ALERTA DE SPOILERS
Durante praticamente toda a primeira temporada de Fúria, a pergunta parecia relativamente simples: até onde Catherine Grace iria em sua vingança e até onde Alice Black conseguiria compreendê-la sem cruzar a mesma linha? No episódio final, Hart Island, a série responde às duas questões de uma maneira particularmente cruel. Catherine finalmente descobre a verdade que procurou durante anos. Alice, por outro lado, descobre algo muito mais perigoso: talvez entenda Catherine melhor do que gostaria de admitir. E é exatamente aí que está a segunda temporada, já confirmada.

A busca de Catherine sempre esteve ligada a Isabel. Foi pela amiga, pelo que aconteceu com ela e pelo silêncio em torno de sua morte que Catherine construiu sua lista de homens a punir. Só que a memória que faltava era justamente a mais dolorosa. Isabel havia acabado de dar à luz quando foi violentamente agredida por Jay Easton. Em vez de receber atendimento médico, foi deixada sangrando e morrendo. Catherine chegou até ela, mas já não havia como salvá-la.
É então que surge a revelação mais devastadora do finale: foi Catherine quem deu a Isabel a dose fatal de heroína. Não como assassinato ou vingança, mas porque Isabel, consciente de que estava morrendo, pediu que a amiga acabasse com seu sofrimento. Catherine não passou anos procurando a pessoa que matou Isabel. Passou anos tentando recuperar uma memória que sua própria mente havia apagado porque ela não conseguia suportá-la.
A dissociação que acompanhamos durante a temporada deixa, portanto, de ser apenas uma consequência abstrata do trauma. Ela escondia o momento em que Catherine precisou fazer por Isabel aquilo que ninguém mais fez: estar ao lado dela quando todos os homens que tinham poder para ajudá-la escolheram abandoná-la.
Quando o FBI chega à mansão dos Easton, Alice permanece ao lado de Catherine e chega a protegê-la na entrada dos policiais. É um pequeno gesto, mas enorme para entender o que aconteceu entre as duas. Alice começou Fúria tentando encontrar uma assassina em série. Aos poucos, passou a enxergar uma sobrevivente. Depois, alguém que havia encontrado sua própria maneira — obviamente criminosa — de punir homens protegidos por dinheiro, influência e instituições que repetidamente haviam falhado.
Isso não inocenta Catherine. Mas a série nunca esteve particularmente interessada em inocência. Catherine vai para a prisão. Sua busca por Isabel termina, inclusive com a possibilidade de finalmente retirar o corpo da amiga de Hart Island e enterrá-la com seu próprio nome. O arco que justificava sua caçada, portanto, está encerrado. O de Alice acaba de começar.

Jay Easton ainda está vivo quando Alice o encontra. E consegue fazer algo talvez ainda pior do que negar seus crimes: ele reconhece Alice. O vídeo do abuso que ela sofreu aos 14 anos fazia parte do material que circulava entre os homens ligados àquela rede. Jay diz lembrar dela. Pouco depois, começa a sofrer uma crise respiratória. Alice pede ajuda. À primeira vista, parece que apenas testemunhamos a morte de um homem velho e doente. Até que a série volta à cena.
Alice pisou sobre seu tubo de oxigênio e impediu que Jay respirasse. Ela o matou. Não foi uma falha profissional, nem um segundo de hesitação. Alice tomou uma decisão e, depois, construiu uma versão perfeitamente plausível da morte diante dos outros agentes. De repente, a diferença entre a agente do FBI e a mulher que ela perseguiu durante oito episódios se torna muito mais difícil de encontrar.
É justamente aí que Fúria encontra sua questão mais interessante. Alice tentou fazer tudo certo. Quando denunciou Marshall, viu seus colegas protegê-lo. Perdeu espaço na polícia e precisou reconstruir a carreira no FBI. Agora, enquanto investiga Catherine, observa novamente homens poderosos escaparem das consequências de seus atos.
Emma destrói provas. Jay possui proteção. Ed George trata Isabel como apenas mais uma garota morta. Marshall, enquanto isso, recebe reconhecimento da mesma instituição que ignorou Alice. Catherine escolheu a vingança. Até aquele momento, Alice ainda acreditava que poderia escolher a lei. O assassinato de Jay mostra que essa convicção acabou.


Danny consegue salvar uma cópia dos arquivos de Jay, e é aí que Fúria deixa de preparar apenas o encerramento da temporada para construir claramente a próxima. Alice entrega o material a Nora e finalmente entra na sala segura onde pode assistir ao vídeo que evitou durante tantos anos. Ela encontra seu próprio nome. E descobre que a gravação de seu abuso foi baixada mais de 50 mil vezes.
A informação muda tudo. Alice já matou o homem que estava diante dela. Agora existe potencialmente uma lista inteira de pessoas que participaram da circulação daquele vídeo. Não sabemos quem são. Não sabemos se podem ser identificadas. E, principalmente, não sabemos o que Alice pretende fazer quando descobrir. Mas sabemos como Catherine começou.
Na prisão, Catherine percebe rapidamente que a versão oficial sobre a morte de Jay não faz sentido. Então pergunta a Alice se ela gostou de matá-lo. Alice sorri. É talvez o momento mais importante de todo o episódio, porque Catherine reconhece alguma coisa nela.
Durante a temporada, Alice acreditava estar olhando para Catherine, tentando entender como uma pessoa chega ao ponto de matar em nome de algo que considera justiça. No fim, percebemos que Catherine também estava olhando para Alice. E talvez tenha identificado a sucessora antes dela própria.

A segunda temporada já foi confirmada e deve colocar Alice diante de um novo caso do FBI, em vez de simplesmente repetir a investigação de Catherine. Essa é provavelmente a escolha mais interessante. Fúria pode funcionar com um novo crime a cada temporada enquanto mantém Alice como personagem contínua. O caso muda, mas a pergunta permanece: o que acontece quando uma agente responsável por encontrar assassinos começa secretamente a concordar com eles?
Nora também merece atenção. Ela continua representando, pelo menos por enquanto, a tentativa de trabalhar dentro das instituições, mas sabe cada vez mais sobre Alice e sobre os mecanismos que protegem homens como Jay. Danny ocupa outra posição delicada. A aproximação entre ele e Alice finalmente avança, mas ele também é alguém capaz de perceber mudanças nela. Quanto mais Alice entrar nesse terreno, mais difícil será manter separadas sua vida pessoal, sua função no FBI e aquilo que faz quando acredita que ninguém está olhando.
E existe Marshall. Ele sobreviveu e representa precisamente o crime pelo qual Alice nunca conseguiu justiça. Jay era parte de seu passado. Marshall está muito mais perto. Catherine, por sua vez, não precisa necessariamente continuar como coprotagonista da mesma maneira. A história que a transformou em assassina encontrou uma conclusão: Isabel foi encontrada, sua morte foi esclarecida e Catherine foi presa. Mas seria quase um desperdício tirá-la completamente da série.
Porque Catherine agora possui uma função ainda mais interessante: ela conhece Alice. Se voltar, pode deixar de ser a mulher caçada pelo FBI para se tornar uma espécie de espelho moral da agente, justamente a pessoa capaz de perceber quando Alice começa a ultrapassar limites que ninguém ao seu redor consegue enxergar. O encontro na prisão deixa essa porta aberta.
Alice também não precisa simplesmente se transformar na “nova Catherine”. A diferença entre elas pode ser justamente o coração da segunda temporada. Catherine estava fora do sistema. Alice está dentro. Ela possui distintivo, acesso a informações, bancos de dados, investigações e pessoas que confiam nela. E agora sabemos que também é capaz de matar e esconder o que fez. Isso torna Alice potencialmente mais perigosa do que Catherine jamais foi.
A primeira temporada começou com uma agente do FBI tentando entrar na cabeça de uma assassina. Terminou sugerindo algo muito melhor para a continuidade da série: talvez tenha sido a assassina quem entrou na cabeça da agente.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
