Disseram que ele não vinha, olha ele aí! Ai, Ai, Caramba! Jamie Tart! Nas palavras de Jorge Benjor: E como já dizia Galileu na Galileia, malandro que é malandro não bobeia. Quando fizeram alarde de que Phil Dunster, que está na série Rooster, “não voltaria para a 4ª temporada”, achei esquisito. Como excluir ao menos uma ponta de seus personagens mais queridos?
O episódio 6 da quarta temporada de Ted Lasso, “Don’t Jump Around Much Anymore”, escolhe a virada do ano para reunir praticamente todas as questões emocionais deixadas em suspenso. Algumas avançam, outras recuam e pelo menos uma continua girando em círculos há tempo demais. Ainda assim, é provavelmente o episódio mais divertido desta temporada, especialmente porque traz de volta alguém cuja ausência deixou um buraco maior do que imaginávamos: Jamie Tartt.

A trama se divide entre as comemorações das Lady Greyhounds, a convivência novamente íntima entre Ted, Michelle e Henry e a vida amorosa cada vez mais confusa de Rebecca, Keeley e Roy. O futebol praticamente sai de cena, mas a pergunta central da temporada continua presente: como pertencer a um grupo quando você está convencido de que ninguém realmente deseja a sua presença?
Essa pergunta pertence sobretudo a Alice Chilton. Depois da suspensão provocada pelo desastre contra o Chelsea, ela tenta se aproximar da equipe e, por alguns momentos, consegue. Fora do ambiente profissional, mais relaxada e vestida para a festa, vemos uma Alice capaz de brincar, dançar e baixar minimamente a guarda. Sua conversa com Gemma no barco parece finalmente abrir um caminho entre as duas, com uma tensão emocional que talvez seja ainda mais complexa do que a rivalidade profissional apresentada até agora.
O problema é que Alice não sabe receber afeto sem desconfiar dele. Quando parece pronta para acreditar que é querida, interpreta a aproximação como pena ou mera tolerância e destrói o que acabara de construir. É frustrante, mas coerente. A série não a “cura” em um episódio porque a insegurança não desaparece apenas quando outras pessoas afirmam gostar de nós. Quando alguém passou tempo demais esperando ser rejeitado, qualquer gesto de carinho pode parecer uma armadilha. Alice dá dois passos adiante e imediatamente encontra uma forma de recuar.

A festa das jogadoras, por sua vez, começa como uma celebração de Ano-Novo e se transforma em algo próximo de uma versão de De Olhos Bem Fechados organizada por Zelda, cuja excentricidade começa a assumir contornos francamente assustadores. Quando ela saca uma arma e dispara, Higgings conclui, corretamente, que chegou a hora de ir embora. A fuga coletiva das jogadoras daquele espetáculo de ricos tratando outras pessoas como brinquedos reforça que Zelda não está sendo construída apenas como uma mulher poderosa e extravagante. Há algo mais perigoso nela, e Rebecca provavelmente estava certa em desconfiar desde o início.
Enquanto isso, Ted passa a virada com Michelle e Henry. Há afeto entre eles e existe uma história que nenhum divórcio pode apagar, mas não vejo essa convivência como simplesmente madura, bonita ou saudável. Já escrevi sobre o quanto essa amizade entre Ted e Michelle pode ser cruel, porque preserva a intimidade, o carinho e até a estrutura emocional do casamento, enquanto deixa Ted no lugar de porto seguro de uma mulher que escolheu seguir a vida sem ele.
Michelle continua recorrendo ao vínculo que os une e ocupando o lugar de quem o conhece melhor, mas sem assumir a responsabilidade afetiva que acompanhava essa intimidade. Amizade e carinho são uma coisa. O que ela faz com Ted é outra. Ela conserva tudo o que lhe oferece conforto, enquanto ele precisa administrar a esperança que essa proximidade inevitavelmente alimenta.

A série também volta diretamente à controversa relação de Michelle com o Dr. Jacob. Ted finalmente verbaliza o que parte do público aponta desde a terceira temporada: Jacob ocupava uma posição de poder como terapeuta e atravessou um limite ético gravíssimo ao se relacionar com uma antiga paciente. Michelle explica que foi ela quem o procurou durante um período de vulnerabilidade porque queria alguém que já soubesse como ela era e conhecesse seus problemas.
Isso explica sua aproximação, mas não isenta nenhum dos dois. Jacob tinha uma responsabilidade profissional muito maior e jamais deveria ter transformado o conhecimento adquirido como terapeuta em intimidade amorosa. Michelle, porém, não deixa de ter responsabilidade pelas próprias escolhas apenas porque estava fragilizada. A série tenta corrigir retroativamente uma trama que provocou enorme rejeição, mas termina apenas oferecendo uma justificativa que não funciona.
Também há uma revelação delicada na história do cartaz com a palavra “Believe”. Ao preparar um novo para Ted, Michelle sugere que foi ela quem criou o original, ainda no começo da trajetória dele como treinador. A placa que se transformou no símbolo de Richmond nasceu, portanto, dentro daquele casamento. Ted levou para a Inglaterra não apenas sua filosofia como técnico, mas algo que Michelle havia construído para ele.
O novo cartaz, agora com as cores invertidas, pertence a outro momento. Ainda assim, o gesto também reforça o vínculo simbólico que dificulta uma separação emocional completa. É quase como se Michelle quisesse continuar sendo a mulher que melhor compreende Ted, mesmo sem querer continuar sendo sua mulher.


Por isso, o verdadeiro avanço não está em uma possível reconciliação, mas na recusa dessa fantasia. Ted e Michelle não se beijam à meia-noite, ainda bem, e a relação entre eles parece finalmente encontrar um limite. Ted está aberto a tentar novamente com outra pessoa. Depois do encontro com a personagem de Charlotte Riley no episódio anterior, essa possibilidade deixa de parecer apenas um flerte passageiro e passa a representar uma saída emocional. Ele não precisa apagar sua história com Michelle, mas precisa deixar de permanecer disponível para uma relação que sempre existiu nos termos dela.
Rebecca também começa a noite tentando esconder o quanto sente falta de Matthijs. O afastamento entre os dois ainda pesa, até que ele reaparece de surpresa. A reconciliação culmina no beijo da meia-noite, embora nem mesmo esse momento possa acontecer sem que Jamie Tartt se coloque literalmente entre eles. Ainda assim, insisto: há algo profundamente creepy e constrangedor na relação de Rebecca e Matthijs. Ele se comporta como um stalker que sente prazer em “surpreendê-la”, e são muitas red flags para simplesmente ignorar.
A volta de Jamie é a melhor coisa do episódio. Durante meses, a divulgação da quarta temporada explorou a notícia de que Phil Dunster não retornaria como integrante regular do elenco, levando o público a acreditar que o personagem estaria completamente ausente. Tecnicamente, não mentiram, mas protegeram muito bem a surpresa.
Agora jogador do Barcelona, Jamie reaparece na medida exata, sem perder a vaidade, a absoluta falta de talento para idiomas e a evolução emocional que o transformou em um dos melhores personagens da série. Perguntado sobre seu espanhol, responde em francês. Depois, interrompe Rebecca e Matthijs com um abraço desajeitado e demonstra a felicidade de uma criança que acabou de descobrir que os pais fizeram as pazes.
Sua reunião com Roy é ainda melhor. Quando começa a tocar “Jump Around”, os dois se olham de lados opostos da pista e imediatamente sabem o que fazer. A dança é fan service descarado, claro, mas é do melhor tipo: aquele que recompensa uma relação construída durante anos e nos lembra imediatamente do quanto essa dupla fazia falta. Jamie e Roy passaram de inimigos a uma estranha dupla de amigos que jamais admitiria o quanto um ama o outro. Quando Jamie termina de carregar Roy para fora, o episódio recupera uma química cômica que estava ausente desta nova fase.

Menos divertida é outra rodada do desencontro entre Roy e Keeley. Roy, alterado, fala sobre a mulher que ama, enquanto Keeley escuta apenas parte da conversa e vai embora antes de perceber que ele se refere justamente a ela. É um recurso clássico de comédia romântica, mas começa a cansar. Depois de tudo o que já viveram, é difícil acreditar que continuem presos a confissões ouvidas pela metade e sentimentos que todo mundo reconhece, menos os dois.
“Don’t Jump Around Much Anymore” brinca com a música, com a idade de Roy e com personagens que já não podem continuar saltando de uma possibilidade emocional para outra sem escolher alguma coisa. Rebecca aceita que ainda deseja Matthijs. Alice quase admite que quer pertencer ao grupo, mas recua. Roy e Keeley continuam adiando o inevitável. Ted, pelo menos, finalmente parece disposto a olhar para outra mulher e imaginar uma vida que não dependa da disponibilidade emocional de Michelle.
Não é um episódio perfeito. A tentativa de reorganizar a história de Michelle e Dr. Jacob não resolve seu problema ético, Zelda continua parecendo pertencer a outra série e o romance de Roy e Keeley precisa urgentemente sair do lugar. No entanto, o retorno de Jamie, a dança com Roy e o novo “Believe” devolvem a Ted Lasso algo que vinha fazendo falta: a sensação de que esses personagens não estão apenas cumprindo etapas de um roteiro, mas reencontrando uns aos outros.
Agora só falta Sam. Depois da ponta deliciosa de Jamie, a série abriu definitivamente a porta para o retorno de antigos jogadores, e poucos reencontros teriam tanto peso emocional. Sam representou como ninguém a transformação provocada por Ted e ainda carrega uma história mal resolvida com Rebecca. Se a quarta temporada realmente pretende unir o novo Richmond à equipe que aprendemos a amar, será difícil encerrá-la sem que ele também volte para casa.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
