Silo chega ao fim de sua melhor temporada no Apple TV

Como publicado no Caderno B+

Há séries que vivem de uma estreia barulhenta e depois passam temporadas tentando reproduzir o impacto inicial. Silo fez quase o caminho inverso. Sem jamais ser pequena — desde 2023 é uma das produções mais importantes do Apple TV —, foi crescendo silenciosamente em ambição, público e complexidade até chegar a uma excelente terceira temporada que, a uma semana do fim, conseguiu transformar completamente a pergunta que movia a história.

No começo queríamos saber apenas uma coisa: o que existe lá fora? Agora sabemos que essa era praticamente a pergunta menos importante. E, aviso obrigatório, há spoilers de todas as temporadas daqui em diante.

Quando conhecemos Juliette Nichols, interpretada por uma excepcional Rebecca Ferguson, cerca de dez mil pessoas viviam há gerações no Silo 18 acreditando que o mundo exterior era mortal e que questionar demais aquela realidade podia ser ainda mais perigoso. Allison e o xerife Holston pediram para sair, limparam a lente diante de todos e morreram. George, grande amor de Juliette, deixou pistas sobre artefatos proibidos e sobre um passado que alguém fazia enorme esforço para apagar.

Juliette, uma engenheira da Mecânica que nunca teve talento especial para obedecer, foi subindo literalmente os níveis do silo até descobrir que Bernard, a TI, a Judicial, as câmeras escondidas e o próprio Pacto eram peças de uma gigantesca máquina de vigilância. Quando finalmente foi condenada a sair, sobreviveu graças à troca da fita de vedação feita por Walker e alcançou o topo da colina. Foi quando Silo deu sua primeira grande virada: havia outros silos. Muitos.

A segunda temporada expandiu esse universo sem apressar as respostas. Juliette chegou ao Silo 17, destruído depois de uma rebelião, conheceu Solo — na verdade, Jimmy — e descobriu que nem todos haviam morrido. Enquanto isso, o Silo 18 caminhava para repetir exatamente a tragédia do vizinho, com Knox, Shirley e a Mecânica se rebelando contra Bernard e o sistema.

No final, Juliette compreendeu o tamanho do perigo: se seus antigos vizinhos acreditassem que podiam simplesmente abrir a porta e sair, morreriam como os habitantes do 17. Sua volta ao 18 terminou naquela extraordinária sequência da câmara de fogo, com Bernard entrando atrás dela.

Mas Silo guardou para os minutos finais a revelação que mudaria a série: um homem chamado Daniel e uma jornalista chamada Helen, vivendo em um mundo reconhecivelmente parecido com o nosso, muito antes dos silos.

Era o começo da terceira temporada e de uma mudança arriscadíssima. Graham Yost, responsável pela adaptação dos livros de Hugh Howey, já explicou por que não poderia simplesmente filmar Shift, segundo livro da trilogia. Juliette praticamente desaparece durante boa parte dele. Para manter Rebecca Ferguson no centro da série, a adaptação transformou o passado em uma narrativa paralela e fez de Daniel e Helen não apenas peças da explicação, mas protagonistas de um thriller político, tecnológico e romântico. Daniel corresponde ao Donald Keene dos livros, mas sua trajetória foi substancialmente alterada. Foi uma escolha inteligente porque, durante boa parte desta temporada, o passado deu um banho no presente.

No Silo 18, encontramos Juliette como prefeita, mas sem memória de parte do que havia acontecido. O recurso irritou leitores e parte do público — Rebecca Ferguson chegou a comentar a reação dos fãs — até ficar claro que a amnésia não era uma manobra barata de roteiro. Era a própria história. Hugh Howey sempre colocou memória, esquecimento e repetição histórica no coração de Silo, e a série transformou isso literalmente em instrumento de Estado.

O tal Vitamin D+, colocado na água, deixou de parecer um detalhe. Memórias podem ser manipuladas. Rebeliões podem ser apagadas. Uma população que não lembra de sua própria História pode ser conduzida novamente para os mesmos erros. E, quando Juliette começa a recuperar George, seu passado e sua identidade — até um pequeno dispensador de PEZ vira uma âncora afetiva —, percebemos que a batalha da temporada não é apenas pela sobrevivência física.

É pelo direito de lembrar. Ao mesmo tempo, Daniel e Helen nos mostraram como aquela monstruosidade começou. Ele, engenheiro e congressista. Ela, jornalista. Os dois seguem pistas de uma ameaça tecnológica capaz de destruir a civilização e acabam chegando a um projeto comandado por homens poderosos, entre eles o senador Thurman, o bilionário Per Stensen e o Dr. Victor Crnkovich. O que começa como uma promessa de salvar a humanidade vai revelando o projeto dos silos, o Pacto e a filosofia assustadora por trás de tudo. A questão deixa de ser simplesmente quem construiu os silos. Passa a ser: quem ganhou o direito de decidir como a humanidade deveria sobreviver?

Esse passado também explica por que o presente é tão perverso. O chamado Safeguard, capaz de condenar um silo inteiro, o controle da memória, as regras, a vigilância e até a possibilidade de alguém — humano, inteligência artificial ou algo entre os dois — continuar coordenando aquele sistema séculos depois fazem parte do mesmo projeto.

Enquanto Juliette tenta impedir que o Silo 18 seja eliminado e também salvar os sobreviventes do 17, Robert Sims começa a perceber que sua mulher, Camille, escolheu definitivamente o sistema. Bernard, por sua vez, ganhou uma das alterações mais interessantes em relação aos livros. Em vez de terminar simplesmente como vilão, a série o transformou em alguém que percebe tarde demais que também passou a vida sendo manipulado.

Sua despedida no penúltimo episódio é belíssima. Condenado a sair sem a proteção que salvaria Juliette, Bernard caminha até a árvore que observou durante toda a vida pelas telas do silo. Por alguns instantes, vê aquilo que sempre desejou ver: folhas verdes, luz, vida. É sua redenção e sua punição ao mesmo tempo. Tim Robbins se despede de um personagem muito mais trágico e interessante do que parecia na primeira temporada.

E é justamente nesse episódio, “Farewell”, que as duas linhas temporais finalmente parecem caminhar para o mesmo ponto. Helen está grávida. Daniel e ela já sabem demais. Pessoas visitam os silos ainda como parte de um extraordinário projeto de preservação da humanidade. Há cerimônia, curiosidade, convidados e entre eles está Peter Gabriel, interpretando Peter Gabriel.

Ele aparece ensaiando Here Comes the Flood. É impossível acreditar que seja coincidência. Peter Gabriel está espalhado pela história de Silo. Na segunda temporada, Red Rain toca no Silo 17. A terceira começou com Come Talk to Me. Agora, quando finalmente vemos o momento em que o velho mundo está prestes a desaparecer, ele canta Here Comes the Flood, de 1977. Chuva. Um pedido de contato. O dilúvio.

E há uma deliciosa camada adicional: Victor comenta que Gabriel e sua família serão encaminhados justamente ao Silo 17. A série não precisa afirmar que Jimmy ou qualquer outro personagem descende dele para que Red Rain, ouvida tantos anos depois naquele mesmo lugar, ganhe retroativamente outra dimensão. A música virou memória sobrevivente.

Daniel é levado para o Silo 1. Helen segue em direção ao 18. Eles ainda conseguem se falar quando a catástrofe acontece. Então vem a explosão. O mundo que acompanhávamos como passado se transforma no mundo que conhecemos como Silo.

Talvez seja esse equilíbrio entre respostas e novas perguntas que explique a consistência da série. Os números públicos disponíveis — a Apple não divulga regularmente audiência global completa — mostram uma produção que não perdeu força com o tempo. A primeira temporada tem 88% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes; a segunda, 92%; a terceira chegou a 96%. Dados da Luminate já mostravam que os primeiros episódios da segunda temporada superaram a primeira em visualizações, e a terceira permaneceu semanas entre os originais mais vistos medidos pela Nielsen nos Estados Unidos. Silo também alcançou a impressionante marca de 500 dias no Top 10 americano do Apple TV e continuou disputando o primeiro lugar mundial da plataforma em agosto.

Curiosamente, quanto mais a crítica gosta, mais a série provoca seus fãs. A aprovação do público no Rotten Tomatoes caiu nesta temporada, especialmente com as mudanças em relação aos livros e o arco inicial da perda de memória de Juliette. É um contraste interessante: a temporada mais ousada também é a mais divisiva. Mas talvez seja justamente isso que uma boa ficção científica deva fazer.

Silo já não é apenas aquela série claustrofóbica sobre milhares de pessoas vivendo debaixo da terra. É uma história sobre poder, memória, inteligência artificial, manipulação política, medo, História e a arrogância daqueles que acreditam ser capazes de decidir qual versão da humanidade merece sobreviver.

E ainda há Juliette Nichols. Em meio a conspirações, nanotecnologia, computadores, silos, algoritmos e planos concebidos séculos antes de seu nascimento, a personagem continua sendo a variável que ninguém consegue controlar. Não porque seja uma escolhida ou uma heroína messiânica, mas porque insiste em perguntar, lembrar e agir.

Para quem ama ficção científica, é difícil pedir muito mais. A terceira temporada termina em 4 de setembro, e Silo já tem uma quarta e última temporada garantida. Portanto, ainda existe tempo para responder à pergunta que agora interessa de verdade.

A série começou querendo saber o que havia do lado de fora. Está chegando ao fim querendo saber algo muito mais perturbador: quem decidiu que, para a humanidade sobreviver, ela teria primeiro que esquecer quem era?


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário