The Whisper Man: grande elenco não salva thriller de uma trama confusa

Atenção para os spoilers do livro e do filme

Há filmes que parecem muito mais complicados do que realmente são. The Whisper Man, novo thriller da Netflix baseado no bestseller de Alex North, é exatamente um deles. E talvez essa seja sua maior frustração: por trás de Robert De Niro, Michael Keaton, Adam Scott, Michelle Monaghan e de uma atmosfera sombria bastante eficiente existe uma história relativamente simples — e boa — sobre pais, filhos, traumas e a maneira como cada geração escolhe repetir ou interromper os erros da anterior. Mas o filme faz questão de embaralhá-la.

Publicado em 2019, The Whisper Man foi o primeiro romance de Alex North a chegar às telas e nasceu de uma questão muito mais íntima do que a premissa de serial killer sugere. North já contou que escrevia o livro quando seu próprio filho tinha idade próxima à do pequeno Jake e que, apesar da embalagem de suspense e horror, o centro da história sempre foi a paternidade.

É exatamente aí que o filme dirigido por James Ashcroft é mais interessante. Tom Kennedy (Adam Scott) perdeu a mulher e tenta reconstruir a vida ao lado do filho Jake (Acston Luca Porto). A relação entre os dois é difícil, marcada pelo luto, pela culpa e pelo medo constante de Tom de ser um pai ruim. Medo compreensível: ele praticamente não tem contato há 25 anos com o próprio pai, Pete Willis (Robert De Niro), um ex-policial cuja obsessão por um antigo caso e o alcoolismo destruíram sua família.

Esse caso era o de Frank Carter (Michael Keaton), o serial killer conhecido como Whisper Man, que sequestrava crianças depois de atraí-las com sussurros do lado de fora de suas casas. Pete conseguiu prendê-lo, mas nunca encontrou o corpo de uma das vítimas. Décadas depois, Jake desaparece. Só que Frank continua preso. Portanto, há um novo Whisper Man.

Até aqui, perfeito. O problema começa quando o filme precisa explicar praticamente todo o resto depois que Jake já foi sequestrado. Entram Norman Collins (Hamish Linklater), um fanático por true crime com uma relação macabra com os assassinatos; dois cadáveres escondidos na casa de Tom; a vítima que Pete nunca conseguiu encontrar; um antigo morador assassinado; as cartas enviadas por Frank da prisão; a investigação de Amanda Beck (Michelle Monaghan); o misterioso filho de Frank; um psiquiatra ligado ao caso original; a amiga imaginária de Jake; o passado de Pete; o passado de Tom e ainda uma série de fitas enviadas pelo sequestrador.

Não chega a ser impossível acompanhar. Mas exige uma atenção que o próprio filme parece determinado a sabotar. E o curioso é que sabemos exatamente por quê. No livro, Jake é sequestrado apenas muito mais tarde. Para a adaptação, os roteiristas Ben Jacoby e Chase Palmer decidiram antecipar esse momento. Alex North concordou com a escolha: ela permitia que Pete e Tom passassem mais tempo juntos procurando Jake.

Dramaticamente, faz sentido. É também uma excelente justificativa para aproveitar Robert De Niro. Só que a mudança produz um efeito colateral enorme: aquilo que no livro podia ser revelado progressivamente agora precisa ser explicado durante uma corrida contra o relógio. Em vez de primeiro conhecermos o tabuleiro para depois acompanharmos o sequestro, começamos o sequestro enquanto ainda estamos tentando descobrir quem está jogando. Talvez por isso Norman Collins ocupe tanto espaço e pareça tão importante. Ele invade a casa de Tom, coleciona memorabilia de crimes e visita um homem ligado a Frank Carter. Tudo aponta para ele. Até descobrirmos que não.

Norman apenas havia negociado acesso ao cadáver desaparecido de Tony Smith, enterrado no porão da casa. Também matou Dominic Barnett, outro homem encontrado morto ali, mas não sequestrou Jake. É uma falsa pista legítima de thriller, só que ocupa tanto espaço dentro de uma narrativa já congestionada que, quando finalmente desaparece da história, parece que começamos outro filme.

E então chegamos ao verdadeiro segredo. O novo Whisper Man é Frank Carter Jr. (Owen Teague), filho do assassino original. É aí que The Whisper Man finalmente revela a história que realmente queria contar. Frank Jr. cresceu tentando conquistar o amor e a aprovação de um pai incapaz de lhe oferecer qualquer um dos dois. Em vez de fugir do legado do pai, passou a mitificá-lo. Repete seus crimes como uma espécie de homenagem desesperada, tentando transformar-se naquilo que imagina que Frank gostaria que ele fosse. O próprio North define essa parte da trama como uma reflexão sobre o que fazemos com aquilo que recebemos na infância: se corremos em direção a isso, fugimos ou fazemos um pouco das duas coisas.

Tom enfrenta exatamente o dilema oposto. Também cresceu ferido pelo pai. Também carrega ressentimento, abandono e medo. Mas tenta desesperadamente não reproduzir Pete em sua relação com Jake. De um lado, portanto, Frank e o filho. Do outro, Pete, Tom e Jake. Um filho perpetua o trauma. Outro tenta interrompê-lo. É uma ótima ideia, provavelmente melhor do que o thriller que a envolve.

As cenas entre De Niro e Keaton ajudam muito. Os dois atores já tinham participado de Jackie Brown, mas nunca haviam dividido uma cena. Aqui finalmente estão frente a frente, e o filme sabe explorar o peso desse encontro. Keaton faz de Frank Carter um homem assustador justamente porque não precisa de grandes gestos; De Niro transforma Pete em alguém que parece carregar décadas de culpa nos ombros.

Adam Scott também funciona bem porque Tom não é exatamente um herói tradicional. Está furioso, assustado, frequentemente perdido e longe de ser particularmente simpático. Michelle Monaghan, por sua vez, precisa sustentar boa parte do lado policial da trama enquanto o filme corre para reunir todas as peças.

Existe ainda a amiga imaginária de Jake, uma menina que surge desde o início e parece conduzi-lo em determinados momentos. No final descobrimos que ela corresponde exatamente à aparência de sua mãe morta quando criança.

Não é uma invenção da adaptação. Pelo contrário: Alex North considera esse elemento essencial ao coração do livro, e Ashcroft mantém propositalmente a dúvida. Jake pode estar criando psicologicamente uma versão da mãe que perdeu ou pode realmente existir alguma intervenção sobrenatural protegendo o menino.

A ideia é bonita. Depois de quase duas horas falando de pais e filhos, The Whisper Man termina devolvendo a mãe à família. Mas novamente é uma revelação delicada colocada em uma história que já nos pediu para processar muita coisa. Talvez por isso The Whisper Man seja mais frustrante do que propriamente ruim. Tem atmosfera. Tem excelentes atores. Tem algumas cenas genuinamente tensas. E principalmente tem uma ideia muito boa sobre herança emocional: aquilo que recebemos de nossos pais não determina necessariamente aquilo que entregaremos aos nossos filhos.

Pete destruiu sua relação com Tom, mas ainda consegue um último gesto de redenção ao salvar Jake. Tom pode finalmente compreender o pai sem precisar repetir seus erros. Frank Jr., ao contrário, passa a vida tentando ser amado por Frank e termina literalmente destruído pelo homem cuja aprovação perseguia.

O paralelo é poderoso. Só demoramos muito mais do que deveríamos para enxergá-lo. No fundo, The Whisper Man não precisava ser tão complicado. O melhor mistério do filme nunca foi descobrir quem estava sussurrando para as crianças. Era entender o que um filho faz com a voz do pai que continua sussurrando dentro dele muito depois de crescer.


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