Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
A carta enviada em nome do rei Charles para reafirmar que Harry e Meghan continuam fora da monarquia ativa parece apenas repetir o que já estava estabelecido desde 2020. O timing, porém, é significativo: o documento chega justamente quando o RAVEC, comitê responsável pela proteção da família real e de figuras públicas, volta a avaliar a segurança dos Sussex no Reino Unido.
A presença da Casa Real no RAVEC sempre foi um dos pontos mais delicados da batalha de Harry. O comitê reúne representantes do Ministério do Interior, da polícia e do Palácio. O príncipe afirmou que só compreendeu plenamente seu funcionamento depois de perder a proteção automática e ter acesso, durante os processos judiciais, aos documentos relacionados à decisão.
Após sua última derrota na Justiça, em maio de 2025, Harry disse que não esperava uma interferência direta do pai, mas que Charles poderia “se afastar e deixar os especialistas fazerem seu trabalho”. Segundo ele, a Casa Real teria influenciado uma decisão que deveria considerar essencialmente o risco enfrentado por sua família. O Palácio rejeitou essa interpretação e sustentou que qualquer intervenção do rei seria constitucionalmente imprópria.
Como quase tudo envolvendo Harry, o argumento é contraditório. Ele deixou de trabalhar para a Coroa, mas continua sendo príncipe, filho do rei, veterano de guerra e alvo de ameaças. Para ele, sua segurança deveria ser avaliada a partir dos riscos que acompanham essa identidade, e não apenas de sua função institucional. O sistema, porém, sempre atribuiu grande peso ao fato de ele não representar mais oficialmente a monarquia.
A questão também não se resume a Harry querer que o governo pague seus guarda-costas. No Reino Unido, seguranças particulares não podem portar armas nem têm acesso às mesmas informações de inteligência que a polícia. Ele chegou a se oferecer para pagar pela proteção policial, mas a Justiça decidiu que esse serviço do Estado não pode ser comprado por um cidadão particular.
Depois de perder a batalha judicial, Harry mudou de estratégia. Em outubro de 2025, escreveu à ministra do Interior pedindo uma avaliação completa de risco. Em dezembro, o RAVEC autorizou uma nova análise, reunindo informações da polícia, dos serviços de segurança e da equipe do príncipe. Também foram apresentados registros de ameaças e incidentes ocorridos durante suas visitas ao país.
É por isso que sua volta pode ter uma dimensão estratégica. Enquanto Harry vivia nos Estados Unidos e fazia viagens ocasionais, sua proteção podia ser decidida caso a caso. Agora, com residência, rotina familiar e os filhos matriculados numa escola britânica, ele elimina qualquer argumento de que permanece pouco tempo no país para justificar um esquema contínuo.
A mudança não prova que a segurança seja a única razão da volta. Há o desejo de aproximar os filhos do avô e dos primos, além do possível projeto sobre Diana. Mas, na minha leitura, a proteção não é apenas uma consequência dessa decisão. Pode ser uma de suas principais causas.
Agora, o Risk Management Board precisa determinar se o nível de ameaça justifica proteção policial permanente ou, pelo menos, mais ampla do que o sistema atual. Sua recomendação será examinada pelo RAVEC. Nenhuma resposta foi divulgada até o momento e o comitê deve discutir o caso ainda esta semana, embora o governo possa não revelar publicamente os detalhes da conclusão. The Guardian
Nesse contexto, a carta do rei ganha outro peso. Ela não decide o caso, mas reafirma, às vésperas da reunião, que Harry e Meghan não representam a Coroa e devem ser tratados como cidadãos particulares. O risco pessoal do príncipe não desaparece por causa disso, mas o vínculo entre proteção automática e serviço oficial continua sendo seu principal obstáculo.
Harry fez tudo o que estava ao seu alcance fora dos tribunais: pediu uma nova avaliação, apresentou as ameaças, voltou ao país e transformou visitas esporádicas em residência familiar. Se essa foi uma das razões da mudança, ele tentou eliminar a distância como argumento contra sua proteção. A resposta ainda não veio. E a carta de Buckingham, ao repetir que “nada mudou”, reacende justamente seu maior medo: reorganizar a vida da família na Inglaterra e, ainda assim, não conquistar aquela que seria sua grande vitória pessoal.
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