Ted Lasso reencontra sua essência em “Greyhounds’ Day Off”

Talvez tenha sido preciso tirar o futebol de campo para que a quarta temporada de Ted Lasso começasse finalmente a encontrar seu jogo. Em “Greyhounds’ Day Off”, quarto episódio da temporada, reaparece aquela estrutura aparentemente simples que a série fazia tão bem em seus melhores momentos: identifica-se um problema esportivo, Ted inventa uma solução que parece absurda e, quando percebemos, estamos falando menos sobre futebol do que sobre pertencimento.

Desta vez, o problema são as panelinhas. Depois de algumas partidas e resultados razoavelmente animadores, as Lady Greyhounds estão funcionando como jogadoras, mas ainda não como um time. Atacantes ficam com atacantes, defensoras com defensoras, meio-campistas com meio-campistas. Até os elogios de Ted são recebidos apenas pelo pequeno grupo ao qual pertence a jogadora mencionada. Alice percebe imediatamente o perigo, enquanto Ted e Beard, naturalmente, precisam traduzir a situação para o idioma no qual sempre pensaram melhor: cultura pop.

Quando cinema vira tática de futebol

Essa sempre foi uma das características mais divertidas de Ted Lasso. Ted e Beard usam cinema, televisão e música como vocabulário emocional. Quando não sabem exatamente como nomear uma situação, procuram uma metáfora em algum filme. Desta vez, passam por Harry Potter antes de chegarem a Ferris Bueller’s Day Off, o clássico de John Hughes que completou 40 anos em 2026. A homenagem já está no título, “Greyhounds’ Day Off”, e ganha outra piscadela musical quando o grupo termina atrás das grades. Não é exatamente uma referência escondida: Ted Lasso praticamente pisca para o cinéfilo.

Mas existe outro filme que o episódio não menciona e que imediatamente me veio à cabeça: The Replacements, lançado no Brasil como Virando o Jogo, de 2000, com Keanu Reeves e Gene Hackman. Ali também temos um grupo de jogadores que não consegue funcionar como equipe. Há rivalidade, desunião, uma briga de bar e, finalmente, prisão. É justamente atrás das grades que aqueles homens começam a descobrir que pertencem ao mesmo time, numa improvisada versão de “I Will Survive”, de Gloria Gaynor.

Ou seja, a solução de “Greyhounds’ Day Off” está longe de ser inédita. E talvez nem precise ser. Ted Lasso sempre encontrou boa parte de sua graça nessa capacidade de pegar fórmulas conhecidas, traduzi-las para seu próprio universo e fazê-las funcionar emocionalmente. Para quem gosta de cinema, é particularmente divertido perceber que, mesmo quando não cita diretamente suas fontes afetivas, a série continua procurando nelas um caminho para resolver seus problemas.

Uma briga como exercício de integração

Ted decide acabar com as panelinhas não com treino, mas com um pub quiz. Separa justamente as jogadoras que espontaneamente escolheram ficar juntas e cria novos grupos. A princípio, nada acontece. Elas continuam brigando, mexendo no celular e demonstrando pouquíssima disposição para cooperar, até surgir aquilo que talvez seja o ingrediente mais eficiente para unir qualquer grupo: um inimigo comum.

Um bando de homens ostensivamente machistas transforma a competição em algo pessoal. É uma solução muito Ted Lasso, embora seja também um dos pontos em que a temporada continua simplificando demais sua tese. O futebol feminino enfrenta preconceitos reais, estruturais e cotidianos, mas a série insiste tantas vezes em representá-los através de homens tão obviamente detestáveis que quase transforma o machismo em vilania de desenho animado. Não é que esses homens não existam. Claro que existem. O problema é dramático: Ted Lasso costuma ser melhor quando confia que entendemos uma situação sem precisar sublinhá-la três vezes.

Ainda assim, funciona. Quando as Lady Greyhounds param de competir entre si e passam a competir juntas, finalmente vemos nascer alguma coisa parecida com o velho Richmond. Elas ganham o quiz, a provocação vira briga, uma janela é quebrada e praticamente todo mundo termina na delegacia. Não é exatamente o exercício de integração recomendado por qualquer manual de gestão esportiva, mas Ted está radiante. As panelinhas desapareceram.

Há uma inteligência muito conhecida da série nessa conclusão: Ted não construiu diretamente o time. Apenas criou as circunstâncias para que as jogadoras descobrissem sozinhas que pertencem ao mesmo grupo. É a velha filosofia Lasso funcionando novamente — desta vez, com uma ajudinha involuntária de John Hughes e Virando o Jogo.

Trent e Sharon, que saudade

E então temos um dos maiores prazeres do episódio: reencontrar Trent Crimm e a Dra. Sharon Fieldstone. Amei. Trent continua elegante como sempre, agora com um podcast, mantendo aquela mistura deliciosa de inteligência, curiosidade e certa distância irônica que sempre fez dele um dos personagens mais interessantes da série. Sharon continua sendo Sharon: precisa, observadora, perfeitamente capaz de desmontar um problema emocional em poucas frases.

Enquanto os dois discutem confiança, comunicação e a necessidade de construir uma verdadeira cultura coletiva, a conversa comenta exatamente o desastre que Ted está administrando na prática. É quase como se Ted Lasso colocasse sua teoria numa sala e sua experiência no pub. Também existe uma leve sugestão de aproximação pessoal entre Trent e Sharon e, romance ou não, foi simplesmente muito bom reencontrá-los. Há personagens cuja presença imediatamente devolve ao universo da série uma textura que estava fazendo falta, e os dois estão nessa categoria.

Keeley continua sendo um problema para os roteiristas

Mas são as relações fora de campo que começam a ficar realmente complicadas. E aqui preciso falar de Keeley. Eu adoro a personagem e talvez exatamente por isso continue me incomodando a maneira como Ted Lasso vem tratando-a. Keeley sempre foi exuberante, livre, engraçada, sexual, feminina e muito mais inteligente do que as pessoas presumiam. Nada disso jamais significou falta de competência. Ao contrário, uma das graças da personagem era justamente desmontar essa associação.

Por isso é estranho vê-la agora quase como uma espécie de Elle Woods britânica — e não pelas roupas rosa, extravagantes ou deliberadamente infantis em si. O problema é que o figurino parece acompanhar uma infantilização que também está aparecendo no roteiro. Suas ideias são frequentemente apresentadas como “fofas”, seus desejos parecem desconectados do orçamento e sua criatividade continua livre e bem-intencionada desde que Rebecca esteja disponível para pagar a conta.

E Keeley sabe quanto as coisas custam. Ela dirigiu uma empresa, teve clientes, investidores, funcionários e problemas financeiros. Portanto, se acredita que as jogadoras precisam de suéteres, cabines de massagem ou qualquer outra coisa, poderia defender essas escolhas com muito mais firmeza profissional do que vemos. Em vez disso, frequentemente parece uma criança tentando convencer uma amiga rica a financiar sua próxima ideia. Isso não combina com a Keeley que conhecemos.

Zelda, Keeley e Rebecca

A chegada de Zelda Southport torna essa questão muito mais interessante. Zelda é extremamente segura, excêntrica e aparentemente domina exatamente o universo que Rebecca ainda está aprendendo a ocupar. Ela investe em esportes femininos, entende dinheiro, influência, publicidade e sabe transformar até uma prisão em oportunidade de imagem. Keeley fica imediatamente fascinada; Rebecca, imediatamente desconfiada.

E há algo familiar demais na reação de Keeley. Antes, ela se deslumbrou com Jack Danvers, a investidora que financiava a KJPR, e terminou misturando admiração, poder, dinheiro, trabalho e romance. Só falta agora Ted Lasso fazer Keeley se apaixonar também por Zelda. Espero sinceramente que não. O paralelo já é interessante sem romance. Keeley parece particularmente suscetível a mulheres que chegam exercendo autoridade com absoluta confiança, e isso pode ser um traço muito bom da personagem se a série souber explorá-lo. Repetir Jack apenas transformando Zelda em outra atração amorosa seria muito menos interessante.

Porque o verdadeiro triângulo já existe e não precisa ser sexual: Zelda, Keeley e Rebecca. Para quem passou temporadas torcendo por Ted e Rebecca, aliás, parece cada vez mais claro que Tedbecca está encerrado. A série retirou praticamente toda a interação que permitia imaginar um romance entre os dois. Curiosamente, ao mesmo tempo, a amizade entre Rebecca e Keeley ganhou tamanha intensidade que certamente já deve ter despertado sua própria torcida romântica. Mas espero que não seja esse o caminho. A amizade já é suficientemente complicada.

Rebecca simplesmente não consegue ser inteiramente profissional com Keeley. Não cobra como deveria, não estabelece limites claros, tenta protegê-la e assina cheques sem necessariamente discutir as consequências. Keeley confia nessa generosidade quase sem questioná-la. Quando Zelda aparece e imediatamente conquista a admiração da amiga, Rebecca reage com uma territorialidade que facilmente pode ser confundida com ciúme. Não precisa ser romântico para ser emocionalmente importante.

Talvez esteja aí o verdadeiro arco de Rebecca nesta temporada. Ela decidiu apostar no futebol feminino porque acredita nele, mas acreditar não significa necessariamente saber administrá-lo. Até agora, vemos Rebecca assinar cheques enquanto tenta compreender as limitações financeiras, esportivas e até emocionais do investimento que abraçou. Zelda ameaça exatamente essa insegurança porque parece saber jogar um jogo que Rebecca ainda está aprendendo. Esse triângulo tem potencial enorme, desde que Ted Lasso resista à tentação de transformá-lo em romance.

E afinal, Keeley ainda ama Roy?

A relação com Roy é outro exemplo de como está difícil compreender o que Keeley realmente deseja. Roy está convencido de que já passou tempo suficiente e finalmente pergunta se pode tentar novamente. Keeley responde propondo algo no mínimo tortuoso: ele deveria sair com outras mulheres para descobrir se realmente quer ficar com ela ou se simplesmente passou todo esse tempo idealizando a antiga namorada.

À primeira vista, a ideia pode soar madura. Quanto mais penso nela, menos funciona. Se Keeley ainda ama Roy e deseja voltar para ele, mandá-lo sair com dez outras mulheres para demonstrar que não a idealiza parece uma manipulação disfarçada de maturidade emocional. Se ela não quer voltar com ele, é uma maneira igualmente complicada de evitar simplesmente dizer não. Eu amo Keeley, mas aqui realmente não sei o que ela quer. E talvez esse seja exatamente o problema.

Roy, porque continua sendo Roy e porque continua apaixonado, transforma a sugestão numa missão administrativa. Sai em encontros sucessivos, tenta acelerar o processo e, naturalmente, tudo dá errado. Sua tentativa de ficar com a bartender termina quando o velho joelho de jogador resolve lembrá-lo de que Roy Kent já não tem 25 anos. No hospital, conhece a Dra. Erin Beaumont, bonita, direta e praticamente imune ao mau humor dele. Roy imediatamente se interessa. Parabéns, Keeley. Talvez o plano tenha funcionado melhor do que você esperava.

O passado continua existindo

Beard também é confrontado pelo passado. Até então praticamente invencível no pub quiz, ele desmonta ao descobrir que Jane está fazendo um espetáculo. A simples visão do cartaz é suficiente para desorganizá-lo. É engraçado, mas também ajuda a revelar alguma coisa que começa a unir vários personagens nesta temporada: o que fazemos quando aquilo que deixamos para trás continua existindo sem nós?

É uma pergunta para Beard, para Roy, para Keeley e, sobretudo, para Ted. Até agora, a quarta temporada ainda parecia procurar uma justificativa completamente convincente para nos fazer retornar a esse universo. “Greyhounds’ Day Off” talvez seja a primeira resposta realmente boa.

Não porque invente alguma coisa nova — Virando o Jogo deixa especialmente claro que não inventa —, mas porque recupera a linguagem que sempre tornou Ted Lasso especial. Cinema vira vocabulário, uma briga vira terapia de grupo, uma prisão vira exercício de integração e uma comédia esportiva volta a lembrar que seu verdadeiro esporte nunca foi futebol. Sempre foram as pessoas.

Agora as Lady Greyhounds finalmente parecem um time. Só existe um pequeno problema: o próximo adversário é o Chelsea. E união ajuda muito, mas não faz milagres.


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