Eu gostei muito da primeira temporada de Reacher. A segunda já me pareceu mais mediana e, agora, acompanhando a quarta, tenho a sensação de que a série começou a ser vítima da própria fórmula. O que antes era simples, direto e eficiente ficou excessivamente complicado, fantasioso e, em vários momentos, estranhamente sem tensão.
Reacher nunca foi realista, nem deveria ser. Jack Reacher é praticamente uma força da natureza, um homem enorme, absurdamente inteligente, capaz de entrar em uma sala, calcular quem representa perigo e resolver metade do problema antes que os outros tenham entendido o que está acontecendo. Esse exagero sempre fez parte da diversão. A diferença é que, na primeira temporada, Reacher era extraordinário dentro de um mundo relativamente normal.
Margrave funcionava porque havia um mistério claro, uma cidade pequena, corrupção local, o assassinato do irmão e personagens com quem Reacher criava vínculos. Roscoe e Finlay não estavam ali apenas para movimentar a trama, eles ajudavam a revelar quem aquele homem aparentemente impenetrável era. Havia humor, ironia, química e até alguma vulnerabilidade, por mais discreta que fosse.
Hoje parece que tudo precisa ser maior. A conspiração cresce, surgem agentes, políticos, operações secretas, ameaças nacionais, traições e novas explicações a cada episódio. Em vez do mistério nos puxar para dentro da história, às vezes precisamos simplesmente acompanhar uma longa exposição para entender quem está enganando quem. Quando todo mundo é suspeito, todo mundo sabe demais e tudo pode ser parte de uma conspiração, o suspense deixa de ser suspense e vira confusão.

Também existe uma mudança curiosa no próprio Reacher. Alan Ritchson continua fisicamente perfeito para o personagem, talvez até demais, mas tenho a impressão de que está interpretando tudo no automático. Na primeira temporada havia pequenas variações, um sorriso, uma provocação, uma ironia, uma reação inesperada. Agora conhecemos o olhar, a pausa, a postura e praticamente sabemos quando chegará a frase seca seguida da pancadaria.
Não sei se o problema é exclusivamente de Ritchson, porque o roteiro também passou a pedir cada vez menos dele. Quando um personagem se transforma em marca, existe o risco de seus traços mais populares virarem maneirismos. Reacher não apenas é Reacher, ele precisa constantemente nos lembrar que é Reacher, o homem que entra, olha, calcula, bate e vai embora.
E aparentemente parte dos fãs está sentindo algo parecido. A temporada começou com uma recepção bastante positiva, inclusive com gente falando em recuperação depois das anteriores, mas o entusiasmo foi diminuindo à medida que a trama ficou mais complicada. As críticas que começaram a aparecer falam justamente de conveniências demais, conspiração demais e de um Reacher que parece menos investigador do que antes.
Talvez esse seja o ponto que mais me incomoda. Jack Reacher não é interessante apenas porque consegue derrotar cinco homens ao mesmo tempo. Ele é interessante porque geralmente já entendeu por que aqueles cinco homens estão ali antes de começar a bater neles. A inteligência sempre foi tão importante quanto o tamanho.
Quando a série esquece isso, sobra apenas a fantasia do sujeito invencível. Por isso continuo achando que a primeira temporada encontrou a proporção perfeita. Reacher era enorme, mas a história não precisava ser. O mistério era pequeno o suficiente para que os personagens importassem, e justamente por isso parecia muito maior quando chegávamos ao final.
Talvez o problema de Reacher seja ter descoberto que Reacher funciona. E, depois de descobrir, passou a repetir a fórmula até transformar aquilo que era personalidade em pose. No fundo, Reacher funciona melhor quando precisa salvar uma cidadezinha. Não quando precisa salvar o mundo.
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