Foram necessários apenas alguns tweets para que uma torcida de Gary Oldman se transformasse na “confirmação” de que Jack Lowden será o novo James Bond. É bastante típico dos nossos dias, nos quais uma frase perde o contexto, ganha velocidade e, em questão de minutos, deixa de ser o que alguém realmente disse para se transformar no que todos gostariam de ter ouvido.
Quando perguntaram a Oldman sobre a possibilidade de seu colega de Slow Horses assumir o papel, ele disse que, pelo que entendia, a escolha já havia sido feita, embora ainda não anunciada, e que esperava que o escolhido fosse Jack Lowden, apontado como um dos nomes da lista. Não revelou uma informação secreta, não confirmou o ator e muito menos disse que Jack havia assinado contrato. Apenas juntou o que circula nos bastidores e declarou sua torcida. Bastou.

Seria sensacional se ele estivesse certo. Há muito tempo Jack Lowden aparece nas minhas listas de candidatos ao papel, porque a escolha de um novo 007 é uma espécie de busca por Scarlett O’Hara de calças. Sempre que a vaga se abre, praticamente todos os atores britânicos dentro da faixa etária considerada adequada entram na conversa. Coincidentemente, ou não, muitos deles logo aparecem em filmes e séries de ação, vestidos com ternos impecáveis, correndo, lutando ou segurando uma arma, e o imaginário coletivo completa o restante: meu Deus, ele seria um ótimo James Bond.
Jack está nessa leva atual e tem várias das características que fazem sentido para o novo momento da franquia. Aos 36 anos, é jovem o bastante para sustentar o papel por uma década, cometer erros e construir uma versão própria do agente, mas maduro o suficiente para que Bond não pareça um garoto brincando de espionagem. A demora foi tão grande que vários antigos favoritos passaram dos 40 e, de repente, ficaram “velhos” para um compromisso que pode consumir boa parte da carreira de um ator.
Essa espera não aconteceu apenas por indecisão. A Amazon pagou US$ 8,45 bilhões pela MGM, negócio concluído em 2022, mas a compra não lhe deu automaticamente o comando criativo de 007. Esse permanecia nas mãos de Barbara Broccoli e Michael G. Wilson. Em 2025, um novo acordo, estimado em mais de US$ 1 bilhão, criou uma joint venture e entregou à Amazon MGM o controle criativo da franquia, embora os direitos de propriedade intelectual continuem compartilhados. Depois de 64 anos sob a tutela da família responsável pelos filmes oficiais desde Dr. No, James Bond entrou em uma era completamente diferente.
O próximo 007 será o primeiro dessa nova fase, produzido sob outra lógica e pensado para novas gerações, incluindo um público formado por games, streaming e universos que se multiplicam em várias plataformas. Denis Villeneuve está na direção, Steven Knight escreve o roteiro e Amy Pascal e David Heyman assumiram a produção. Há uma liberdade inédita, mas também uma pergunta inevitável: sem os Broccoli decidindo o que Bond poderia ou não ser, o que continuará fazendo dele James Bond?
É justamente por isso que Jack Lowden seria uma escolha tão interessante. Para quem acompanha Slow Horses — uma nação ainda um pouco nichada, mas que cresce a cada temporada — existe uma ironia deliciosa nessa possibilidade. A série é praticamente o anti-James Bond. Sua assinatura está em desmontar o glamour da espionagem britânica, trocar carros luxuosos e hotéis cinco estrelas por escritórios imundos, agentes fracassados, burocracia, ressaca, erros e consequências. Se Bond vendeu ao mundo a fantasia do espião impecável, Slow Horses mostra o que acontece quando a fantasia acaba e sobra apenas o trabalho.
Foi nessa série que acompanhamos Jack crescer diante de atores extraordinários, especialmente Gary Oldman. Estar ombro a ombro com ele não é fácil, mas Jack sustenta as cenas e frequentemente vai além. River Cartwright é competente, impulsivo, ambicioso, frustrado e ainda incapaz de aceitar que talvez não seja o herói que imaginou. Em outras palavras, Lowden já mostrou que pode interpretar um agente cheio de potencial sem transformá-lo em uma figura lisa ou previsível. Seria muito engraçado, e quase perfeito, se o futuro James Bond saísse justamente da série criada para desmontar James Bond.

Há ainda a herança escocesa. Lowden nasceu na Inglaterra, mas cresceu na Escócia e se identifica como escocês, como Sean Connery. Skyfall reforçou a origem familiar escocesa de Bond, portanto ele estaria praticamente em casa. É loiro, sim, mas Daniel Craig já encerrou essa discussão há vinte anos. E, convenhamos, Roger Moore também estava longe de ser um morenaço. A resistência purista ao Bond loiro já foi devidamente enterrada.
O problema é que Gary Oldman pode ter ajudado demais. Em uma escolha cercada por sigilo, qualquer candidato que passe a parecer confirmado antes da hora corre o risco de se tornar inconveniente. Até pouco tempo, Aaron Taylor-Johnson era tratado como favorito absoluto. Houve notícias de que recebera uma proposta e rumores de que o anúncio seria apenas uma questão de tempo. Então veio a etapa final da disputa pelo controle da franquia, os Broccoli saíram da condução criativa e o suposto acerto desapareceu.
Aaron era a escolha dos Broccoli e foi descartado pela Amazon? Era uma preferência da Amazon interrompida enquanto o acordo não se resolvia? Nunca saberemos. O episódio, porém, mostra como ser apontado cedo demais como o novo James Bond não significa necessariamente tornar-se James Bond.
É esse o meu único receio agora. Jack Lowden parece tão perfeito para o papel, e a torcida ganhou tanta força depois das palavras de Gary Oldman, que o favoritismo pode acabar funcionando contra ele. Por enquanto, o que temos é apenas isso: uma escolha que, segundo Oldman, talvez já tenha sido feita, um ator que estaria entre os considerados e uma torcida que levou dois tweets para transformar desejo em notícia.
Tomara que, desta vez, o rumor tenha acertado o alvo.
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