Meus 70 filmes favoritos e por que ainda penso neles

Tudo começou com a tentativa aparentemente simples de listar meus filmes favoritos de todos os tempos. Primeiro eram 42. Depois percebi que 45 seria um número mais simpático. Logo estávamos em 55. Quando outros quase ficaram de fora, aceitei o inevitável: eu não precisava de uma lista menor. Precisava lembrar direito.

Cheguei a 70.

A ordem não representa preferência. Há, claro, um núcleo quase inegociável que inclui The Red Shoes, The Turning Point, Gone With the Wind, Rogue One, Star Wars, Blow-Up, Citizen Kane, Dead Poets Society, The Lord of the Rings, Vertigo e Sunset Boulevard. The Music Teacher e The Innocents também circulam perigosamente pelo meu Top 20.

O mais curioso foi perceber, depois de colocar títulos tão diferentes lado a lado, que minhas escolhas não são tão dispersas quanto parecem. Voltam sempre desejo, obsessão, arte, sacrifício, memória, identidade, vidas que poderiam ter sido vividas e personagens que pagam caro por aquilo em que acreditam. Portanto, mais do que uma lista de “melhores filmes”, estes são os filmes que ficaram.

De Star Wars a Vertigo

1. Star Wars — trilogia original (1977–1983)

George Lucas dirigiu o primeiro filme; Irvin Kershner, The Empire Strikes Back; Richard Marquand, Return of the Jedi. Mark Hamill, Harrison Ford e Carrie Fisher formam o coração da saga sobre Luke Skywalker e a luta contra o Império. Está aqui porque idealismo, amizade, destino e sacrifício atravessam praticamente toda esta lista.

2. Gone With the Wind (1939)

Dirigido por Victor Fleming, com Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland e Leslie Howard. Scarlett O’Hara atravessa a Guerra Civil americana tentando preservar Tara e perseguindo um amor que talvez exista sobretudo em sua cabeça. Desejo, sobrevivência, cegueira emocional e arrependimento: impossível não estarem entre os essenciais.

3. Blow-Up (1966)

Michelangelo Antonioni dirige David Hemmings, Vanessa Redgrave e Sarah Miles. Um fotógrafo acredita ter registrado um assassinato e amplia obsessivamente suas imagens em busca de uma resposta. Poucos filmes trabalham tão bem uma das perguntas que mais me fascinam: enxergar alguma coisa significa realmente compreendê-la?

4. Citizen Kane (1941)

Orson Welles dirige e interpreta Charles Foster Kane, ao lado de Joseph Cotten e Agnes Moorehead. Após sua morte, um jornalista tenta reconstruir sua vida e descobrir o significado de “Rosebud”. Memória, poder e identidade aparecem através de versões contraditórias de um homem que nunca conseguimos conhecer por inteiro.

5. Rogue One (2016)

Gareth Edwards dirige Felicity Jones, Diego Luna, Ben Mendelsohn e Donnie Yen. Um grupo improvável arrisca tudo para roubar os planos da Estrela da Morte. É uma das histórias de sacrifício que mais amo: ninguém precisa sobreviver para que aquilo que fez tenha valido a pena.

6. The Turning Point (1977)

Herbert Ross dirige Shirley MacLaine, Anne Bancroft e Mikhail Baryshnikov. Duas bailarinas que escolheram caminhos diferentes se reencontram quando a geração seguinte chega ao palco. Talvez nenhum filme expresse melhor a pergunta sobre a vida escolhida e aquela que inevitavelmente deixamos de viver.

7. The Red Shoes (1948)

Michael Powell e Emeric Pressburger dirigem Moira Shearer, Anton Walbrook e Marius Goring. Uma bailarina precisa enfrentar o conflito entre amor e arte. Mas a questão é maior: o que acontece quando a profissão não é apenas aquilo que fazemos, mas parte inseparável de quem somos?

8. Moulin Rouge! (2001)

Baz Luhrmann dirige Nicole Kidman e Ewan McGregor numa tragédia romântica transformada em explosão musical e visual. Amor, arte, espetáculo e morte convivem em volume máximo. É melodrama assumido, excessivo e absolutamente sincero em sua crença no amor.

9. The Fearless Vampire Killers (1967)

Roman Polanski dirige e atua ao lado de Jack MacGowran, Sharon Tate e Ferdy Mayne. Dois caçadores de vampiros chegam a uma aldeia onde suas teorias se mostram perigosamente corretas. Gosto também de cinema quando ele abraça o absurdo, o humor negro e o camp sem perder a elegância.

10. Dead Poets Society (1989)

Peter Weir dirige Robin Williams, Ethan Hawke e Robert Sean Leonard. John Keating tenta ensinar seus alunos a imaginar uma vida que não tenha sido completamente determinada por outros. Idealismo, liberdade e responsabilidade se encontram — e o filme jamais finge que escolher a própria vida não tenha consequências.

11. The Lord of the Rings — trilogia (2001–2003)

Peter Jackson dirige Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin e um elenco extraordinário. Frodo precisa destruir o Um Anel antes que ele destrua seu mundo. Amizade, mortalidade, corrupção e dever aparecem em uma história sobre carregar um peso porque ninguém mais pode carregá-lo por você.

12. Sense and Sensibility (1995)

Ang Lee dirige Emma Thompson, Kate Winslet, Alan Rickman e Hugh Grant. As irmãs Dashwood enfrentam amor e perda reagindo ao desejo de maneiras opostas. Razão e emoção não são necessariamente inimigas; o filme entende como poucas adaptações de Austen o preço de tentar controlar o que sentimos.

13. Henry V (1989)

Kenneth Branagh dirige e interpreta o jovem rei, acompanhado por Derek Jacobi, Emma Thompson, Judi Dench e Ian Holm. Shakespeare encontra lama, sangue e responsabilidade. O heroísmo interessa justamente porque Branagh nunca elimina completamente o custo humano da liderança.

14. L.A. Confidential (1997)

Curtis Hanson dirige Guy Pearce, Russell Crowe, Kim Basinger e James Cromwell. Três policiais investigam crimes numa Los Angeles construída para vender glamour enquanto esconde corrupção. Outra obsessão da lista: a distância entre aquilo que uma imagem promete e aquilo que realmente existe.

15. Ryan’s Daughter (1970)

David Lean dirige Sarah Miles, Robert Mitchum e Trevor Howard. Numa comunidade irlandesa durante a Primeira Guerra, desejo, casamento e julgamento social entram em choque. Lean transforma um conflito íntimo em paisagem épica — exatamente o tipo de grandiosidade emocional que me conquista.

16. High Anxiety (1977)

Mel Brooks dirige e estrela sua homenagem-paródia a Hitchcock, com Madeline Kahn e Cloris Leachman. Um psiquiatra chega a uma instituição bastante suspeita. Amar Hitchcock também significa ser capaz de rir carinhosamente de suas obsessões, enquadramentos, pássaros e loiras misteriosas.

17. Rope (1948)

Alfred Hitchcock dirige James Stewart, John Dall e Farley Granger. Dois jovens assassinam um colega para provar uma teoria de superioridade e recebem convidados ao redor do esconderijo do cadáver. Controle, arrogância e a transformação do outro em objeto fazem deste um de seus filmes mais perturbadores.

18. North by Northwest (1959)

Hitchcock dirige Cary Grant, Eva Marie Saint e James Mason. Um homem comum é confundido com um agente que sequer existe. Identidade, sedução, perigo e humor aparecem no Hitchcock mais vertiginosamente divertido.

19. Rear Window (1954)

Hitchcock reúne James Stewart, Grace Kelly e Thelma Ritter. Imobilizado em casa, um fotógrafo observa os vizinhos e acredita ter descoberto um assassinato. Como em Blow-Up, olhar não significa necessariamente saber — embora seja praticamente impossível resistir à tentação de interpretar.

20. Vertigo (1958)

Hitchcock dirige James Stewart e Kim Novak. Scottie perde uma mulher e tenta reconstruí-la através de outra. Desejo vira projeção, amor vira fabricação e a mulher real precisa desaparecer para que uma fantasia sobreviva. Poucos filmes me parecem tão inesgotáveis.

De The Heiress a Harry Potter

21. The Heiress (1949)

William Wyler dirige Olivia de Havilland, Montgomery Clift e Ralph Richardson. Uma jovem acredita ter encontrado amor enquanto o pai suspeita que seu pretendente quer apenas dinheiro. Humilhação e abandono não apenas machucam: podem reorganizar completamente uma personalidade.

22. Now, Voyager (1942)

Irving Rapper dirige Bette Davis, Paul Henreid e Claude Rains. Uma mulher dominada pela mãe conquista autonomia e encontra um amor que não poderá possuir plenamente. Crescer significa separar-se — e amar não é necessariamente sinônimo de ter.

23. Pirates of the Caribbean — primeira trilogia (2003–2007)

Gore Verbinski dirige Johnny Depp, Keira Knightley, Orlando Bloom e Geoffrey Rush. Piratas, maldições, romance e imperialismo se misturam numa aventura que ainda sabe ser divertida. Jack Sparrow quer liberdade; os demais descobrem repetidamente quanto ela custa.

24. The Apartment (1960)

Billy Wilder dirige Jack Lemmon, Shirley MacLaine e Fred MacMurray. Um funcionário empresta seu apartamento aos chefes até descobrir que a mulher que ama está envolvida com um deles. É uma história de solidão, dignidade e da decisão de finalmente parar de aceitar menos.

25. Sunset Boulevard (1950)

Billy Wilder dirige Gloria Swanson e William Holden. Norma Desmond vive dentro da fantasia de que o mundo ainda a espera. Cinema, narcisismo, envelhecimento, decadência e negação se combinam numa obra que continua simultaneamente engraçada, triste e aterrorizante.

26. All About Eve (1950)

Joseph L. Mankiewicz dirige Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders e Thelma Ritter. Uma jovem fã aproxima-se de uma grande atriz e começa a ocupar cada espaço de sua vida. Ambição, inveja, envelhecimento e performance existem tanto no palco quanto fora dele.

27. Goldfinger (1964)

Guy Hamilton dirige Sean Connery, Honor Blackman e Gert Fröbe. Bond tenta impedir o plano de Goldfinger contra Fort Knox. Nem tudo precisa esconder um trauma profundo: às vezes quero apenas Bond em sua forma mais icônica, elegante, divertida e absurdamente segura de si.

28. On Her Majesty’s Secret Service (1969)

Peter R. Hunt dirige George Lazenby, Diana Rigg e Telly Savalas. Bond encontra Tracy e, pela primeira vez, parece imaginar uma vida fora da espionagem. É justamente o Bond que permite ao personagem amar, escolher e perder.

29. Skyfall (2012)

Sam Mendes dirige Daniel Craig, Judi Dench e Javier Bardem. O passado de M retorna na forma de um inimigo decidido a destruí-la. Família, abandono, envelhecimento, lealdade e morte transformam um filme de Bond em algo muito mais emocional.

30. The Godfather — trilogia (1972–1990)

Francis Ford Coppola acompanha a família Corleone com Al Pacino, Marlon Brando, Robert De Niro, Diane Keaton e Robert Duvall. Michael tenta fugir do destino familiar e termina incorporando-o. Herança, repetição e a impossibilidade de sair completamente da própria história.

31. A Shot in the Dark (1964)

Blake Edwards dirige Peter Sellers, Elke Sommer e George Sanders. Clouseau decide que a principal suspeita de um assassinato é inocente apesar de todas as evidências. Convicção irracional elevada à arte — e uma das comédias que nunca perdem a graça para mim.

32. From Russia with Love (1963)

Terence Young dirige Sean Connery, Daniela Bianchi e Robert Shaw. Bond é usado como peça num jogo da SPECTRE. Mais espionagem do que espetáculo, é um filme de sedução, duplicidade e inteligência.

33. Rosemary’s Baby (1968)

Roman Polanski dirige Mia Farrow, John Cassavetes e Ruth Gordon. Rosemary suspeita que todos ao redor estão conspirando contra ela enquanto insistem que suas percepções não são confiáveis. O terror nasce exatamente da dúvida: e se você estiver certa quando todos dizem que enlouqueceu?

34. Grease (1978)

Randal Kleiser dirige John Travolta, Olivia Newton-John e Stockard Channing. Danny e Sandy descobrem que o romance de verão não funciona tão facilmente diante das identidades sociais do colégio. Música, memória afetiva e performance: quem somos e quem fingimos ser para os outros?

35. The Prophecy (1995)

Gregory Widen dirige Christopher Walken, Elias Koteas, Virginia Madsen e Viggo Mortensen. Uma guerra entre anjos invade o mundo dos homens. Gosto especialmente da maneira como o filme transforma religião em mitologia sombria e trata o mal como algo sedutor, inteligente e inquietante.

36. Young Frankenstein (1974)

Mel Brooks dirige Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman e Madeline Kahn. Um descendente de Frankenstein rejeita o legado familiar até começar a repeti-lo. Até no absurdo aparece a questão: conseguimos realmente escapar daquilo que herdamos?

37. E.T. the Extra-Terrestrial (1982)

Steven Spielberg dirige Henry Thomas, Dee Wallace e Drew Barrymore. Um menino solitário ajuda um extraterrestre abandonado a voltar para casa. Amizade, separação e a descoberta dolorosa de que amar alguém às vezes significa deixá-lo partir.

38. Back to the Future — trilogia (1985–1990)

Robert Zemeckis dirige Michael J. Fox e Christopher Lloyd em viagens pelo passado, futuro e realidades alternativas. É aventura perfeita, mas também uma saga sobre determinismo: quanto da nossa história é destino e quanto ainda pode ser reescrito?

39. Se7en (1995)

David Fincher dirige Morgan Freeman, Brad Pitt e Gwyneth Paltrow. Dois detetives perseguem um assassino que constrói crimes a partir dos sete pecados capitais. A compreensão chega exatamente no momento em que já não pode salvar ninguém.

40. Harry Potter — saga (2001–2011)

Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint crescem diante da câmera sob diferentes diretores, de Chris Columbus a Alfonso Cuarón e David Yates. Família escolhida, morte, amizade, destino e a possibilidade de decidir quem somos apesar daquilo que herdamos.

De Indiana Jones a Delicatessen

41. Indiana Jones — primeira trilogia (1981–1989)

Steven Spielberg dirige Harrison Ford em três aventuras que definiram o gênero moderno, culminando com Sean Connery como seu pai em The Last Crusade. Ação, humor, História e, no terceiro filme, uma relação paterna que dá à aventura um coração inesperado.

42. Inception (2010)

Christopher Nolan dirige Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hardy. Um especialista invade sonhos enquanto sua culpa ameaça destruir a missão. Memória, projeção, perda e uma pergunta final irresistível: mas aquilo era real?

43. Singin’ in the Rain (1952)

Gene Kelly e Stanley Donen dirigem Kelly, Debbie Reynolds, Donald O’Connor e Jean Hagen. Hollywood precisa sobreviver à transição do cinema mudo para o falado. É um filme sobre cinema, transformação e bastidores que consegue fazer tudo parecer absolutamente alegre.

44. Waterloo Bridge (1940)

Mervyn LeRoy dirige Vivien Leigh e Robert Taylor. Uma bailarina e um oficial apaixonam-se durante a guerra, até que um erro muda tragicamente suas vidas. Bailarina, guerra, amor impossível e Vivien Leigh: dificilmente poderiam ser mais adequados a esta lista.

45. Brief Encounter (1945)

David Lean dirige Celia Johnson e Trevor Howard. Duas pessoas casadas se apaixonam e precisam decidir se o sentimento justifica destruir as vidas construídas ao redor delas. Talvez seja uma das formas mais puras de desejo versus renúncia no cinema.

46. The Rocky Horror Picture Show (1975)

Jim Sharman dirige Tim Curry, Susan Sarandon e Barry Bostwick. Um casal convencional entra no universo de Frank-N-Furter e vê suas certezas desmoronarem. Camp, musical, transgressão e identidade como espetáculo — além de Tim Curry em estado de graça.

47. Clue (1985)

Jonathan Lynn dirige Tim Curry, Madeline Kahn, Christopher Lloyd e Lesley Ann Warren. Estranhos com segredos se reúnem numa mansão onde alguém começa a matar. Mistério, teatro, ritmo e absurdo numa combinação que posso rever indefinidamente.

48. The Usual Suspects (1995)

Bryan Singer dirige Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Benicio del Toro e Chazz Palminteri. Um sobrevivente reconstrói a história de criminosos ligados ao misterioso Keyser Söze. Narrativa e realidade se confundem até uma última informação reorganizar tudo o que acreditávamos saber.

49. Casablanca (1942)

Michael Curtiz dirige Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid e Claude Rains. Rick reencontra a mulher que ama, mas precisa decidir se recuperá-la é mais importante do que ajudá-la a partir. Amar e renunciar porque existe algo maior: um dos grandes temas desta lista inteira.

50. The Music Teacher / Le Maître de musique (1988)

Gérard Corbiau dirige José van Dam, Anne Roussel e Philippe Volter. Um grande cantor abandona o palco e passa a formar jovens artistas. Arte como disciplina, vocação, transmissão e sacrifício explicam por que este não está apenas entre os 70: circula pelo meu Top 20.

51. The Sound of Music (1965)

Robert Wise dirige Julie Andrews, Christopher Plummer e Eleanor Parker. Maria transforma uma família através da música enquanto o nazismo avança sobre a Áustria. Amor, música, família e uma escolha moral diante da História.

52. Victor/Victoria (1982)

Blake Edwards dirige Julie Andrews, James Garner e Robert Preston. Uma cantora passa a se apresentar como um homem que interpreta uma mulher. Uma comédia musical sofisticada sobre desejo, gênero, identidade e nossa necessidade de categorizar os outros.

53. Toto le héros (1991)

Jaco Van Dormael dirige Michel Bouquet, Jo De Backer e Mireille Perrier. Um homem acredita que foi trocado na maternidade e que outra pessoa viveu a vida que deveria ser sua. A vida real contra a vida imaginada: The Turning Point encontra o absurdo e a melancolia.

54. Dangerous Liaisons (1988)

Stephen Frears dirige Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer. Merteuil e Valmont usam outras pessoas como peças num jogo de sedução até sentimentos verdadeiros escaparem ao controle. Desejo como poder e a fantasia perigosa de controlar suas consequências.

55. Delicatessen (1991)

Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro dirigem Dominique Pinon e Marie-Laure Dougnac num mundo pós-apocalíptico em que comida se tornou um problema bastante sinistro. Humor negro, surrealismo, romance e humanidade sobrevivendo dentro do grotesco.

Os filmes que quase ficaram de fora

56. O Filho da Noiva / El hijo de la novia (2001)

Juan José Campanella dirige Ricardo Darín, Héctor Alterio e Norma Aleandro. Um homem atolado em trabalho e problemas familiares precisa reconsiderar suas prioridades quando o pai decide realizar o antigo sonho de casar novamente com sua mãe. Amor, envelhecimento, memória e família sem sentimentalismo barato.

57. O Segredo dos Seus Olhos / El secreto de sus ojos (2009)

Campanella reencontra Ricardo Darín, agora com Soledad Villamil e Guillermo Francella. Um crime antigo e um amor nunca resolvido continuam assombrando um homem décadas depois. Memória, obsessão, justiça e tudo aquilo que o tempo não consegue realmente encerrar.

58. Kamchatka (2002)

Marcelo Piñeyro dirige a Ricardo Darín, Cecilia Roth e Matías del Pozo. Uma família se esconde da ditadura argentina, vista sobretudo através dos olhos de uma criança. A História invade a intimidade enquanto pais tentam preservar alguma normalidade antes de uma perda inevitável.

59. The Great Gatsby (2013)

Baz Luhrmann dirige Leonardo DiCaprio, Carey Mulligan e Tobey Maguire. Gatsby constrói um mundo espetacular para tentar recuperar um amor idealizado. É justamente o Luhrmann que me conquista: excesso visual servindo ao desejo, à fantasia, à classe e à autodestruição.

60. The Piano (1993)

Jane Campion dirige Holly Hunter, Harvey Keitel, Sam Neill e Anna Paquin. Uma mulher muda encontra no piano sua voz mais profunda enquanto luta por desejo e autonomia. Corpo, silêncio, repressão e arte como identidade tornam sua presença aqui quase inevitável.

61. Amadeus (1984)

Miloš Forman dirige F. Murray Abraham e Tom Hulce. Salieri observa Mozart possuir o talento que acredita merecer e transforma admiração em ressentimento. Genialidade, inveja, vocação e a dor de reconhecer grandeza no outro: como eu quase deixei este de fora?

62. Rebecca (1940)

Hitchcock dirige Joan Fontaine, Laurence Olivier e Judith Anderson. Uma jovem esposa chega a Manderley e descobre que vive sob a presença fantasmática da primeira mulher do marido. Identidade, comparação, memória e uma ausente capaz de dominar todos os presentes.

63. Cinema Paradiso (1988)

Giuseppe Tornatore dirige Philippe Noiret e Salvatore Cascio. Um cineasta relembra a infância, a amizade com o projecionista de sua cidade e a descoberta do cinema. Memória, perda e amor pelas imagens: talvez o esquecimento mais imperdoável enquanto eu montava esta lista.

64. The Age of Innocence (1993)

Martin Scorsese dirige Daniel Day-Lewis, Michelle Pfeiffer e Winona Ryder. Um homem dividido entre convenção e desejo percebe que a sociedade não precisa de grades para funcionar como prisão. Amor contido, códigos sociais e a vida que poderia ter sido.

65. The House of Mirth (2000)

Terence Davies dirige Gillian Anderson, Eric Stoltz e Laura Linney. Lily Bart tenta sobreviver numa sociedade que transforma casamento e dinheiro em instrumentos de poder. Desejo, reputação, crueldade social e a punição reservada a quem não consegue jogar perfeitamente pelas regras.

66. The Purple Rose of Cairo (1985)

Woody Allen dirige Mia Farrow e Jeff Daniels. Uma personagem sai literalmente da tela para encontrar uma espectadora infeliz. Cinema como fuga, fantasia e amor impossível — mas também a dolorosa constatação de que a ficção não precisa obedecer às regras da realidade.

67. Match Point (2005)

Woody Allen dirige Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson e Emily Mortimer. Ambição, desejo e acaso colocam um homem diante de escolhas morais cada vez piores. Um filme gelado sobre a diferença entre culpa, punição e pura sorte.

68. O Clã das Adagas Voadoras / House of Flying Daggers (2004)

Zhang Yimou dirige Zhang Ziyi, Takeshi Kaneshiro e Andy Lau. Espionagem, rebelião e um triângulo amoroso se transformam numa tragédia visualmente deslumbrante. Beleza nunca está ali apenas para decorar: ela amplifica desejo, lealdade e sacrifício.

69. Os Inocentes / The Innocents (1961)

Jack Clayton dirige Deborah Kerr, Martin Stephens e Pamela Franklin nesta adaptação de Henry James. Uma governanta acredita que duas crianças estão sob influência sobrenatural. Mas são fantasmas, repressão, desejo ou projeção? Essa impossibilidade de fechar a resposta explica por que está perigosamente perto do meu Top 20.

70. Além da Linha Vermelha / The Thin Red Line (1998)

Terrence Malick dirige Jim Caviezel, Sean Penn, Nick Nolte, Elias Koteas e Ben Chaplin num épico sobre Guadalcanal. A guerra aparece menos como aventura do que como pergunta existencial sobre violência, natureza, medo e humanidade.

O que os 70 acabaram revelando

Depois de terminar a lista, percebi que meus filmes favoritos atravessam gêneros demais para que “gosto de clássicos”, “gosto de musicais” ou “gosto de suspense” expliquem muita coisa. O que se repete são conflitos.

Volto constantemente a personagens divididos entre a vida que escolheram e aquela que poderiam ter vivido. Volto à dúvida entre imagem e realidade e volto ao idealismo e ao preço do sacrifício, assim como compulsivamente à arte como identidade, não passatempo. Talvez por isso eu tenha começado tentando escolher 45 filmes e terminado com 70. Não são necessariamente os 70 melhores filmes já feitos. São os 70 que, por alguma razão, continuam me fazendo perguntas.

E esse talvez seja meu critério definitivo para um favorito: o filme termina, mas a conversa com ele não.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário