Em inglês, mayday é o pedido internacional de socorro usado em situações de emergência. Poucas vezes um título foi tão involuntariamente perfeito. Ao longo de quase duas horas, enquanto Ryan Reynolds tenta transformar Top Gun em mais uma extensão de sua persona sarcástica, é difícil pensar em outra coisa: socorro, socorro. O filme não tem química, não tem lógica e, pior, quase nunca tem graça.
Ambientado em 1987, durante a Guerra Fria, Mayday apresenta Reynolds como Troy “Assassin” Kelly, um piloto da Marinha americana tão talentoso quanto indisciplinado. Ele tem o uniforme, o codinome, a insolência e a autoconfiança de Maverick, além daquela facilidade cinematográfica para desobedecer ordens e ainda assim ser considerado indispensável. Durante uma missão secreta no espaço aéreo soviético, no entanto, seu avião é abatido e ele acaba isolado em território inimigo.
Troy é encontrado por Nikolai Ustinov, vivido por Kenneth Branagh, um ex-agente da KGB fascinado pelos Estados Unidos, por sua cultura popular e, especialmente, por Top Gun. Nikolai assiste clandestinamente ao filme numa fita VHS e enxerga naquele piloto americano caído praticamente a materialização de suas fantasias. A partir daí, os dois precisam atravessar a União Soviética, escapar dos agentes que os perseguem e, naturalmente, aprender alguma coisa um com o outro.

Naturalmente, porque conhecemos essa história. Conhecemos as piadas, os conflitos, as perseguições e até as pausas programadas para que dois homens aparentemente opostos descubram que não são tão diferentes assim. Mayday quer ser uma comédia de parceiros dos anos 1980, uma aventura de espionagem, uma sátira da Guerra Fria, um comentário sobre patriotismo e uma homenagem a Top Gun. O problema é que não se compromete verdadeiramente com nenhuma dessas possibilidades.
A referência a Top Gun, aliás, não é apenas uma interpretação. Ela é parte assumida da construção do filme. Os diretores e roteiristas Jonathan Goldstein e John Francis Daley conseguiram autorização de Tom Cruise para usar imagens do clássico de 1986 e contaram com profissionais ligados a Top Gun: Maverick na elaboração das sequências aéreas. O diálogo entre os filmes, portanto, é intencional. E é justamente essa proximidade que torna a comparação tão cruel.
Tom Cruise pode ser muitas coisas, mas sua entrega física produz uma sensação real de risco. Quando Maverick entra em um avião, acreditamos que ele pode morrer ali. Ryan Reynolds oferece outra coisa: o distanciamento permanente de quem precisa mostrar que sabe estar dentro de um filme. Troy pode cair, apanhar, ser perseguido ou correr perigo, mas sempre haverá uma piada pronta para garantir que nada se torne sério demais.
Não diria exatamente que Reynolds pretende se tornar o herdeiro de Cruise. O que Mayday tenta fazer é transformar Maverick em mais um personagem de Ryan Reynolds. Troy carrega todos os sinais exteriores do herói de Top Gun, mas passa pelo mesmo filtro sarcástico que o ator aplica a quase tudo. O resultado é um falso Maverick com os cacoetes de Deadpool, porém sem a energia anárquica, a violência ou a consciência metalinguística que justificam esse humor no universo do anti-herói.
Reynolds já transformou essa persona em uma marca extremamente lucrativa. Ele é o homem bonito que sabe que é bonito, o herói que nunca leva a própria imagem inteiramente a sério e o sujeito que responde a qualquer ameaça com uma observação irônica. Funcionou muitas vezes. Aqui, apenas parece cansado. As piadas chegam antes que qualquer emoção possa se formar e, como quase todas soam familiares, também não provocam surpresa.
Kenneth Branagh deveria oferecer o contraste. Nikolai é excêntrico, habilidoso, sentimental e suficientemente absurdo para permitir ao ator brincar com o próprio prestígio shakespeariano. Branagh se entrega, faz cenas de ação e parece compreender melhor do que todos que está dentro de uma grande bobagem. Ainda assim, não consegue criar sozinho a química que o roteiro pressupõe existir entre os protagonistas.

Parte da crítica internacional enxergou justamente nessa dupla a força do filme. Houve elogios ao contraste entre o sarcasmo de Reynolds e a aparente ingenuidade de Branagh, assim como à leveza das cenas de ação. Outros críticos, porém, apontaram exatamente o problema que Mayday tenta esconder com velocidade: trata-se de uma comédia longa em absurdos e curta em risadas, dependente do carisma dos atores porque o roteiro não oferece o suficiente.
A falta de lógica poderia ser irrelevante se o filme fosse realmente engraçado. Comédias de ação não precisam obedecer rigorosamente às leis da realidade quando criam seu próprio ritmo e nos convencem a acompanhá-las. Mayday, porém, usa o absurdo como atalho. Personagens mudam de posição quando a história precisa, situações impossíveis são resolvidas por conveniência e a Guerra Fria vira apenas um cenário reconhecível, preenchido com referências culturais e caricaturas.
Até a tentativa tardia de dizer alguma coisa sobre patriotismo, propaganda e a semelhança entre pessoas separadas por regimes políticos chega pronta demais. O filme quer questionar a fantasia do herói americano sem realmente abrir mão dela. Troy aprende que amar seu país não significa obedecer cegamente às suas instituições, enquanto Nikolai descobre que o sonho americano talvez nunca tenha sido aquilo que imaginou. Nada disso seria necessariamente ruim se não parecesse uma mensagem colada sobre a aventura depois que todas as piadas já falharam.
Goldstein e Daley, responsáveis por filmes muito mais ágeis e inventivos como A Noite do Jogo e Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes, sabem organizar ação e comédia. Em Mayday, há competência técnica, boas imagens aéreas e algumas perseguições bem executadas. Mas competência não é personalidade. O acabamento pode ser eficiente, mas o filme permanece estranhamente sem sabor, como um produto montado com ingredientes que já funcionaram melhor em outras receitas.
Talvez por isso o título seja tão perfeito. Mayday começa como uma homenagem a Top Gun, tenta se transformar em uma comédia de parceiros e termina pedindo que acreditemos numa emoção que nunca construiu. Ryan Reynolds pilota, Kenneth Branagh se esforça e o filme segue em frente, seguro de que o movimento é o mesmo que a diversão.
Não é. E, quando finalmente aterrissa, a única sensação é de alívio.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
