Fuze parte de uma premissa simples o bastante para caber em poucas linhas e boa o bastante para sustentar um filme inteiro. Em uma obra no centro de Londres, trabalhadores encontram uma bomba da Segunda Guerra Mundial que nunca explodiu. A descoberta obriga as autoridades a evacuar uma enorme área da cidade, mobiliza a polícia e o Exército e transforma ruas normalmente lotadas em um cenário praticamente vazio. Enquanto todos estão concentrados em evitar uma tragédia, outro grupo percebe exatamente a mesma coisa: aquela evacuação é também a cobertura perfeita para um assalto.
Aaron Taylor-Johnson interpreta o major Will Tranter, especialista em desarmamento de explosivos chamado para avaliar a bomba. Do outro lado da operação estão Karalis, vivido por Theo James, e X, personagem de Sam Worthington, envolvidos no golpe que se aproveita do caos para chegar a um cofre. Gugu Mbatha-Raw completa o núcleo principal como a policial Zuzana, acompanhando uma situação que rapidamente começa a parecer muito menos simples do que uma bomba antiga encontrada por acaso.
O diretor é David Mackenzie, escocês que já mostrou em Hell or High Water que sabe muito bem construir tensão em torno de crimes, homens acuados e planos que parecem funcionar perfeitamente até deixarem de funcionar. Aqui, porém, ele não busca a densidade emocional daquele filme. Fuze é muito mais interessado em movimento, mecanismo e surpresa. Seu prazer está em mostrar uma operação, permitir que pensemos ter entendido o que está acontecendo e então revelar que estávamos olhando para apenas uma parte do plano.

E talvez a melhor qualidade do filme esteja justamente na economia. Há relativamente poucos diálogos, pouca preocupação em explicar longamente quem são aquelas pessoas e quase nenhuma tentativa de transformar cada personagem em um estudo psicológico. Mackenzie confia em olhares, deslocamentos, silêncio e montagem. Até a Londres vazia depois da evacuação se torna parte do suspense: sabemos que existe uma bomba sob a cidade, sabemos que existe um assalto em andamento e sabemos, sobretudo, que nem todos ali parecem estar obedecendo ao mesmo plano.
Isso poderia facilmente resultar em personagens rasos. E, em alguma medida, resulta. O roteiro de Ben Hopkins está muito mais interessado na engenharia do golpe do que na vida interior de quem o executa. Só que Fuze tem a inteligência de entregar esses papéis a atores capazes de preencher os vazios.
Aaron Taylor-Johnson trabalha com contenção. Will Tranter é um homem treinado para tomar decisões sob pressão e o ator evita transformar essa competência em exibicionismo. Theo James opera em outra frequência: Karalis tem mais nervo, mais instabilidade e uma energia que o torna imediatamente difícil de ignorar. Sam Worthington talvez seja o exemplo mais extremo da economia do filme. X fala pouquíssimo e passa grande parte do tempo observando, intimidando e fazendo com que a simples presença do personagem sugira que existe algo que ainda não sabemos. Mesmo quando o roteiro oferece pouco, os três fazem parecer que há muito acontecendo por baixo. E há mesmo.
Porque Fuze vive das viradas. O primeiro grande twist reorganiza a própria premissa: aquilo que inicialmente parece ser apenas uma ameaça histórica desenterrada por acidente está ligado de maneira muito mais íntima ao golpe do que imaginávamos. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas se os criminosos conseguirão executar o assalto. Passa a ser quem está realmente executando qual plano.
As alianças começam a se embaralhar. Há interesses escondidos dentro do próprio grupo, informações que chegam tarde demais, traições e uma sucessão de revelações sobre quem está manipulando quem. O filme também brinca com aquilo que está sendo roubado, com o valor real do que está dentro do cofre e com a possibilidade de que exista mais de uma fraude ocorrendo simultaneamente. Quanto mais perto chegamos do final, menos seguro fica acreditar que qualquer personagem esteja exatamente onde parece estar.
Não vale detalhar cada reviravolta porque boa parte da diversão depende justamente dessa descoberta. Mas é importante dizer que Mackenzie não trata os twists como grandes momentos destinados a parar o filme. Eles chegam enquanto tudo continua em movimento. Uma informação muda nossa percepção do que vimos, outra altera as relações entre os personagens e, poucos minutos depois, surge mais uma camada.
É um thriller que prefere surpreender rapidamente a explicar longamente.
Isso também significa que algumas viradas exigem uma generosa suspensão de descrença. Quanto mais o plano é revelado, mais percebemos a quantidade absurda de variáveis que precisariam funcionar exatamente como previsto. Há coincidências, estratégias sofisticadas demais e personagens capazes de antecipar reações com uma precisão quase impossível. Mas Fuze não parece particularmente preocupado em defender sua plausibilidade. Ele quer manter a máquina funcionando. E quase sempre consegue.

A recepção crítica refletiu exatamente esse equilíbrio. O filme ficou em torno de 72% de aprovação no Rotten Tomatoes, com consenso destacando sua energia, estilo e quantidade de reviravoltas; a aprovação do público verificado foi ainda maior, perto de 78%. Críticas mais favoráveis elogiaram o ritmo, a imprevisibilidade e a eficiência de Mackenzie, enquanto as reservas se concentraram justamente na falta de profundidade dos personagens, na implausibilidade de algumas viradas e em um final que nem todos consideraram necessário.
É uma avaliação justa. Fuze não pretende ser Hell or High Water, ainda que venha do mesmo diretor. Não existe aqui a mesma densidade social ou emocional. Há, sim, um thriller compacto de aproximadamente 97 minutos que sabe exatamente quando precisa acelerar e que, na maior parte do tempo, se recusa a desperdiçar minutos com explicações que poderiam interromper a tensão.
Talvez por isso os poucos diálogos funcionem tão bem. O filme não precisa que Aaron Taylor-Johnson, Theo James ou Sam Worthington contem quem são. Basta colocá-los em uma sala, fazer com que se observem e esperar. Sabemos que alguém está mentindo. Sabemos que alguém sabe mais do que deveria. E sabemos que o plano que acreditamos estar acompanhando provavelmente não é o verdadeiro.
Fuze não reinventa o filme de assalto. Mas entende muito bem uma regra básica do gênero: o melhor plano é aquele que o espectador só consegue compreender quando já é tarde demais. E, quando as peças começam finalmente a se encaixar, são os atores que fazem com que até as viradas mais improváveis pareçam funcionar.
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