Contém spoilers da terceira temporada de Silo e referências aos livros de Hugh Howey.
A terceira temporada de Silo fez algo que a segunda demorou demais para conseguir: respondeu a várias perguntas sem diminuir o mistério. Descobrimos como os silos foram construídos, vimos Daniel e Helen serem separados, conhecemos a origem da Salvaguarda, entendemos melhor o papel do Silo 1 e finalmente descobrimos quem é Troy.
Ainda assim, a sensação ao final do episódio é de que conhecemos os mecanismos, mas não todo o plano. Sabemos como as populações são controladas. Ainda não sabemos, ao menos na série, por que esse controle precisa continuar mais de três séculos depois da catástrofe.
“Troy” encerra a temporada com Daniel começando a recuperar a memória de Helen e Juliette decidida a atacar o Silo 1. Antes dessa guerra, porém, Silo ainda precisa responder a algumas perguntas essenciais.

Houve realmente um ataque contra os Estados Unidos?
A explosão vista por Daniel e Helen parece, inicialmente, confirmar que os Estados Unidos foram atacados. O problema é que tudo ao redor dela sugere uma operação planejada.
Os convidados da inauguração já haviam sido distribuídos entre silos específicos. Helen, grávida, foi encaminhada ao Silo 18. Daniel foi mantido perto do Silo 1, junto de Victor, Rosalind Thurman, Per Stensen e outros responsáveis pelo Projeto. Charlotte desapareceu, e alguém respondeu ao celular em seu lugar. Quando Daniel e Helen perceberam que havia algo errado e tentaram sair, a bomba explodiu.
A série ainda não mostrou quem autorizou o ataque, mas é difícil acreditar que Stensen e Thurman tenham apenas aproveitado uma coincidência. Tudo indica que a explosão foi provocada ou permitida por eles para obrigar as pessoas previamente selecionadas a entrar nos silos.
Nos livros de Hugh Howey, a resposta é mais clara: o grupo que construiu os silos também provoca o apocalipse. Convencidos de que o desenvolvimento da nanotecnologia já havia condenado a humanidade, seus integrantes decidem destruir o mundo de maneira controlada para preservar uma pequena parcela da espécie.
A série ainda pode alterar os responsáveis e suas motivações. O que dificilmente mudará é a ideia mais perturbadora: os silos não foram apenas uma resposta ao fim do mundo. Provavelmente fizeram parte de sua execução.
A bomba destruiu o mundo inteiro?
Não. Uma única explosão em Atlanta, por maior que fosse, não explicaria a extinção global nem tornaria todo o planeta inabitável durante séculos. A bomba é apenas a parte visível da catástrofe.
A ameaça real está ligada ao gray goo, a nanotecnologia capaz de se espalhar, contaminar organismos e transformar máquinas microscópicas em armas praticamente invisíveis. Foi justamente esse perigo que levou Stensen a financiar a construção dos silos.
Ainda não sabemos se a explosão serviu para liberar os nanorrobôs, encobrir uma operação maior ou simplesmente criar o pânico necessário para fechar as portas. Também não está claro se outras cidades foram atacadas simultaneamente.
É uma das respostas que a temporada final terá de fornecer: quem destruiu o mundo, como fez isso e se a ameaça usada para justificar o Projeto era realmente inevitável ou apenas a convicção paranoica de homens poderosos demais.


O ar já está respirável e os limpadores são envenenados?
Depois do massacre do Silo 17, essa deixou de ser apenas uma teoria improvável e se tornou uma das hipóteses mais fortes da série. Os moradores conseguem sair, caminhar e respirar do lado de fora. Eles não começam a cair como os limpadores que conhecemos. Morrem porque Troy envia drones, gás e munição para exterminá-los antes que alcancem os outros silos.
A cena é particularmente perturbadora pela frieza de Troy. Charlotte, agora chamada Susan, ainda tenta estabelecer um limite. Ela aceita eliminar os líderes da rebelião, mas se recusa a matar famílias inteiras. Troy, a dispensa da operação, assume o controle dos drones e prossegue com o massacre sem qualquer hesitação. Para ele, aquelas pessoas não são homens, mulheres e crianças. São fugitivos que ameaçam o isolamento imposto pelo Projeto.
Se o próprio ar fosse capaz de matá-los, toda a operação seria desnecessária. Bastaria esperar.
Isso nos obriga a olhar novamente para o ritual da limpeza. Antes de sair, o condenado é atingido por um jato dentro da câmara. Oficialmente, o procedimento pode ser interpretado como uma descontaminação ou preparação do traje. A teoria é justamente o contrário: aquele jato introduz o veneno — ou os nanorrobôs — que matará a pessoa poucos minutos depois.
A fita inferior usada pelo Silo também faria parte do mecanismo. Como não veda corretamente o traje, permite que o agente aplicado na câmara alcance o corpo. Juliette sobrevive porque Walker troca a fita pela versão de Mechanical, que realmente funciona. Talvez ela não tenha sido protegida do ar exterior, mas do veneno lançado sobre ela antes da abertura da porta.

Bernard também não contradiz necessariamente essa hipótese. Embora tenha saído sem traje, ele atravessa a mesma câmara e é exposto ao procedimento destinado aos condenados. Sua morte pode ter começado ali, antes mesmo que colocasse os pés do lado de fora.
A paisagem devastada continua real. A imagem verde exibida nos capacetes é uma gravação destinada a incentivar os condenados a limpar a câmera. Mas um mundo morto não é necessariamente um mundo com ar irrespirável. Pode não haver vegetação ao redor dos silos e, ainda assim, já ser possível sobreviver na superfície.
O massacre do Silo 17 parece mostrar exatamente isso: o exterior não matou aquelas pessoas. Troy matou.
Se o exterior está habitável, por que todos continuam presos?
Essa passa a ser a pergunta central de Silo. Se o ar já pode ser respirado, as comunidades não permanecem debaixo da terra por necessidade. Permanecem porque o Projeto ainda não terminou.
Nos livros, os silos não são apenas abrigos. São experiências sociais isoladas, observadas e comparadas durante séculos. Cada comunidade enfrenta crises, rebeliões, mudanças políticas e períodos de estabilidade. O Silo 1 analisa os resultados para decidir qual população será considerada apta a retornar à superfície.
A intenção nunca foi libertar todos. Apenas um silo seria escolhido para repovoar o planeta. Os demais seriam eliminados.
A série ainda não confirmou que seguirá exatamente esse desfecho, mas já apresentou quase todos os elementos necessários: a proibição de contato, a vigilância permanente, a Salvaguarda interna, os drones externos e a referência de Thurman à participação de Charlotte no “fim do Projeto”.
Manter todos debaixo da terra permite controlar o desenvolvimento de cada sociedade. Os moradores não conhecem o passado, não sabem que existem outras comunidades e não podem comparar suas versões da história. Cada silo funciona como um laboratório humano fechado.
Se uma população descobre a verdade ou decide sair antes da hora determinada, deixa de ser controlável. Foi o que aconteceu no Silo 17. Seus moradores não foram mortos porque o exterior era perigoso para eles. Foram mortos porque eles eram perigosos para o Projeto.

O que Per Stensen ganha com tudo isso?
Dinheiro, provavelmente nada. O dinheiro perde qualquer utilidade depois que o mundo acaba. O ganho de Per Stensen é muito maior e mais megalomaníaco: ele se transforma no arquiteto da humanidade futura.
Stensen acredita que a nanotecnologia tornará a extinção inevitável. Em vez de tentar apenas salvar o maior número possível de pessoas, decide determinar como a espécie sobreviverá, quem terá o direito de participar e qual tipo de sociedade herdará o planeta.
É uma fantasia de controle absoluto disfarçada de salvação.
Ele escolhe as pessoas, distribui famílias entre os silos, financia as estruturas que organizarão suas vidas e entrega ao Silo 1 o poder de apagar memórias, interromper rebeliões e eliminar comunidades inteiras. Mesmo que não permaneça vivo até o final do Projeto, sua visão continuará comandando pessoas nascidas séculos depois de sua morte.
Esse é o verdadeiro ganho de Stensen: não sobreviver pessoalmente ao fim do mundo, mas ser o homem que decide o que virá depois dele.
Há também uma dimensão quase eugenista. Se apenas uma comunidade será escolhida, alguém precisa estabelecer quais características merecem sobreviver. Obediência? Estabilidade? Capacidade de reprodução? Ausência de rebelião? O Projeto deixa de preservar a humanidade como ela é e passa a tentar produzir a humanidade que Stensen considera aceitável.
O problema é que, ao eliminar curiosidade, conflito, memória e liberdade, ele corre o risco de destruir justamente aquilo que pretendia salvar.

Por que os silos não podem se comunicar?
A comunicação destruiria a principal mentira do sistema: a ideia de que cada comunidade está sozinha.
Se os habitantes soubessem que existem outros silos, começariam a comparar informações. Descobririam que todos obedecem a versões semelhantes do Pacto, enfrentam as mesmas manipulações e podem ser exterminados pelo mesmo mecanismo. Uma rebelião bem-sucedida deixaria de ser um acontecimento isolado e se transformaria em modelo para as demais.
O Silo 1 precisa monopolizar a comunicação porque informação compartilhada produz solidariedade e solidariedade produz resistência.
O caso do Silo 17 mostra exatamente o perigo. Seus moradores neutralizaram a Salvaguarda interna e conseguiram sair. O Silo 1 precisou recorrer aos drones para impedir que alcançassem outras comunidades. Não bastava matá-los porque haviam desobedecido. Era necessário evitar que provassem aos vizinhos que desobedecer era possível.
Se os silos conversarem, deixam de ser experiências isoladas e podem se transformar numa rede capaz de desafiar o centro de controle. Também comprometem qualquer processo de comparação entre as comunidades. Um laboratório só permanece controlado enquanto seus objetos de estudo não conversam entre si.
Quanto tempo realmente se passou?
A referência mais segura é que aproximadamente 352 anos separam a criação dos silos da história de Juliette. O episódio final, porém, mistura os intervalos de maneira deliberadamente confusa.
Quando vemos Daniel despertar como Troy para lidar com o Silo 17, ele recebe uma referência a sete anos. Isso não significa que apenas sete anos tenham passado desde a explosão. A quantidade de bilhetes nos quais pergunta sobre Helen mostra que Daniel já havia atravessado diversos ciclos de atividade e estase.
Os sete anos provavelmente representam o intervalo desde seu despertar anterior ou sua última missão. Depois do massacre do Silo 17, Troy volta à estase e é acordado 35 anos mais tarde para controlar a crise do Silo 18.
Essa passagem combina com a idade de Solo. Jimmy ainda era menino quando seu silo caiu e agora é um homem de meia-idade. O Silo 18, por sua vez, atravessou muitas gerações antes de chegar a Juliette.
Daniel não foi transformado em Troy uma única vez. Foi despertado, utilizado, novamente submetido ao apagamento e devolvido à estase ao longo de mais de três séculos. O arquivo cheio de perguntas sobre Helen sugere que essa violência precisou ser repetida muitas vezes.

O que aconteceu com Helen e o filho de Daniel?
Sabemos que Helen estava grávida quando foi levada ao Silo 18. Ainda não sabemos se conseguiu dar à luz, qual identidade recebeu depois do apagamento coletivo das memórias, nem o que aconteceu com a criança.
A possibilidade de que seus descendentes ainda estejam no Silo 18 naturalmente conduz a Juliette. Troy observa seu rosto com atenção durante o contato diante da porta, e a série parece querer que reconheçamos alguma coisa naquele olhar. Mas isso ainda não comprova que Juliette seja descendente de Helen e Daniel.
Mais de três séculos se passaram. Mesmo que o filho do casal tenha sobrevivido, muitas famílias poderiam descender dele. Também é possível que a reação de Troy não seja biológica, mas emocional: Juliette pode lembrá-lo de Helen pela maneira de falar, confrontar o poder ou se recusar a aceitar respostas convenientes.
A conexão existe. Sua natureza permanece em aberto.
O que aconteceu com Anna, Thurman e Stensen?
“Troy” mostra que Thurman sobreviveu no Silo 1, assumiu a função de diretora e continuou controlando o Projeto. Victor também atravessou séculos alternando períodos de atividade e estase. Mas a série ainda não esclareceu o destino de Per Stensen, Anna ou Henry.
Anna é especialmente importante porque Thurman poupa Charlotte alegando que ela é necessária para a filha e para o final do Projeto. Isso significa que Anna continuou exercendo alguma influência sobre o sistema e talvez também tenha sido preservada no Silo 1.
Nos livros, algumas dessas funções pertencem a personagens diferentes, e a série redistribuiu relações, responsabilidades e motivações. Por isso, não basta recorrer ao material original. Ainda precisamos saber quem permanece em estase, quem morreu, quem controla o Silo 1 depois de Victor e qual era o papel reservado a Charlotte na conclusão do plano.

O algoritmo é uma inteligência artificial ou uma pessoa?
O final confirma que Victor era a voz que falava com Camille durante a tentativa de ativar a Salvaguarda. Isso explica as hesitações, mudanças de tom e reações emocionais que levaram Bernard a concluir que havia um homem por trás da máquina.
Mas a descoberta não significa que o Algoritmo seja inteiramente falso.
Há claramente um sistema capaz de monitorar conversas, calcular probabilidades, identificar ameaças e orientar os responsáveis pelo Silo 1. A questão é quanto desse poder pertence à inteligência artificial e quanto depende da interpretação humana.
Victor falava em nome do Algoritmo, mas também podia alterar prazos, negociar e tomar decisões. Agora Troy ocupa sua posição. A voz, portanto, pode não ser uma entidade única, mas uma combinação entre tecnologia, protocolo e pessoas que se apresentam como se fossem uma autoridade infalível.
É o velho Mágico de Oz: a máquina impressiona, mas alguém ainda precisa estar atrás da cortina.
O que existe atrás da porta chamada Forward Vault?
A porta encontrada abaixo da escavadeira tornou-se importante demais para ser apenas mais uma saída. O Silo 1 a chama de Forward Vault e reage imediatamente quando Juliette se aproxima. Troy oferece proteção ao Silo 18 em troca de uma única condição: ninguém pode tentar abri-la ou estabelecer contato com outra comunidade.
Isso praticamente confirma que a passagem está ligada à infraestrutura que conecta os silos, ao sistema de controle ou ao próprio caminho para o Silo 1.
Juliette aceita o acordo porque sabe que Troy está ouvindo, mas revela depois que pretende fazer exatamente o contrário. Ela já entendeu que bloquear o cano da Salvaguarda não será suficiente. Enquanto o Silo 1 existir, outra pessoa poderá ocupar o lugar de Victor e tentar exterminá-los.
A porta talvez seja o caminho físico até o inimigo. Pode ser também o acesso à verdade sobre aquilo que o Projeto pretende fazer quando finalmente decidir que o experimento terminou.

E quem é Troy agora?
Essa talvez seja a pergunta mais importante porque já não possui uma resposta simples. Troy é Daniel sem acesso às memórias, aos vínculos e à ética que organizavam sua personalidade. Mas, quando Victor lhe revela o nome de Helen, alguma coisa retorna.
A cena já gravada para a quarta e última temporada leva essa dúvida ao encontro com Juliette. Ela pergunta quem ele é. Troy responde: “Não sei”.
E realmente não sabe.
Não é apenas Daniel, porque carrega os crimes cometidos como Troy. Também já não pode continuar sendo apenas Troy depois de descobrir que sua identidade foi fabricada. Para ajudar Juliette a enfrentar o Silo 1, precisará recuperar a própria história e decidir o que fazer com o homem que se tornou sem ela.
A terceira temporada respondeu quem era Troy. A última terá uma tarefa muito mais difícil: descobrir quem ele escolherá ser.
O Silo 17, por sua vez, respondeu a uma pergunta e abriu outra muito pior. Seus moradores não morreram porque respiraram o ar exterior. Morreram porque descobriram que podiam respirá-lo. Troy não estava protegendo aquelas famílias de um mundo inabitável. Estava protegendo o Projeto de uma humanidade que começava a perceber que já não precisava dele.
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