Quando se chega a uma certa idade, acumulamos momentos históricos sobre os quais sabemos dizer exatamente onde estávamos, o que fazíamos e como nos sentíamos quando tudo aconteceu. O dia 11 de setembro de 2001 é mais do que uma dessas datas. É o dia em que o mundo mudou.
Quem viveu o período anterior sabe que, apesar de todos os problemas que já enfrentávamos, ainda existia uma espécie de inocência. Talvez fosse apenas ilusão, e certamente era um privilégio de quem não vivia sob guerras, atentados ou regimes autoritários, mas ela existia. Havia hábitos, liberdades e uma relação com o medo que nunca recuperaríamos completamente. A ferida aberta naquela manhã alterou a política, as viagens, o cinema, a televisão e a maneira como passamos a olhar para qualquer pessoa desconhecida dentro de um avião.
Eu morava em Nova York em 2001. Já havia escrito sobre como o World Trade Center se preparara para outra tentativa de atentado depois da explosão de 1993, quando uma bomba colocada em uma van no estacionamento subterrâneo matou seis pessoas e feriu mais de mil. A segurança e os procedimentos de evacuação tinham sido revistos, mas ninguém imaginava aviões comerciais transformados em armas. Havia muito tempo que os sequestros de aeronaves não ocupavam nosso cotidiano e pareciam pertencer a outra era.

Uma das minhas melhores amigas trabalhava no Wall Street Journal, cuja redação ficava no One World Financial Center, diante do complexo do World Trade Center, do outro lado da West Street. Como cobria o mercado asiático, entrava muito cedo. Naquela manhã, eu acordei tarde e liguei a televisão. As imagens mostravam o que ainda era descrito como “um avião que bateu em uma das torres”. Era a Torre Norte, atingida às 8h46, mas ninguém entendia exatamente o que havia acontecido. A hipótese inicial ainda era a de um acidente.
Liguei imediatamente para minha amiga. Ela não atendeu. Eu ainda estava tentando falar com ela quando vi, ao vivo, o segundo avião surgir na tela e atingir a Torre Sul, às 9h03. Foram necessários alguns segundos para compreender o que meus olhos mostravam. Aquilo não era uma repetição da imagem anterior nem uma simulação. Era outro avião. Eu gritei por ela e por todos.
A partir daquele instante, a dúvida desapareceu, mas o pânico apenas começava. Já sabíamos que os Estados Unidos estavam sendo atacados, embora ninguém soubesse por quem, quantos alvos existiam ou o que ainda estava por acontecer. Em seguida vieram o Pentágono, o voo que caiu na Pensilvânia e o colapso das duas torres. Tudo aconteceu em menos de duas horas, mas aquela manhã nunca terminou verdadeiramente. Ao vivo, diante dos nossos olhos incrédulos.
Não havia redes sociais. O Google ainda era uma ferramenta nova, longe da centralidade que teria depois. As pessoas se procuravam por telefone, enquanto as linhas congestionavam e as chamadas não eram completadas. Cada um tentava reconstruir mentalmente a rotina dos amigos: quem trabalhava no centro, quem poderia estar no metrô, quem tinha reunião naquela região, quem costumava entrar cedo e quem, por sorte, talvez tivesse se atrasado.
Durante horas, localizar alguém significava depender de uma ligação atendida, de um recado transmitido por outra pessoa ou de uma informação fragmentada na televisão. Hoje, quando acompanhamos uma tragédia quase instantaneamente pelo celular, é difícil explicar a sensação de estar cercado por notícias e, ao mesmo tempo, não conseguir saber se uma pessoa específica estava viva.
Tive sorte. Todos os meus amigos que estavam naquela região sobreviveram. Saíram traumatizados e alterados, como todos nós, mas estavam vivos. Quase três mil pessoas não voltaram para casa naquele dia. Foram 2.977 vítimas, sem contar os 19 sequestradores, e esse número não encerra completamente a história, porque bombeiros, policiais, trabalhadores, moradores e voluntários continuaram adoecendo e morrendo nos anos seguintes em consequência da exposição à poeira e às substâncias tóxicas liberadas pelo desabamento.
O mundo que existia antes
Quando dizemos que o mundo mudou em 11 de setembro, a frase pode parecer tão repetida que perdeu o significado. Mas nossos hábitos realmente mudaram. Voar deixou de ser uma experiência relativamente simples. Portas de cabines foram reforçadas, aeroportos se transformaram em espaços de vigilância permanente e objetos cotidianos passaram a ser tratados como ameaças potenciais. Tirar os sapatos, limitar líquidos, chegar horas antes e aceitar que o corpo e a bagagem sejam examinados tornaram-se parte normal de uma viagem.
A transformação mais profunda, porém, não estava apenas nos aeroportos. Os ataques produziram a chamada Guerra ao Terror, a invasão do Afeganistão e, depois, a guerra no Iraque, embora o regime iraquiano não tivesse participado de 11 de setembro. O medo abriu espaço para o Patriot Act, para a expansão da vigilância estatal, para prisões sem julgamento, tortura, islamofobia e uma redução das liberdades civis que talvez não tivesse sido aceita em outro contexto.
Passamos a viver sob a justificativa de que qualquer medida poderia ser necessária para impedir o próximo ataque. O problema é que o “próximo ataque” nunca precisava acontecer para continuar organizando a política e alimentando o medo. Bastava ser possível.
A própria linguagem mudou. Expressões como ameaça terrorista, segurança nacional, armas de destruição em massa e eixo do mal entraram no cotidiano. Durante anos, o noticiário pareceu existir permanentemente entre dois alertas. A televisão mantinha faixas de informação contínua na tela, enquanto o cinema transformava a ansiedade coletiva em narrativas sobre invasões, vigilância, conspirações, cidades destruídas e heróis autorizados a ultrapassar qualquer limite em nome da segurança.
Nova York também mudou de imagem. Durante algum tempo, filmes e séries retiraram as Torres Gêmeas de cartazes, trailers e sequências já prontas, como se a simples visão dos edifícios pudesse ser ofensiva ou insuportável. Depois, vieram as obras que tentaram elaborar o trauma, algumas com delicadeza, outras transformando-o em espetáculo. O cinema demorou a entender como representar uma imagem que todos nós já havíamos visto vezes demais.

A dor não pertence apenas ao passado
Vinte e cinco anos depois, há adultos que ainda não haviam nascido quando os aviões atingiram as torres. Para eles, o 11 de setembro é história, estudada por imagens, documentários e relatos. Para quem viveu aquele dia, especialmente em Nova York, a distância funciona de outra maneira.
As imagens continuam produzindo uma reação física. Ainda sabemos o que acontecerá quando o segundo avião aparecer, mas alguma parte de nós revive os segundos em que não sabia. Vemos as pessoas nas ruas olhando para cima e sabemos aquilo que elas ainda não sabem. Assistimos às torres queimando e já conhecemos o momento em que deixarão de existir. A memória histórica segue adiante; a memória traumática permanece presa ao presente.
Por isso, falar sobre o 11 de setembro, 25 anos depois, continua sendo tão doloroso quanto naquela manhã agora distante. Não porque o tempo não tenha passado, mas porque há acontecimentos que reorganizam o próprio tempo. Tudo o que veio antes passou a pertencer ao mundo anterior; tudo o que veio depois carregou alguma consequência daquele dia.
Eu tive a sorte de reencontrar os meus amigos. Muitas famílias passaram horas fazendo as mesmas ligações e nunca receberam a resposta que esperavam. É nelas que penso quando as imagens voltam, quando os nomes são novamente lidos e quando alguém pergunta onde eu estava em 11 de setembro de 2001.
Eu estava em Nova York, diante de uma televisão, tentando localizar uma amiga, quando vi o segundo avião atingir a Torre Sul. Naquele momento, ainda não sabia tudo o que perderíamos. Sabia apenas que nada voltaria a ser como antes.
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