Dark Matter (T2, Ep. 2): Não existe mundo perfeito

Dark Matter passou boa parte da primeira temporada perguntando o que aconteceria se pudéssemos viver a vida que não escolhemos. Agora, sem ter mais o livro de Blake Crouch para seguir, a série amplia a questão: o que faríamos se pudéssemos não apenas encontrar um mundo perfeito, mas construí-lo?

“A Perfect World”, segundo episódio da segunda temporada, reúne três respostas diferentes. Leighton quer transformar o multiverso em um imenso banco de tecnologias capazes de corrigir os erros da humanidade. Jason, Daniela e Charlie procuram um lugar onde ninguém possa encontrá-los. Amanda e Ryan deixam voluntariamente uma utopia porque não conseguem viver em paz enquanto Jason 2 permanece impune.

Todos querem melhorar alguma coisa. É justamente por isso que são tão perigosos.

Quando a Caixa ainda representava esperança

O episódio começa três anos antes, quando a Caixa finalmente entra em funcionamento. Leighton reúne a equipe da Velocity e faz um discurso genuinamente empolgante. Existem mundos que podem ter curado doenças, revertido as mudanças climáticas, eliminado a pobreza e encerrado guerras. Se todas essas descobertas estão ao alcance deles, por que não trazê-las para casa?

Era uma ideia extraordinária. Também era o início da catástrofe.

Blair se prepara para ser a primeira pessoa colocada em superposição. Ela quer entrar para a História, enquanto Amanda percebe aquilo que os demais, intoxicados pela grandiosidade do momento, preferem ignorar: ninguém sabe realmente o que existe do outro lado daquela porta.

Amanda teme que Blair não tenha recebido o preparo psicológico necessário. A preocupação faz ainda mais sentido quando lembramos que a Caixa não é uma simples máquina. Ela responde à consciência de quem a utiliza. Medos, desejos e pensamentos interferem diretamente no mundo que surge depois que a porta é aberta.

A Caixa, portanto, jamais foi apenas um experimento científico. Desde o princípio, ela colocou o inconsciente humano no comando de uma tecnologia praticamente ilimitada. Naturalmente, deu tudo errado.

Charlie escolhe um mundo sem computadores

No presente, Jason, Daniela e Charlie continuam procurando uma realidade na qual possam desaparecer. Jason decide entregar a Charlie a responsabilidade de imaginar o próximo destino. Afinal, os outros Jasons compartilham boa parte de suas memórias e de sua maneira de pensar. Talvez seja mais difícil antecipar uma escolha feita pelo filho.

Charlie deseja um mundo no qual as pessoas cuidem da própria vida, seja fácil passar despercebido e não existam reconhecimento facial, câmeras de vigilância ou rastros digitais. Também quer que as versões locais dos Dessen morem longe e não sejam famosas nem criminosas.

A Caixa atende ao pedido de uma maneira quase debochada: leva a família para uma Chicago onde os computadores nunca foram inventados.

A explicação encontrada por eles é que, nessa realidade, John Kennedy perdeu a eleição para Richard Nixon. Nixon reduziu drasticamente o programa espacial, os Estados Unidos jamais chegaram à Lua e o desenvolvimento de microchips e microprocessadores não avançou como no mundo conhecido pelos Dessen.

Para Charlie, é praticamente a pré-história. Não há celulares, internet, redes sociais ou computadores. As pesquisas são feitas em bibliotecas, com catálogos e microfilmes. Telefones fixos, listas impressas e jornais entregues em casa ainda fazem parte da rotina. Paradoxalmente, o atraso tecnológico oferece exatamente aquilo que a família perdeu: anonimato.

Jason acredita que eles finalmente encontraram um lugar onde possam viver. O plano é conseguir documentos falsos, destruir a Caixa e deixar Chicago. Sem a porta de entrada para o multiverso, nenhum outro Jason poderá alcançá-los.

O problema é que a presença dos Dessen já começou a alterar aquele mundo.

Daniela ainda não consegue voltar para casa

Mesmo quando a família desfruta alguns momentos de alívio, Daniela permanece visivelmente abalada. No episódio anterior, ela matou uma versão de Jason. Era um homem praticamente idêntico ao marido, com lembranças, sentimentos e o mesmo desejo de viver com ela e Charlie.

A série não permite que esse assassinato seja reduzido a uma solução conveniente. Para Jason, aquele homem era uma ameaça entre muitas. Para Daniela, ainda era alguém com o rosto, a voz e parte da história do homem que ama.

Durante uma saída dos dois, Jason tenta saber como ela está. Daniela responde que está bem, mas deixa claro que sua estabilidade depende de uma promessa: a destruição da Caixa. Ela não quer esperar pelos documentos falsos nem permanecer perto daquele objeto por mais tempo do que o necessário.

Jason diz que não conseguiria imaginar atravessar tudo aquilo com outra pessoa. A frase deveria confortá-la, mas produz o efeito oposto. Daniela sabe que existem inúmeros homens iguais a ele capazes de dizer exatamente a mesma coisa.

Depois de venderem as alianças para conseguir dinheiro, Jason improvisa um novo anel para Daniela usando um elástico de cabelo. É um gesto terno, mas também cruel. Em outro contexto, poderia representar a permanência do casamento. Ali, lembra a Daniela que até mesmo o homem ao seu lado pode ser substituído por uma variação quase perfeita.

A família tenta recomeçar, mas ela ainda não sabe o que significa voltar para casa quando existem infinitas versões da casa, do marido e de si mesma.

A família já existia naquele mundo

Daniela procura uma escola para matricular Charlie, mas descobre que ele já estudou ali. Uma funcionária reconhece sua impressionante semelhança com a outra Daniela Dessen e explica que aquela família se mudou para a Califórnia.

Por alguns instantes, parece uma boa notícia. As duas famílias poderão coexistir desde que permaneçam distantes. Mas Jason precisa de novas identidades e comete o erro inevitável de procurar alguém que saiba investigar e falsificar documentos.

O homem indicado é Mitchel MacNamara.

Nesse mundo, ele não é o agente que vimos perseguindo outro Jason, mas um investigador particular que “trabalha com coisas estranhas”. Jason não apenas pede documentos falsos como também o contrata para descobrir se alguém está procurando por sua família.

MacNamara cumpre a tarefa, porém guarda algumas fotografias. Uma delas mostra o Jason daquele mundo caminhando em São Francisco enquanto outro homem com o mesmo rosto circula por Chicago. A duplicidade desperta sua curiosidade e transforma o investigador em mais uma ameaça.

Jason procurava um profissional capaz de ajudá-lo a desaparecer. Acabou contratando justamente o homem que começará a perguntar como ele pode existir duas vezes.

Amanda volta à Caixa

Em Happy Chicago, Ryan conseguiu reproduzir o composto necessário para entrar em superposição. Amanda o ajuda a compreender algo que a química não explica: a Caixa não obedece apenas a coordenadas, mas ao estado emocional de quem abre a porta.

Ryan criou a ciência que permite a viagem. Amanda sabe o que significa sobreviver a ela.

O treinamento, porém, reabre os traumas de Amanda. Ela ainda se culpa pelo destino de Blair e dos outros pilotos enviados ao desconhecido quando ninguém compreendia completamente a relação entre a Caixa e a mente humana. Embora Blair tenha assumido a responsabilidade por sua escolha, Amanda continua sentindo que falhou.

Ryan também descobre imagens de Jason 1 saindo da Caixa em Happy Chicago e retornando imediatamente ao corredor. Como não sabem que ele conseguiu encontrar Daniela e Charlie, Amanda e Ryan concluem que talvez Jason jamais tenha voltado para casa.

A princípio, Ryan pretende partir sozinho. Seu objetivo é encontrar Jason 2 e responsabilizá-lo por tudo o que fez. Amanda decide acompanhá-lo porque também precisa corrigir aquilo que considera seus erros.

Eles abandonam uma realidade verdadeiramente próxima da perfeição não porque estejam infelizes ali, mas porque felicidade e paz não são exatamente a mesma coisa. Ryan não aceita desfrutar do paraíso enquanto o homem que destruiu sua vida continua livre. Amanda não consegue construir um futuro sem voltar ao lugar em que acredita ter fracassado.

O conselho dos Leightons

Enquanto isso, Leighton começa a demonstrar que aprendeu a navegar pela Caixa. Mais importante: ele descobriu que pode colaborar com outras versões de si mesmo.

Uma delas, conhecida como Oluko — “professor” — domina técnicas de meditação e controle da consciência. Outro Ryan é recrutado para ajudar a produzir mais doses do composto. Juntos, os Leightons querem transportar descobertas entre realidades e solucionar crises que cada mundo, isoladamente, não conseguiu vencer.

Em princípio, Leighton parece estar cumprindo a promessa feita três anos antes. Ele encontra um mundo que desenvolveu soluções para uma crise alimentar provocada por uma erupção vulcânica e pretende levar esse conhecimento a outras realidades. Em vez de criar apenas um mundo perfeito, acredita poder melhorar vários.

Há, contudo, algo inquietante na ideia de diferentes Leightons formando uma aliança. Pela primeira vez, vemos versões de uma mesma pessoa trabalhando juntas, enquanto os Jasons continuam se perseguindo e se matando.

Talvez isso transforme Leighton em uma alternativa moral a Jason. Talvez esteja apenas lhe oferecendo uma ambição ainda maior. Porque um homem capaz de decidir quais tecnologias devem atravessar o multiverso também passa a decidir quais mundos merecem ser corrigidos — e de acordo com a visão de perfeição de quem.

Tão perto que chega a ser cruel

Amanda e Ryan começam a viagem, testam sua capacidade de navegar e chegam exatamente à mesma realidade escolhida por Charlie. Mais do que isso: hospedam-se no mesmo hotel em que Jason, Daniela e Charlie estão vivendo.

Jason sai pelo corredor instantes antes da chegada dos dois.

Depois de transformar o infinito em uma distância aparentemente impossível, Dark Matter faz com que seus personagens fiquem separados por alguns segundos e poucas portas. Amanda e Ryan não sabem que encontraram Jason. Jason não imagina que duas das pessoas que poderiam ajudá-lo estão tão próximas.

MacNamara, no entanto, observa o hotel. Ele segue Amanda e Ryan até a Caixa e os vê entrar. Como não tomou o composto, abre a porta e encontra apenas uma estrutura vazia. Não consegue acessar o corredor, mas agora sabe que duas pessoas desapareceram dentro de um objeto impossível.

O “mundo perfeito” dos Dessen já deixou de ser seguro.

O título do episódio é deliberadamente irônico. Leighton deseja aperfeiçoar a humanidade pela tecnologia. Os Dessen procuram segurança em um mundo que retrocedeu tecnologicamente. Amanda e Ryan abandonam uma utopia em nome da justiça. Cada personagem acredita saber o que precisa ser corrigido.

Mas a Caixa nunca cria apenas aquilo que alguém deseja. Ela carrega também os medos, as culpas, as obsessões e as ambições de quem abre a porta. O perigo não está em existir um número infinito de mundos. Está em continuarmos sendo os mesmos seres humanos em todos eles.


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