exemplo mais divertido porque pode amar ou detestar o resultado; outros preferem aceitar que, vendido o direito, nasce uma obra diferente. Hugh Howey pertence definitivamente ao segundo grupo. Mas, chegando aos dois últimos episódios da terceira temporada de Silo, sua posição ficou ainda mais interessante: ele não apenas aceita algumas das mudanças feitas por Graham Yost como acha que a série está corrigindo coisas que poderiam ter sido melhores nos livros.
E não estamos falando de detalhes.
As duas primeiras temporadas ainda percorriam, com muitos desvios, essencialmente o território de Wool. A terceira resolveu um problema muito maior. Shift, segundo volume da trilogia, abandona durante boa parte da narrativa Juliette Nichols para voltar às origens do projeto dos silos. Para um livro, funciona. Para uma série cuja protagonista é Rebecca Ferguson — e cujo rosto está no cartaz — seria quase impossível.
Por isso, Silo passou a fazer algo que os livros não fazem da mesma maneira: contar Shift e já avançar sobre partes de Dust simultaneamente, alternando a história de Juliette no presente com Daniel Keene e Helen Drew nos chamados “Before Times”. O próprio Yost já explicou que simplesmente não poderia passar uma temporada praticamente sem Ferguson.
É daí que nasce uma das maiores invenções da temporada: a amnésia de Juliette. Ela não existe assim nos livros. A literatura de Howey trabalha, sim, com drogas, controle da memória e apagamento como instrumentos daquele sistema, mas não transforma Juliette numa vítima direta desse mecanismo após sua volta. Na série, a ideia permite manter a heroína no centro e, ao mesmo tempo, fazer com que ela descubra novamente verdades que o espectador também está começando a compreender.
Outra diferença radical está justamente no passado.
Donald Keene virou Daniel Keene, vivido por Ashley Zukerman. A alteração do nome é a menor das mudanças. No livro, Donald é arquiteto e congressista e participa diretamente do projeto dos silos, ainda que desconheça boa parte de suas verdadeiras intenções. Na série, Daniel chega muito mais tarde à conspiração: ele não projetou os silos e está sendo conduzido gradualmente para dentro dela.
Isso muda uma coisa essencial: sua culpa.
E foi justamente essa alteração que Howey decidiu defender agora, depois das críticas de leitores. Para ele, “é uma melhora em relação aos livros”. A equipe não queria que Daniel fosse um participante voluntário de parte tão importante do projeto — e Howey prometeu que entenderemos por quê nos dois episódios finais. Segundo o autor, a mudança é fundamental para o arco do personagem.
Também Helen deixou de ser apenas uma peça da vida pessoal de Donald para virar Helen Drew, jornalista e protagonista ativa da investigação. Yost transformou os dois quase num casal de thriller político, fazendo com que a descoberta da conspiração aconteça diante de nós, em vez de simplesmente reconstruir a complexa estrutura de Shift.
E há mais. Bernard deveria estar morto. Nos livros, sua trajetória termina muito antes do ponto em que estamos; na série, ele sobreviveu e continua sendo uma peça possível — talvez até decisiva — no confronto com o sistema. O Algoritmo ganhou uma presença e uma personalidade que não correspondem exatamente à estrutura de comando criada por Howey. Camille Sims, por sua vez, ocupa um espaço dramático muito maior, enquanto personagens, funções e acontecimentos de Shift foram fundidos, deslocados ou eliminados. Howey já havia avisado que adaptar integralmente o segundo livro exigiria temporadas inteiras e muito mais personagens e cenários.
Talvez seja por isso que esta terceira temporada possa irritar mais os leitores — mas também seja a mais interessante para discutir como adaptação.
Silo não está mudando o destino da história apenas para surpreender quem leu os livros. Está tentando chegar aos mesmos grandes pontos por caminhos diferentes, ajustando quem sabe o quê, quando descobre e, sobretudo, quem é moralmente responsável pelo que aconteceu.
Howey parece confortável com isso. Disse recentemente que gostaria que a série tivesse preservado a raridade quase sagrada do papel, por exemplo, mas considera que a maioria das mudanças realizadas para a televisão melhorou a história.
E aí está a diferença fundamental entre liberdade e traição numa adaptação: mudar não é necessariamente abandonar o original. Às vezes é perguntar se existe outra maneira de chegar ao mesmo lugar.
No caso de Daniel Keene, Hugh Howey garante que sim.
Faltam apenas dois episódios para descobrirmos se ele tem razão.
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