Quanto do que somos nasceu conosco e quanto foi construído pela vida? A velha oposição entre nature e nurture, natureza e experiência, parece oferecer duas alternativas, mas a psicanálise nunca tratou a formação de uma pessoa de maneira tão simples. Desde Freud, o sujeito é pensado como resultado de uma combinação entre aquilo que traz consigo e aquilo que encontra no mundo, especialmente nas relações que irão marcá-lo.
É por isso que Silo oferece uma ilustração tão interessante para uma questão que a psicanálise discute há mais de um século. Daniel é submetido a um processo de apagamento de memória e, séculos depois, existe como Troy, ainda capaz de pensar, decidir e solucionar problemas, mas sem acesso consciente a grande parte das experiências e dos relacionamentos que formaram o homem que um dia foi.
O que desapareceu? O que permaneceu? E, principalmente, até que ponto podemos retirar a história de alguém sem alterar aquilo que chamamos de caráter?
Daniel sempre foi um excelente solucionador de problemas. Como engenheiro, veterano e depois na política, conseguia manter a calma sob pressão, pensar rapidamente e encontrar soluções eficientes, muitas vezes pouco convencionais. Troy mantém essas características no Silo 1. Sua inteligência não desapareceu, assim como sua capacidade estratégica e seu pragmatismo.
O que parece ter desaparecido é outra coisa: a história que ensinava Daniel o que fazer com essas capacidades.

Freud e aquilo que nasce conosco
Freud oferece um bom ponto de partida justamente porque não escolhe um dos lados da oposição entre natureza e experiência. Ao falar das chamadas séries complementares, ele pensa a constituição psíquica como resultado da interação entre disposições próprias do indivíduo e acontecimentos de sua história. Não somos uma página em branco sobre a qual o ambiente escreve tudo, mas tampouco chegamos ao mundo como uma personalidade pronta e imutável.
Algumas características de Daniel parecem sobreviver ao apagamento porque fazem parte de uma organização relativamente estável de sua personalidade. Troy ainda pensa como alguém habituado a enfrentar crises, observa rapidamente um cenário, calcula possibilidades e toma decisões, mas o caráter não se resume a essas capacidades.
Durante a vida, Daniel também aprendeu em quem confiar, quando desconfiar, quem proteger, quais autoridades questionar e quais consequências considerar antes de agir. Essas referências nasceram de experiências, relações e escolhas. Sua história não lhe forneceu apenas uma coleção de lembranças; participou da construção do homem que usava sua inteligência.
Essa diferença ajuda a compreender uma das situações mais perturbadoras de Silo: o massacre do Silo 17. Troy é capaz de tomar uma decisão monstruosa mantendo exatamente algumas das qualidades que sempre definiram Daniel, como eficiência, pragmatismo e capacidade de agir sob pressão.
Isso não significa necessariamente que existia um assassino escondido em Daniel, esperando que suas memórias fossem retiradas para finalmente aparecer. A pergunta psicanaliticamente mais interessante é outra: o que acontece quando preservamos determinadas características de uma pessoa, mas retiramos parte da história que lhe dava direção moral?
Troy continua sabendo resolver um problema. O que talvez tenha perdido é aquilo que fazia Daniel perguntar se deveria resolvê-lo daquela maneira.

Winnicott e a continuidade de ser
Donald Winnicott acrescenta uma dimensão fundamental a essa discussão porque nos lembra de que ninguém se constitui sozinho. Para ele, existe uma tendência ao amadurecimento, mas o desenvolvimento do self depende das relações e do ambiente no qual esse processo acontece. A identidade não surge primeiro para, somente depois, encontrar outras pessoas. Nós também nos tornamos quem somos através desses encontros. Essa ideia muda a maneira como podemos pensar a memória.
Nossas relações não são apenas acontecimentos armazenados em algum arquivo mental. Elas participam da formação da pessoa que somos. Amar, ser amado, confiar, sofrer uma perda, sentir-se protegido ou abandonado são experiências que interferem na organização do próprio self. Winnicott utiliza a ideia de uma continuidade de ser, uma sensação de existência que se mantém ao longo do tempo. Há algo muito próximo disso no drama de Daniel.
Daniel possuía uma história que ligava o homem adulto ao jovem que havia sido, às pessoas que amou, às decisões que tomou e às consequências que enfrentou. Essa continuidade permitia reconhecer todas aquelas experiências como pertencentes a uma mesma vida. Troy existe depois da ruptura dessa sequência. Ele não perdeu necessariamente tudo aquilo que Daniel sabia fazer. Perdeu a possibilidade de localizar essas capacidades dentro de uma narrativa sobre si mesmo.
E isso nos leva ao paradoxo mais interessante da memória.
Se nossas lembranças mudam, como podem sustentar nossa identidade?
Gostamos de imaginar nossas lembranças como registros fiéis do passado. Algo aconteceu, o cérebro armazenou e, anos depois, basta abrir a gaveta correta para recuperar aquela experiência. A memória humana é muito menos estável. Relembrar também significa reconstruir. Detalhes desaparecem, novos significados são acrescentados e acontecimentos podem ser reinterpretados ao longo da vida. Podemos compreender aos 50 anos uma situação da infância de maneira completamente diferente daquela que teríamos aos 20. Duas pessoas que viveram o mesmo episódio podem conservar lembranças bastante distintas dele. Ainda assim, dependemos dessas memórias imperfeitas para responder a uma pergunta fundamental: quem sou eu?
Não precisamos recordar cada almoço, cada conversa ou todas as manhãs da nossa infância. Precisamos, porém, de alguma narrativa capaz de estabelecer continuidade entre a criança que fomos, os amores que tivemos, as perdas que sofremos, as decisões que tomamos e a pessoa que acreditamos ser agora. A memória pode ser falha e, mesmo assim, ser essencial para a identidade.
Mas a psicanálise acrescenta algo ainda mais desconcertante a esse paradoxo: podemos ser profundamente marcados por experiências das quais não conseguimos nos lembrar de maneira consciente.

Freud: aquilo que não lembramos também pode permanecer
Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud mostra que aquilo que não aparece como lembrança consciente pode retornar de outras formas. Em vez de recordar, o sujeito pode repetir. Pode agir, reagir, estabelecer relações e reproduzir determinadas posições sem reconhecer imediatamente de onde elas vieram. Esquecer, portanto, não equivale necessariamente a apagar. Uma experiência pode deixar marcas mesmo quando não conseguimos recuperá-la como uma narrativa clara. Essa é uma das ideias que tornam Helen tão interessante em Silo.
Os medicamentos e os procedimentos de Victor Crnkovich aparentemente conseguem bloquear grande parte da memória autobiográfica de Daniel, mas flashes de Helen continuam atravessando esse bloqueio. Mais curioso ainda é que Charlotte não parece produzir a mesma reação. Ashley Zukerman, que interpreta Daniel, descreveu Helen como a centelha capaz de despertá-lo. Para o ator, ela devolveu esperança a Daniel e teria entrado, metaforicamente, em seu “DNA”. Helen obviamente não está inscrita no DNA de Daniel, mas a metáfora é extremamente útil para a psicanálise.
Melanie Klein e as pessoas que carregamos dentro de nós
É aqui que Melanie Klein e a teoria das relações de objeto ajudam a aprofundar a questão. Na linguagem psicanalítica, “objeto” não significa transformar alguém em coisa. O termo se refere àquilo ou àquele para quem se dirige nosso investimento afetivo. As relações significativas da nossa vida não permanecem apenas no exterior; elas são também internalizadas e passam a integrar nosso mundo psíquico. Carregamos representações das pessoas que amamos, tememos, desejamos ou perdemos. Esses vínculos internos participam da maneira como interpretamos o mundo, estabelecemos novas relações e compreendemos a nós mesmos.
Helen, então, pode ser pensada não apenas como uma mulher de quem Daniel possui lembranças, mas como alguém cuja relação participou da própria organização de sua vida psíquica. Isso ajuda a explicar por que o apagamento de uma lembrança consciente talvez não seja suficiente para eliminar os efeitos de um vínculo. Daniel pode não conseguir inicialmente dizer quem Helen é, reconstruir a história dos dois ou explicar por que aquele rosto provoca nele determinada reação. Ainda assim, alguma coisa responde.
O afeto parece chegar antes da narrativa. É possível esquecer conscientemente uma pessoa e continuar carregando aquilo que a relação com ela produziu em nós? Essa é talvez uma das perguntas mais bonitas que Silo faz sem precisar formulá-la diretamente.

Charlotte pertence à história de Daniel e certamente participa de sua vida afetiva, mas Helen parece ocupar um lugar diferente. Ela está ligada não apenas a acontecimentos do passado, mas ao homem que Daniel se tornou, à esperança que recuperou, ao futuro que imaginou e ao sentido que passou a atribuir à própria existência.
Algumas pessoas fazem parte de nossa história. Outras participam da construção de quem somos.
Quando uma palavra reorganiza o passado
Por isso, o momento em que Victor diz a Daniel o nome “Helen” é tão importante. Até então, há fragmentos, imagens e sensações que ele não consegue integrar. Existe alguma coisa familiar, mas sem um lugar definido dentro de uma narrativa. O nome fornece uma ligação.
Aqui, Lacan pode ser útil sem precisar transformar a discussão em uma longa incursão por sua teoria. O nome funciona como significante, algo capaz de organizar e relacionar elementos anteriormente dispersos. Helen deixa de ser apenas um rosto que provoca uma sensação inexplicável: ela volta a ser alguém.
A partir dali, Daniel pode começar a estabelecer conexões. Aquela mulher tem um nome; aquele nome pertence a alguém que ele conheceu; aquela pessoa pertence a uma história, e aquela história pertence ao homem que existia antes de Troy.
Talvez recuperar uma identidade não seja simplesmente recuperar arquivos perdidos. Pode-se conseguir novamente estabelecer relações entre os fragmentos da própria experiência.
“Eu não sei quem sou”
Por isso, a frase que Daniel pronuncia diante de Juliette no trailer da quarta temporada é tão significativa: “I don’t know who I am”. Ele não diz apenas que não consegue se lembrar de quem era. Diz que não sabe quem é. A diferença entre essas duas afirmações resume grande parte da questão psicanalítica.
“Não lembro” diz respeito à memória. “Não sei quem sou” coloca em dúvida a própria continuidade do sujeito. E é nesse ponto que o experimento de Silo se torna muito mais interessante do que a fantasia tecnológica de apagar memórias. Se retirássemos de alguém todas as lembranças conscientes de sua história, essa pessoa continuaria sendo ela mesma?
Freud provavelmente nos impediria de escolher simplesmente entre natureza e experiência. Winnicott lembraria que o self se constituiu nas relações e depende de uma continuidade. Klein mostraria que as pessoas importantes de nossa vida também passam a fazer parte do nosso mundo interno. A resposta, portanto, talvez seja ao mesmo tempo sim e não.

Troy mantém aspectos de Daniel. Sua inteligência continua ali, assim como seu raciocínio estratégico e determinadas características de personalidade. Mas o homem que utilizava essas capacidades foi construído também por experiências, perdas, escolhas e vínculos. Apagar as lembranças pode interromper sua narrativa, mas talvez não seja suficiente para eliminar todas as marcas deixadas por aquilo que viveu.
Esse é o paradoxo da memória: esquecemos muito do que vivemos e, ainda assim, continuamos sendo modificados por aquilo que esquecemos. O Silo 1 conseguiu apagar grande parte da autobiografia de Daniel. O que ainda não sabemos é se alguém consegue realmente apagar aquilo que uma vida inteira fez de uma pessoa.
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