Elton John e o adeus que o Brasil ainda não tinha visto

Eu vi Elton John no Madison Square Garden em 2012. Quatorze anos depois, já não saberia reconstruir a ordem exata das músicas ou todos os detalhes daquela noite, mas lembro perfeitamente da sensação. Há artistas que admiramos à distância e há aqueles que parecem ter participado da nossa vida inteira. Elton pertence à segunda categoria. Não tem como não amá-lo.

Nesta segunda-feira, 7 de setembro, ele volta ao Brasil para se apresentar no Palco Mundo do Rock in Rio. Será seu único show no país e a primeira visita em quase uma década: a última passagem aconteceu em abril de 2017, quando esteve no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e em São Paulo. No festival, onde já cantou em 2011 e 2015, esta será sua terceira apresentação — e a primeira como a grande atração responsável por encerrar a noite.

A volta poderia causar alguma confusão. Afinal, Elton John não havia se aposentado? Sim e não.

Em julho de 2023, ele encerrou em Estocolmo a monumental Farewell Yellow Brick Road, depois de cinco anos e 330 apresentações. Foi o fim das grandes turnês, não da música e muito menos de Elton John. Aos 79 anos, depois de passar décadas atravessando continentes e fazendo mais de cem shows por ano, ele decidiu deixar a estrada permanente para ficar mais perto do marido, David Furnish, e dos dois filhos. Nunca prometeu que não voltaria a subir em um palco para ocasiões especiais.

O Rock in Rio é uma dessas exceções e também uma espécie de reparação afetiva. O Brasil ficou fora da rota da turnê de despedida, e Elton contou que sentiu ter decepcionado os fãs brasileiros. Aceitou o convite porque queria compensar essa ausência. Não é exatamente uma volta da aposentadoria. É o adeus que ele sentia que ainda nos devia.

Embora a palavra “adeus” também pareça estranha quando aplicada a Elton John. Ele encerrou as turnês, mas continuou compondo, gravando e colaborando com artistas de outras gerações. Em 2025, lançou com Brandi Carlile o álbum Who Believes in Angels? e já concluiu outro trabalho. A aposentadoria, portanto, não significou silêncio. Significou apenas recuperar o direito de escolher quando, onde e por que voltar ao palco.

São 64 anos de carreira profissional, se contarmos desde 1962, quando o adolescente Reginald Dwight entrou para a banda Bluesology. A parceria com Bernie Taupin, uma das mais importantes e longevas da história da música, começou em 1967. O primeiro álbum solo veio em 1969. Desde então, ele atravessou modas, excessos, dependência química, crises pessoais, mudanças na indústria e até a transformação de si mesmo em personagem.

Talvez por isso Rocketman continue sendo, para mim, uma das melhores cinebiografias musicais dos últimos anos. O filme entendeu que não seria possível contar Elton John como se contasse uma vida comum. Em vez de organizar sua história como uma sucessão de datas, discos e grandes sucessos, transforma trauma, solidão, sexo, vício, fama e sobrevivência em fantasia musical.

Taron Egerton não tenta apenas imitá-lo. Ele canta, dança e encontra o menino solitário escondido atrás dos óculos imensos, das plataformas, das plumas e da personalidade colossal. E o filme não santifica Elton nem procura inocentá-lo. Mostra sua crueldade, seus excessos e sua capacidade de ferir os outros e a si mesmo. Mas também compreende que toda aquela extravagância nasceu como uma forma de sobrevivência.

Reginald Dwight criou Elton John antes que o mundo pudesse dizer que não havia lugar para ele. Inventou uma figura maior, mais colorida e mais corajosa do que se sentia. A fantasia não escondia sua verdade: era a maneira que encontrou de revelá-la.

É isso que o torna tão fácil de amar. Não apenas as músicas que atravessaram décadas, casamentos, separações, festas, funerais e momentos que nem sabíamos que guardaríamos. Há nele uma vulnerabilidade que nunca desapareceu por completo, por mais espetacular que fosse o figurino. Elton sempre permitiu que víssemos, por trás do astro, o homem que precisava desesperadamente ser amado.

Quando o vi no Madison Square Garden em 2012, Elton John já era uma lenda. Hoje, 14 anos depois, ele volta ao Brasil tendo conquistado algo talvez ainda mais raro: o direito de não precisar provar absolutamente nada e, mesmo assim, sentar-se diante do piano para nos dar mais uma noite.

As turnês terminaram. A música, felizmente, não. E algumas despedidas existem apenas para que possamos dizer, mais uma vez, o quanto sentiremos falta de alguém que ainda está aqui.


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