Quando o destino é repetição: a psicanálise de Da Magia à Sedução

Por que algumas histórias parecem se repetir dentro de uma família? Mudam as gerações, os parceiros e as circunstâncias, mas certas perdas, conflitos e formas de sofrimento retornam como se obedecessem a uma espécie de maldição. É comum escutarmos que “todas as mulheres dessa família escolhem homens errados”, que “os homens sempre vão embora” ou que “ninguém ali consegue ser feliz no amor”. Depois de algum tempo, aquilo que começou como uma experiência passa a ser tratado como destino.

A psicanálise oferece outra possibilidade de leitura. Talvez não exista uma força sobrenatural conduzindo os acontecimentos, mas uma história inconsciente que continua sendo repetida porque ainda não pôde ser reconhecida e elaborada. É justamente isso que Da Magia à Sedução e sua continuação ajudam a tornar visível.

Na história, as mulheres da família Owens estão condenadas a perder qualquer homem que amem. A maldição começou em 1620, quando Maria Owens, grávida e abandonada pelo homem que amava, lançou um feitiço para nunca mais sentir aquela dor. O que deveria protegê-la transformou-se em uma condenação para suas descendentes: amor e morte passaram a caminhar juntos.

A fantasia é mágica, mas o mecanismo é profundamente humano. Maria tenta evitar que suas descendentes vivam o mesmo abandono e, sem perceber, transforma seu trauma em herança. Aquilo que nasceu como proteção passa a organizar a vida de todas as mulheres que vieram depois dela.

Como uma história familiar atravessa gerações?

Uma família não transmite apenas características físicas, bens ou sobrenomes. Também transmite maneiras de amar, de temer, de interpretar o mundo e de reagir ao sofrimento. Algumas dessas mensagens são declaradas. Outras aparecem em silêncios, proibições, expectativas e comportamentos que ninguém consegue explicar completamente.

Uma mulher abandonada pode ensinar à filha que não se deve confiar nos homens. Uma família que enfrentou grandes perdas pode tratar qualquer separação como ameaça. Pais que precisaram amadurecer cedo podem exigir autonomia excessiva dos filhos. Nem sempre essas mensagens são transmitidas em palavras. Muitas vezes, aparecem no modo como os adultos se relacionam, no que evitam, no que temem e naquilo que tentam controlar.

A geração seguinte recebe essa história antes mesmo de compreender que ela existe. Isso não significa que esteja condenada a repeti-la, mas ajuda a explicar por que determinadas escolhas parecem tão naturais. O familiar não é necessariamente aquilo que nos faz bem. É apenas aquilo que reconhecemos.

Em Practical Magic, as descendentes de Maria Owens crescem sabendo que amar representa um perigo. Cada mulher encontra uma maneira particular de responder à ameaça, mas nenhuma começa do zero. A maldição já estava presente antes de seu nascimento, assim como acontece com crenças, expectativas e conflitos em qualquer família.

O que é determinismo psíquico?

O determinismo psíquico parte da ideia de que os acontecimentos da vida mental possuem causas. Esquecimentos, atos falhos, sintomas, fantasias e escolhas não surgem de um vazio. Mesmo quando não compreendemos por que agimos de determinada maneira, pode existir uma lógica inconsciente orientando nossas decisões.

Isso não significa que tudo esteja decidido desde a infância ou que não tenhamos liberdade. Determinismo psíquico não é predestinação. Nossa história nos influencia, mas não precisa nos aprisionar para sempre. A possibilidade de reconhecer o que nos determina pode ampliar nossa liberdade diante daquilo que antes simplesmente se repetia.

A maldição das Owens representa esse determinismo de maneira quase literal. As mulheres acreditam que uma força externa condena seus relacionamentos, mas a expectativa da perda também interfere na maneira como amam. Se amar significa perder, é possível evitar vínculos, escolher pessoas indisponíveis, abandonar antes de ser abandonada ou permanecer em relações destrutivas porque o sofrimento já era esperado.

Cada nova perda parece confirmar que a maldição existe. Ao mesmo tempo, a crença na maldição ajuda a manter todas elas presas ao mesmo enredo.

Sally e Gillian: duas respostas ao mesmo medo

Sally e Gillian crescem sob a mesma ameaça, mas desenvolvem estratégias opostas. Sally tenta controlar o amor. Ainda criança, cria um feitiço para que só possa se apaixonar por um homem com características tão improváveis que ele jamais existiria. Se não amar, imagina, não perderá ninguém.

Gillian reage de outra maneira. Ela deseja apaixonar-se, foge de casa e procura relacionamentos intensos, como se pudesse viver tudo antes que a perda inevitável aconteça. Sally evita o desejo; Gillian mergulha nele. Uma busca segurança, a outra confunde liberdade com risco. As duas, no entanto, continuam organizando suas escolhas em torno da mesma fantasia.

É importante esclarecer que Gillian não escolhe sofrer a violência de Jimmy Angelov. A responsabilidade pelo abuso pertence a quem o pratica. A questão psicanalítica não é culpar a vítima, mas perguntar por que o perigo pôde inicialmente ser confundido com paixão e liberdade. Certas situações nos atraem não porque desejamos sofrer, mas porque apresentam algo estranhamente conhecido.

Sally também não consegue escapar da história familiar. Ela se apaixona, perde o primeiro marido e, ao final do filme original, acredita ter uma nova oportunidade com Gary. A união das irmãs, o exorcismo de Jimmy e a aceitação das Owens pela comunidade produzem a sensação de que a maldição foi quebrada. A continuação revela que não foi tão simples. Sally sofre outra perda amorosa e aparece novamente sozinha.

Diante do medo de que as filhas vivam o mesmo sofrimento, ela apaga delas o conhecimento da magia e esconde a verdade sobre a família. Seu gesto pretende protegê-las, mas repete a lógica de Maria Owens: tentar controlar o amor e a dor por meio de uma proibição.

O silêncio também transmite

Sally parece acreditar que, se Kylie e Antonia (suas filhas) não souberem da maldição, poderão escapar dela. O problema é que aquilo que não é contado não deixa de agir. Um segredo familiar pode aparecer como angústia, sensação de perigo, comportamento inexplicável ou repetição que ninguém consegue relacionar ao passado.

Na continuação, as filhas descobrem que foram privadas de uma parte fundamental da própria história. Kylie se apaixona e percebe que a maldição alcançou sua geração. No romance The Book of Magic, de Alice Hoffman, seu namorado, Gideon, sofre um grave acidente depois que os dois finalmente declaram seu amor. Para tentar salvá-lo, ela viaja à Inglaterra em busca da origem de um livro capaz de desfazer a maldição.

Kylie e Antonia não repetem exatamente Sally e Gillian, porque a transmissão psíquica não produz cópias. Cada pessoa responde à herança familiar de uma maneira singular. Às vezes, alguém tenta ser completamente diferente dos pais e descobre que continua organizando a vida em oposição a eles. A repetição pode aparecer pelo avesso.

Se uma filha faz tudo o que a mãe fez, a continuidade é evidente. Se passa a vida tentando não se parecer com ela, a mãe ainda pode ocupar o centro de suas escolhas. A diferença existe, mas não representa necessariamente liberdade.

O que é neurose de destino?

Freud observou que algumas pessoas atravessam repetidamente experiências muito semelhantes. Mudam os parceiros, os empregos e as cidades, mas chegam outra vez ao abandono, à traição, ao fracasso ou à perda. Como não reconhecem a lógica inconsciente que participa dessas escolhas, sentem-se perseguidas por uma fatalidade externa.

É o que ficou conhecido como neurose de destino. Não significa que alguém provoque conscientemente as próprias tragédias ou seja responsável pela violência que sofreu. Significa que existe uma repetição tão persistente que ela começa a parecer obra do destino.

A compulsão à repetição nos leva a retornar a conflitos que não puderam ser elaborados. Inconscientemente, tentamos produzir um final diferente para uma história diante da qual, em outro momento, fomos impotentes. O problema é que, enquanto não reconhecemos o que estamos repetindo, podemos acabar reconstruindo as mesmas condições que levaram ao sofrimento anterior.

As mulheres Owens atravessam séculos tentando responder à mesma pergunta: seria possível amar sem perder? Sally evita, Gillian arrisca, Kylie procura respostas na magia. Todas tentam encontrar outra saída, mas partem da mesma associação entre amor e morte.

Por que as irmãs precisam se unir novamente?

Para quebrar a maldição, Sally e Gillian precisam se unir mais uma vez. Na nova geração, Kylie e Antonia também terão de encontrar juntas uma maneira de lidar com aquilo que receberam. Não se trata apenas de uma repetição criada para explorar a nostalgia do primeiro filme. A união das irmãs representa uma possibilidade de elaboração.

Traumas familiares nascem e circulam dentro dos vínculos. Por isso, muitas vezes, também precisam ser reconhecidos dentro de novas relações. Quando uma experiência deixa de ser um segredo individual e encontra palavras, escuta e testemunho, ela pode adquirir outro significado.

No primeiro filme, Sally só consegue salvar Gillian quando chama outras mulheres para ajudá-las. A comunidade que antes julgava as Owens entra no círculo. Aquilo que era vivido como vergonha privada torna-se uma experiência compartilhada. Na continuação, a família precisa chegar à origem da maldição e transmitir às filhas o conhecimento que Sally tentou esconder.

Uma família, porém, não transmite somente traumas. Também transmite recursos, afetos, conhecimentos e formas de cuidado. Se a maldição atravessou gerações, a capacidade das Owens de se reunirem para proteger umas às outras também atravessou. A repetição não precisa conduzir sempre ao mesmo final.

As atrizes e a fantasia de reescrever uma história

Há um paralelo delicado entre as personagens e as atrizes que voltam a interpretá-las. Quando Nicole Kidman fez o primeiro filme, ainda era casada com Tom Cruise. A separação aconteceria alguns anos depois. Durante a produção da continuação, ela encerrava outro casamento, dessa vez com Keith Urban, depois de quase duas décadas.

Sandra Bullock retornou a Sally depois de viver uma perda ainda mais dolorosa. Bryan Randall, seu companheiro desde 2015, morreu em 2023, após enfrentar a esclerose lateral amiotrófica. Os dois não eram legalmente casados, portanto, ela não ficou viúva no sentido formal, mas perdeu aquele que considerava seu grande parceiro e se afastou do cinema durante o luto.

Não podemos afirmar que Nicole e Sandra escolheram voltar a Practical Magic para elaborar suas próprias histórias amorosas. Isso transformaria uma coincidência simbólica em diagnóstico. Mas podemos fantasiar sobre o que significa retornar, quase 30 anos depois, às personagens que associam amor, separação e morte.

A compulsão à repetição não consiste apenas em reproduzir o sofrimento. Ela também pode expressar uma tentativa de voltar a determinada história para encontrar outra resposta. Pela magia do cinema, Nicole e Sandra reencontram Sally e Gillian mais velhas, depois de terem vivido suas próprias despedidas. Voltam ao mesmo cenário, mas já não são as mesmas mulheres. Em algum nível, podem reviver aquela história e, desta vez, participar da construção de outro final.

Quando a cultura também repete e transforma

O próprio Practical Magic passou por um movimento parecido. Em 1998, o filme teve uma recepção dividida e um desempenho modesto nos cinemas. Bullock conta que ficou traumatizada com a divulgação, marcada por críticas que consideravam a produção excessiva: mulheres demais, bruxas demais, tons demais.

Durante anos, ela carregou vergonha por um filme que acreditava não ter funcionado. Até que uma nova geração o encontrou, principalmente pelas redes sociais, e transformou aquilo que havia sido recebido com estranhamento em um clássico cult. O filme não mudou, mas o olhar dirigido a ele mudou.

A palavra “bruxa” também foi ressignificada. Durante séculos, serviu para perseguir mulheres consideradas inconvenientes, indomáveis ou perigosas. Hoje, muitas reivindicam o termo como expressão de identidade e autonomia. Aquilo que produzia vergonha pode perder parte de seu poder quando recebe outro nome e outro significado.

Antes de fazer a continuação, Bullock reviu o primeiro filme com seus filhos e os amigos deles. Queria enxergar a história pelos olhos de uma geração que não carregava a rejeição de 1998. O gesto combina perfeitamente com a questão psicanalítica: para transmitir uma história de outra maneira, também é preciso escutar quem irá recebê-la.

Romper o ciclo não é apagar o passado

A psicanálise não promete eliminar o passado, impedir toda repetição ou evitar novas perdas. Seu trabalho é permitir que aquilo que conduzia o sujeito sem ser reconhecido possa finalmente ser relacionado à própria história.

Um trauma não desaparece porque foi enfrentado uma vez. A mesma questão pode retornar em outra fase da vida e exigir uma nova elaboração. Por isso, o fato de a maldição reaparecer na continuação não invalida o que Sally e Gillian conquistaram no primeiro filme. Elas venceram uma manifestação da história familiar, mas ainda não chegaram à sua origem.

Romper um ciclo também não significa deixar de receber uma herança. Isso seria impossível. Significa reconhecer o que nos foi transmitido para que possamos decidir o que fazer com isso. Kylie e Antonia herdam a magia, as perdas e os segredos das Owens, mas também recebem a união, a resistência e o conhecimento das mulheres que vieram antes delas.

Talvez a maldição nunca tenha sido apenas a morte dos homens amados. Sua força estava também na certeza de que todas as mulheres da família estavam condenadas a repetir o sofrimento de Maria. Ao esconder a história, Sally manteve essa certeza intacta. Para transformá-la, será preciso voltar ao começo, compreender como uma defesa contra o abandono se tornou uma prisão e permitir que a nova geração encontre outra maneira de amar.

O destino, nesse sentido, não é necessariamente aquilo que nos espera. Muitas vezes, é o nome que damos a uma história que continuamos repetindo porque ainda não conseguimos reconhecê-la. Romper a maldição não é apagar o que veio antes de nós, mas impedir que o passado continue escolhendo sozinho o nosso futuro.


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