Seis episódios. Só seis. E quando finalmente percebi que o 12º Quarto era mesmo o fim da segunda temporada de Chad Powers, minha primeira reação foi bastante simples: como assim?
Porque a série não terminou uma história. Fez quase exatamente o contrário. Colocou Russ Holliday no centro de uma teia ainda mais complicada do que aquela em que estava quando inventou Chad Powers e deixou praticamente todos os seus problemas para uma eventual terceira temporada.
Ela ainda não foi oficialmente confirmada pelo Hulu, embora Glen Powell e Michael Waldron já tenham revelado que imaginaram Chad Powers como uma história de três temporadas. O que ajuda a explicar por que o final parece muito mais um intervalo do que uma conclusão. E há pelo menos quatro perguntas que agora precisam de resposta.
Tricia vai salvar Chad Powers ou passar a controlá-lo?
Talvez essa seja a mudança mais interessante deixada pelo final.
No começo de Chad Powers, Russ era dono da própria mentira. Foi ele quem criou a máscara, inventou uma personalidade e encontrou nela uma forma de voltar ao futebol depois de destruir a própria carreira. Agora, não mais.
Danny entregou o segredo a Tricia Yeager justamente para impedir que Gerry destruísse Chad. E funcionou. Com dinheiro, influência e recursos, Tricia aparentemente pode proteger Russ, esconder sua identidade e permitir que Chad continue jogando. Mas proteção nunca vem gratuitamente no universo de Tricia.
Ela já deixou claro que pretende colocar Russ e Danny sob sua própria vigilância e manter Chad funcionando enquanto ele for importante para o Catfish. De repente, a persona que Russ criou para recuperar sua liberdade pode se transformar em uma prisão administrada por outra pessoa.
É uma ironia perfeita para uma série cada vez mais interessada na questão da identidade: Russ inventou Chad para poder voltar a ser quem era. Agora talvez precise continuar sendo Chad porque outras pessoas dependem daquela máscara.

Ricky e Russ finalmente se beijaram. E o pai dela viu
Depois de duas temporadas construindo uma atração praticamente inevitável, Ricky Hudson e Russ finalmente atravessaram a linha. E, naturalmente, Chad Powers escolheu o pior momento possível para deixá-los fazer isso.
Ricky estava retirando partes da prótese de Chad quando Jake Hudson entrou no vestiário e encontrou os dois juntos. A série deliberadamente não mostrou quanto ele viu ou compreendeu. Steve Zahn inclusive já disse que a cena foi deixada propositalmente ambígua.
O beijo, portanto, pode criar dois problemas completamente diferentes. O primeiro é óbvio: sua filha, integrante da comissão técnica, está envolvida com o quarterback do time. O segundo é muito maior: Jake pode finalmente descobrir que Chad Powers nunca existiu.
E isso acontece justamente quando ele anuncia que pretende deixar o comando do Catfish. Ou seja, o homem que construiu aquela equipe pode descobrir que uma parte fundamental de seu sucesso foi baseada numa mentira — e que a própria filha ajudou a mantê-la.
E Syracuse? Ricky vai mesmo embora?
Aqui eu espero que a série seja cuidadosa, porque reduzir essa decisão a “Ricky escolhe Chad ou escolhe Jay” seria muito menos interessante do que tudo o que ela construiu até agora.
Jay Palmer, vivido por Colin Woodell, é bonito, rico, charmoso e claramente interessado nela. Também foi ele quem ajudou a criar a ponte para que Syracuse procurasse Ricky para uma vaga na comissão técnica.
Mas Jay é quase secundário diante do que Syracuse representa. Ricky passou boa parte da vida profissional orbitando o pai, o programa que ele construiu e, mais recentemente, a gigantesca confusão chamada Chad Powers. Syracuse é a possibilidade de descobrir quem ela é como treinadora sem nenhuma dessas três coisas.
Por isso, seu dilema é muito melhor do que um simples triângulo amoroso. Ela pode amar Russ e ainda assim ir embora. Aliás, talvez precise ir embora justamente para que a personagem não termine definida apenas pelo homem por quem se apaixonou.
E há uma crueldade deliciosa nisso: justamente quando Russ finalmente consegue admitir que precisa dela, Ricky encontra a chance de descobrir que talvez não precise dele.

E Gerry?
Esse é o ponto que eu menos considero encerrado. Gerry descobriu a verdade, transformou sua obsessão em chantagem e chegou a tentar obrigar Chad a manipular uma partida para que pudesse ganhar uma aposta. Tricia conseguiu neutralizá-lo naquele momento, mas isso não significa que tenha eliminado o problema.
Porque Gerry continua sabendo que Chad Powers é Russ Holliday. E, ao contrário de Ricky, Danny ou Tricia, ele não tem absolutamente nenhuma razão para proteger o segredo. Mais do que isso: alguma coisa que começou como ressentimento esportivo se transformou numa obsessão cada vez mais desorganizada. Gerry não queria apenas recuperar sua posição. Queria destruir Chad.
É justamente por isso que seu destino importa. Se ele voltar, não pode simplesmente voltar como o quarterback ciumento da primeira temporada. Essa versão dele já desapareceu. O Gerry, que termina a segunda temporada, está muito mais próximo de um antagonista capaz de implodir toda a construção de Russ porque passou a organizar a própria existência em torno daquela mentira.
A máscara está ficando pequena demais
Essa talvez seja a verdadeira questão de uma eventual terceira temporada. Na primeira, Russ precisava impedir que descobrissem quem era Chad. Na segunda, Ricky descobriu. Depois, Gerry. Depois, Tricia. Agora talvez Jake. Ou seja: cada vez menos pessoas acreditam que Chad Powers realmente existe. E isso cria uma possibilidade muito mais interessante do que simplesmente esperar pelo momento em que a máscara cair.
Talvez a terceira temporada seja justamente sobre o que acontece quando ela já não consegue esconder Russ, mas Russ ainda não sabe viver sem ela.
Porque depois de duas temporadas, a pergunta mais importante de Chad Powers deixou de ser “quando vão descobrir quem ele é?”.
É outra. Quando todo mundo finalmente souber que Chad Powers é Russ Holliday, Russ Holliday ainda vai querer voltar a ser Russ Holliday?
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