Furious: Alice cruza a linha no melhor episódio da temporada

Atenção: este texto contém spoilers do sétimo episódio de Furious.

Furious não é exatamente uma série excepcional, mas está indo bem. Depois de distribuir pistas, traumas e suspeitas em diferentes direções, o penúltimo episódio, “Some Days It Don’t Come Easy”, finalmente reuniu quase tudo em uma mesma história. E fez isso apoiado em uma Emmy Rossum superintensa, por vezes até excessiva, mas perfeitamente alinhada ao desmoronamento emocional de Alice Black.

Marshall sobreviveu ao tiro disparado por Catherine, enquanto Alice se recupera de ter sido drogada com fentanil. Nora, afastada do caso por Ed, está convencida de que Alice errou ao impedir que Catherine matasse Marshall. É ela quem resume a lógica brutal de quem passou a vida investigando violência contra mulheres e crianças: para enfrentar monstros, também é preciso perder alguma coisa da própria humanidade.

Alice ainda resiste à ideia. Mas não por muito tempo.

A verdade sobre o passado de Alice

Danny descobre que o material mantido por Jay Easton inclui centenas — talvez milhares — de registros de jovens exploradas. Entre eles está um vídeo de Alice adolescente. Jay não é o homem que aparece com ela, mas isso não diminui a violência da revelação: Alice também esteve presa ao mesmo universo de abuso e exploração que agora tenta destruir.

É quando a série explica o que ela passou tantos anos tentando esconder. Alice engravidou aos 14 anos, foi expulsa de casa pelos pais, viveu nas ruas, passou por um abrigo e perdeu o bebê. A visita da irmã Amy, que conserva lembranças afetuosas de uma família que Alice não reconhece como sua, só evidencia a dimensão do abandono.

Emmy Rossum constrói a dor de Alice como uma sucessão de rachaduras. Ela declara seu amor por Danny e pede que ele fique, mas ele, igualmente abalado pelo que viu, admite que não consegue se aproximar fisicamente dela. Danny também a ama e se recusa a entregar o vídeo, mesmo sabendo que está ocultando uma prova importante. É uma decisão discutível do ponto de vista profissional, mas profundamente humana.

Emma nunca foi apenas uma filha acuada

A revelação mais perturbadora, porém, envolve Emma Easton. Até aqui, ainda era possível enxergá-la como uma filha subjugada por um pai poderoso e cruel. O episódio elimina essa leitura mais confortável.

Mesmo doente, dependente de oxigênio e aparentemente frágil, Jay continua recebendo meninas em um cômodo escondido de sua casa. E é Emma quem as leva até ele. Em uma das cenas mais desconfortáveis do episódio, ela agradece a uma jovem por ter deixado seu pai “tão feliz”, ignorando deliberadamente os sinais de violência em seu corpo.

Emma pode temer Jay e também ter sido vítima dele, mas se tornou parte ativa da estrutura que o protege. A pergunta já não é apenas o quanto ela sabia, mas o que fez para manter tudo funcionando.

Também descobrimos que Ed construiu a carreira com a ajuda de Easton e se transformou em seu “cleaner”, o homem encarregado de apagar pistas, comprometer investigações e garantir que a família continuasse intocável. Quando percebe que Danny recebeu uma cópia das provas, ameaça até o filho dele. Danny responde da forma menos regulamentar possível: parte para cima de Ed.

Alice deixa de caçar Catherine

Alice e Nora conseguem localizar Catherine depois de seguirem Elena, filha de Isabel. Quando finalmente a encontram escondida no banheiro de um hotel, a série prepara o confronto esperado. Mas Alice já não é a mesma agente que passou a temporada defendendo a justiça institucional.

Ela entrega a Catherine o caminho para chegar até Jay Easton — e a deixa partir.

É a grande virada do episódio. Alice não mata Easton, mas sabe perfeitamente o que Catherine fará. Ao colocá-la nessa direção, transforma a assassina que perseguia em instrumento de uma vingança que também é, indiretamente, sua. Depois de descobrir que Ed protege Easton, que Emma facilita seus crimes e que até as provas podem desaparecer, Alice deixa de acreditar que o sistema produzirá qualquer justiça.

A última revelação torna o cenário ainda mais complexo: o DNA encontrado sob as unhas de Isabel pertence a uma irmã de Caleb Easton. Ou seja, pertence a Emma. Ainda não sabemos se ela matou Isabel, tentou ajudá-la ou participou de algo que deu errado, mas sua ligação com o crime é muito mais direta do que parecia.

O episódio termina com Catherine dentro de um carro roubado, diante da mansão dos Easton, reunindo coragem para entrar. Furious chega à final com suas duas protagonistas finalmente do mesmo lado — ainda que Alice tenha precisado cruzar a linha que passou toda a temporada tentando preservar. E é justamente essa contradição que deixa a série mais interessante quando está prestes a terminar.


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