Se você pudesse apagar a pior versão de si mesma e começar de novo, quem escolheria ser? A princípio, Chad Powers parecia apenas uma comédia esportiva construída em torno de uma ideia tão absurda quanto eficiente: um jogador de futebol americano arruinado cria um novo rosto, uma nova voz e uma nova história para tentar recuperar a carreira. Por baixo das próteses, do cabelo falso e do humor físico, porém, a série sempre falou de uma fantasia muito contemporânea: a de que basta fabricar outra imagem para nos tornarmos outra pessoa.
Russ Holliday, interpretado por Glen Powell, teve tudo aquilo que costumamos confundir com identidade. Era bonito, talentoso, famoso e estava a poucos centímetros de se tornar um herói do esporte universitário. Então, por arrogância, comemorou uma jogada antes da hora, deixou a bola escapar e comprometeu a vitória de seu time. O erro esportivo ainda poderia ter sido superado. O que destruiu sua carreira foi a reação: incapaz de suportar a humilhação, Russ perdeu o controle diante das câmeras e transformou um fracasso em escândalo.
Oito anos depois, ele continuava vivendo entre troféus, ressentimento e a expectativa de que alguém devolvesse aquilo que acreditava lhe pertencer. Russ não sabia quem era sem o futebol porque nunca precisara descobrir. Sua identidade fora construída de fora para dentro, alimentada pelo aplauso, pela aparência e pelo olhar dos outros. Quando esse olhar passou da admiração ao desprezo, sobrou muito pouco.

É por isso que a história permite uma leitura tão interessante a partir de Carl Gustav Jung. Para Jung, a persona é a face que apresentamos ao mundo, uma espécie de máscara social necessária para que possamos ocupar papéis, conviver e ser reconhecidos. Todos usamos personas. Somos diferentes no trabalho, em família, entre amigos ou diante de desconhecidos, e isso não significa necessariamente falsidade. O problema começa quando alguém se identifica completamente com a máscara e já não consegue reconhecer o que existe por trás dela.
Russ já vivia assim antes de inventar Chad. O atleta admirado, confiante e quase invencível era sua primeira persona. Ele projetava sucesso, masculinidade e poder, mas não havia desenvolvido recursos internos para sobreviver à perda de tudo isso. Sua reação desastrosa não nasceu apenas de uma jogada errada. Nasceu do colapso de um homem que, sem o personagem do vencedor, não possuía uma noção minimamente estável de si.
Seu pai, Mike, é justamente um maquiador de cinema. A escolha é quase óbvia demais, mas funciona: Russ foi criado por um homem que fabrica rostos para ficções e, quando já não suporta o próprio rosto, recorre ao ofício paterno. Mike o ama, mas finalmente exerce aquilo que chamamos de tough love. Em vez de continuar sustentando a paralisia do filho, obriga Russ a trabalhar e encarar a vida que restou. Russ responde não elaborando a perda, mas roubando uma possibilidade de fuga. Com próteses, peruca e uma voz improvisada, ele cria Chad Powers e se apresenta para um teste no pequeno time dos South Georgia Catfish.
Chad deveria ser apenas um disfarce. No entanto, aos poucos, torna-se algo mais complexo. Ele é simpático, humilde, generoso, inocente e capaz de criar vínculos. É também um jogador extraordinário, porque carrega o talento de Russ sem carregar, ao menos aparentemente, seu narcisismo. As pessoas que rejeitariam Russ acolhem Chad. Os companheiros confiam nele, Danny se torna seu cúmplice e Ricky se apaixona pelo homem que acredita existir sob aquela aparência estranha. Aqui surge a grande provocação da série: Chad é uma mentira ou uma parte verdadeira de Russ que só conseguiu aparecer protegida por uma mentira?
Na psicologia junguiana, a sombra reúne aspectos que o ego não aceita reconhecer e, por isso, empurra para fora da consciência. Costumamos pensar nela apenas como depósito de agressividade, inveja, egoísmo ou crueldade. Mas a sombra também pode guardar qualidades positivas que foram reprimidas porque não combinavam com a imagem que construímos de nós mesmos. Em Russ, a arrogância, a raiva e o desejo de ser adorado pertencem à sombra que ele se recusa a enfrentar. Ao mesmo tempo, a bondade, a vulnerabilidade e a capacidade de pertencer talvez também tenham sido expulsas pelo personagem do atleta perfeito.

Chad nasce dessa divisão. Ele não é simplesmente o oposto de Russ, muito menos uma pessoa inteiramente nova. É uma montagem feita com tudo aquilo que Russ gostaria de ser, com aquilo que precisa parecer e, possivelmente, com partes genuínas de si que jamais soube viver sem o abrigo de uma máscara. Sob o rosto falso, Russ pode pedir ajuda, aceitar o ridículo, jogar com os outros e não apenas para a própria glória. Paradoxalmente, precisa mentir sobre quem é para experimentar alguma verdade.
O problema é que nenhuma transformação se sustenta quando depende da negação completa do passado. Russ não integra Chad à própria personalidade; tenta usar Chad para eliminar Russ. Na primeira temporada, chegou a cogitar alterar definitivamente o rosto, como se fosse possível matar o homem que fracassou e preservar apenas a versão amada. É nesse momento que a máscara começa a colar no rosto. Em vez de ajudá-lo a circular pelo mundo, a persona ameaça ocupar o lugar de sua identidade.
A segunda temporada volta justamente quando essa fantasia cobra seu preço. Ricky descobriu a verdade. Danny já participa da encenação, e as pessoas que deram uma oportunidade a Chad percebem que também podem ser destruídas por Russ. Se revelarem o golpe, perdem o jogador, a temporada, a credibilidade e talvez as próprias carreiras. Se protegerem o segredo, tornam-se cúmplices de uma fraude que nunca escolheram. A mentira deixa de ser apenas um mecanismo de defesa individual e passa a organizar todo um grupo.
É aí que Chad Powers fica mais sombria sem abandonar a comédia. A pergunta já não é apenas se a peruca cairá ou se alguém reconhecerá Russ. Agora importa saber quem pagará pela redenção que ele decidiu construir sem pedir consentimento. Russ pode estar se tornando uma pessoa melhor, mas fez isso apropriando-se da confiança, do afeto e dos sonhos dos outros. Mesmo suas boas ações permanecem contaminadas por uma origem narcísica: Chad nasceu para devolver a Russ o palco que ele perdeu.
O narcisismo, aqui, não precisa ser tratado como um diagnóstico. Ele aparece como uma organização da vida em torno do próprio reflexo. Russ depende do olhar externo para existir, não tolera a vergonha e transforma as pessoas em plateia, instrumento ou ameaça. Chad parecia corrigir esse funcionamento porque era capaz de olhar para os demais. Agora, porém, terá de provar que essa mudança é real. Não quando é celebrado, mas quando fazer a coisa certa pode custar exatamente aquilo que ele mais deseja.
A individuação, outro conceito central em Jung, não significa escolher entre a persona iluminada e a sombra vergonhosa. Significa reconhecer as contradições, integrar aquilo que foi reprimido e deixar de acreditar que somos apenas a versão de nós mesmos que preferimos mostrar. Russ não se tornará inteiro se destruir Chad, mas tampouco conseguirá se salvar desaparecendo dentro dele. Precisará admitir que é o homem arrogante que caiu, o atleta que ainda possui talento, o filho incapaz de seguir em frente e também a pessoa afetuosa que surgiu quando ninguém sabia seu verdadeiro nome.

Talvez seja por isso que uma série inspirada em uma brincadeira de Eli Manning diga tanto sobre o nosso tempo. Hoje, não precisamos de próteses produzidas por um maquiador de Hollywood para criar outras versões de nós mesmos. Temos perfis, filtros, avatares, currículos, discursos e identidades cuidadosamente editadas para cada ambiente. Nenhuma dessas máscaras é necessariamente falsa. Todas mostram alguma coisa e escondem outra. O perigo está em precisar cada vez mais delas para suportar quem somos quando não existe ninguém olhando.
No fundo, Chad Powers não pergunta se Russ será descoberto. Pergunta o que restará quando ele for. Se todos nós pudéssemos criar uma máscara capaz de nos devolver amor, reconhecimento e propósito, provavelmente seria difícil resistir. A questão mais incômoda é outra: depois de viver tempo suficiente como a pessoa que desejávamos ser, teríamos coragem de tirar a máscara e assumir que ela também sempre foi nossa?
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