Dark Matter: o passado encontra o futuro no episódio 3 (Recap)

Atenção: este texto contém spoilers completos do terceiro episódio da segunda temporada de Dark Matter, “Everything Beautiful, Everything Terrible”.

O terceiro episódio da segunda temporada de Dark Matter finalmente reúne os vários caminhos abertos pela série e confirma aquilo que Jason e Daniela tentavam esquecer: não existe um universo suficientemente distante para protegê-los das consequências da Caixa. Eles podem trocar de nome, abandonar a tecnologia e começar outra vida, mas não conseguem apagar o conhecimento de que viajar entre realidades é possível. Pior ainda, não são os únicos que sabem como fazer isso.

“Everything Beautiful, Everything Terrible” começa três anos antes, quando a equipe da Velocity se prepara para enviar Blair como a primeira pessoa a entrar em superposição. A experiência ainda é tratada como uma descoberta científica, mas Jason 2 já demonstra alguma preocupação com o que ajudou a criar. Ele procura antigos professores e apresenta o problema como uma hipótese: se uma inovação puder abrir possibilidades infinitas, mas também produzir consequências imprevisíveis, os cientistas deveriam seguir em frente?

A resposta é tão fascinante quanto assustadora. Toda grande invenção humana produziu avanços e destruição. A Caixa abriria uma nova era de exploração, comparável à chegada dos europeus ao chamado Novo Mundo, mas agora em escala infinita. Dela poderia surgir tudo o que existe de belo e tudo o que existe de terrível na humanidade. Quando Jason pergunta se, diante desse risco, a experiência deveria continuar, ouve a única resposta possível: se algo pode ser feito, alguém fará. O ego humano jamais permitiria que a descoberta fosse contida.

A temporada praticamente declara sua tese nessa conversa. Na primeira temporada, Jason lutou para voltar à vida que havia escolhido. Agora, a série quer saber o que acontece quando uma criação deixa de pertencer ao criador e começa a alterar todos os mundos que alcança.

A nova vida dos Dessen

No chamado Mundo X, uma realidade que parece ter seguido uma linha tecnológica diferente da nossa, vários meses se passaram. Jason, Daniela e Charlie vivem agora como a família Stewart e tentam construir uma existência comum. Eles têm outro apartamento, comemoram o Natal e até compram um enfeite semelhante ao primeiro que Jason e Daniela escolheram quando começaram a vida juntos.

Charlie está estudando, fez novos amigos e se prepara para entrar na faculdade. Para um adolescente vindo do século 21, há algo quase encantador em acompanhar o nascimento dos computadores pessoais, receber fitas cassete gravadas por amigos e viver em uma época na qual ninguém carrega um telefone no bolso. A tecnologia limitada deveria representar segurança, mas também ajuda a explicar por que Jason não consegue abandonar completamente o que deixou para trás.

Ele trabalha no bar de Matt e recebe em dinheiro, uma solução conveniente para alguém que oficialmente não existe. Entretanto, continua visitando a escola abandonada onde está a Caixa. Jason diz que pretende destruí-la e chega a fabricar explosivos, pedindo salitre como presente de Natal, mas sua obsessão rapidamente deixa de parecer apenas uma medida de proteção.

Daniela continua tentando lidar com o trauma. Quando ajuda Charlie a preparar sua inscrição para a faculdade e ele comenta quantas coisas extraordinárias já viveu, ela volta a culpar a si mesma por tudo o que aconteceu. É o próprio filho quem precisa lembrá-la de que deve ser mais gentil consigo. Daniela sobreviveu a um homem que roubou a identidade do marido, passou meses sendo enganada dentro de casa e depois foi obrigada a abandonar o próprio mundo. Recomeçar não apaga nada disso.

A família também percebe que uma senha de segurança não será suficiente para protegê-los. Jason volta para casa e não consegue lembrar a palavra combinada, justamente o tipo de falha que poderia transformar o verdadeiro Jason em suspeito. A solução vem com tatuagens iguais, feitas a partir de um desenho de Charlie. O símbolo passa a funcionar como uma marca de pertencimento: naquele universo de cópias, os três precisam criar uma prova física de que formam a mesma família.

Daniela reencontra Blair, mas será a mesma Blair?

Enquanto resolve documentos no equivalente local ao departamento de trânsito, Daniela acredita reconhecer Jason em um homem sentado à sua frente. É apenas um desconhecido, mas o susto mostra que ela continua esperando que outra versão do marido apareça a qualquer momento. Logo depois, porém, ela realmente encontra alguém conhecido: Blair.

As duas demonstram lembranças ligeiramente diferentes sobre o tempo em que ficaram afastadas. Blair conta que viajou durante alguns anos, viveu como nômade e voltou seis meses antes, depois de perceber que estava sozinha havia tempo demais. A conversa parece casual até Blair ver o nome “Daniela Stewart” no documento da amiga. Ela então pergunta se Daniela sente falta da Califórnia, e a pergunta adquire um significado maior para as duas.

A série ainda não confirma quem é aquela Blair. Existe uma forte possibilidade de que seja a Blair que entrou na Caixa no mundo de Jason 2 e que, depois de viajar por diferentes realidades, tenha escolhido viver ali. Se for realmente ela, Blair pode ter reconhecido que Daniela também não pertence àquele universo, embora nenhuma das duas se arrisque a dizer isso claramente.

É uma das melhores cenas do episódio porque recupera uma questão essencial de Dark Matter. Mesmo quando duas pessoas não compartilham exatamente a mesma história, alguma coisa do vínculo permanece. Daniela e Blair são ao mesmo tempo amigas e estranhas, conectadas por lembranças que talvez não pertençam à mesma realidade.

O império de Leighton Vance

Enquanto os Dessen tentam se esconder da tecnologia, Leighton Vance está usando a Caixa para distribuí-la. Ele visita uma realidade devastada por uma pandemia e entrega a uma versão da Velocity uma vacina e um tratamento desenvolvidos em outro universo. A empresa poderá fabricar os medicamentos e, ao menos naquele caso, salvar milhões de pessoas.

Leighton também visita o avô, Ezekiel Vance, internado com a doença. A situação desperta uma lembrança de infância, quando Ezekiel trabalhava secretamente em um sistema de propulsão hipersônica e dizia ao neto que tudo aquilo um dia seria dele. O menino cresceu entendendo a ciência como poder, legado e propriedade.

O gesto de Leighton parece humanitário, porque ele realmente leva a cura para uma população condenada, mas a negociação também revela o tamanho da operação que construiu. Ele não apenas viaja entre realidades. Leighton transfere descobertas científicas de um mundo para outro, acelera empresas e interfere no desenvolvimento tecnológico de sociedades inteiras.

No Mundo X, a Velocity-Tech acaba de lançar um microprocessador muito antes de sua concorrente, a MacNamara-Tech, e já se prepara para criar algo chamado “telefone portátil”. Sheila MacNamara contrata o irmão Mitchell, um detetive, para investigar como Leighton obteve uma vantagem tão extraordinária.

Mitchell já vinha acompanhando os Dessen. Ele sabe que a família aparentemente esteve em Chicago e São Francisco ao mesmo tempo, descobriu que Jason visita uma escola abandonada várias vezes por semana e viu Amanda e Ryan entrarem na Caixa e desaparecerem. O impossível já deixou evidências demais para continuar sendo descartado.

Amanda e Ryan aprendem a procurar pessoas

Em outra realidade, Amanda e Ryan discutem a responsabilidade por terem criado a Caixa. Amanda sente orgulho da conquista científica, mas também vergonha das vidas destruídas por ela. Ryan argumenta que os cientistas apenas construíram uma ferramenta e não podem ser responsabilizados por todos os que a utilizam de forma irresponsável.

O argumento lembra perigosamente o de Jason 2. Foi justamente assim que ele tratou a própria criação durante muito tempo: como uma descoberta neutra, separada das escolhas feitas por quem a controlava.

A conversa, no entanto, leva Amanda a uma descoberta importante. Até aquele momento, eles tentavam imaginar o universo de origem de Ryan, reunindo características específicas daquele mundo. Amanda propõe outra estratégia: em vez de procurarem uma realidade, podem se concentrar em uma pessoa. Ryan pensa em Jason 2, e a Caixa responde.

Eles chegam a um mundo no qual o apartamento de Ryan parece perfeito. O prêmio Pavia está no lugar certo, os livros estão organizados da maneira que ele conhece e até uma marca no chão corresponde à sua memória. Tudo parece indicar que finalmente voltaram para casa, até outro Ryan sair do banho.

O encontro entre as duas versões é desconfortável, mas produz uma surpresa ainda maior. O Ryan daquele mundo telefona para alguém que conhece Amanda e compreende imediatamente a situação. Quem atende é Jason 2, vivo depois de ter ficado para trás no final da primeira temporada.

Ryan não resiste e dá um soco em Jason 2 assim que ele aparece. A raiva é compreensível: foi esse Jason quem o abandonou em outro universo e destruiu sua vida. Antes que possam resolver qualquer coisa, porém, percebem que estão sendo observados.

Jason 13 precisa escolher um lado

Mitchell MacNamara montou uma equipe de vigilância diante do apartamento de Ryan. Ao seu lado está Jason 13, uma das inúmeras versões de Jason 1 criadas durante a viagem de volta para casa. MacNamara acredita que Jason 2 seja o líder de uma espécie de célula formada pelos viajantes da Caixa.

Jason 13, porém, não esperava encontrar Ryan e Amanda no meio da operação. Ele conhece os dois e sabe que podem morrer quando os agentes invadirem o apartamento. Diante disso, pega uma arma e atira em direção à janela para alertá-los.

Jason 2 foge de carro com Amanda e as duas versões de Ryan, enquanto os agentes de MacNamara os perseguem pelas ruas. Durante a fuga, o grupo consegue trocar algumas informações e descobre que a DARPA agora está atrás de todos os envolvidos com a Caixa. Quando a captura parece inevitável, Jason 2 faz uma manobra arriscada, ganha alguns segundos e conduz os quatro até a estrutura. Eles entram pouco antes da chegada dos agentes e desaparecem pelo corredor.

A combinação é tão improvável quanto irresistível. Jason 2 está agora viajando com o Ryan que traiu, outro Ryan e Amanda, a mulher que viveu ao seu lado no mundo que ele abandonou. Todos têm razões para desconfiar dele, mas também precisam de seu conhecimento para sobreviver.

Jason 13, por sua vez, permanece com MacNamara e terá de explicar por que ajudou os fugitivos. A cena confirma que as diferentes versões de Jason não são cópias moralmente idênticas. Elas compartilham memórias e desejos até determinado ponto, mas continuam escolhendo quem desejam ser.

Jason repete a escolha que criou Jason 2

No Mundo X, Daniela visita Jason na escola e descobre que ele não está simplesmente destruindo a Caixa. Ele desmonta cada peça, registra o funcionamento do aparelho e estuda a tecnologia. Para Jason, é como se alguém tivesse entrado em sua mente e transformado o maior sonho de sua vida em realidade.

Daniela o lembra de uma verdade incômoda: não foi outra pessoa que realizou esse sonho. Foi ele, apenas uma versão, que escolheu dedicar vinte anos à pesquisa e trabalhar com uma equipe. Jason 1 e Jason 2 não são homens opostos. São o mesmo homem depois de decisões diferentes.

O conflito deixa de ser científico e volta a ser familiar. Jason perdeu a despedida de Charlie antes do baile e mentiu para Daniela sobre o que fazia na escola. Ele está novamente diante da escolha que dividiu sua vida no passado: o trabalho ou a família. Se continuar estudando a Caixa, talvez repita exatamente o caminho que produziu Jason 2.

Desta vez, Jason escolhe Daniela e Charlie. Ele arranca os componentes, destrói o interior da estrutura e deixa apenas a armação vazia. Depois de jantar com amigos, explica a Daniela que precisa voltar uma última vez para retirar os destroços e impedir que uma tecnologia avançada permaneça naquele mundo.

Quando chega à escola, porém, a Caixa está novamente intacta.

Jason conseguiu destruir a estrutura presente naquele universo, mas não pôde impedir que outra Caixa se materializasse quando alguém atravessasse o corredor e abrisse uma porta para aquele mundo. A máquina não se reconstruiu magicamente. Outra versão dela chegou com um novo viajante.

O episódio termina revelando quem atravessou a porta: Leighton Vance.

O que o final significa?

A chegada de Leighton confirma que a segurança dos Dessen acabou. É provável que seja o mesmo Leighton que vem distribuindo tecnologias entre os mundos e que tenha sido responsável pela ascensão repentina da Velocity-Tech naquela realidade. Se consegue transportar vacinas, tratamentos e descobertas industriais, também pode ter levado o microprocessador que colocou a empresa à frente da concorrência.

Ainda não sabemos se Leighton foi procurar Jason deliberadamente ou se chegou ao Mundo X por outros motivos. A nova descoberta de Amanda, porém, torna a primeira hipótese especialmente perigosa. A Caixa não exige que o viajante imagine apenas as características de uma realidade. Ele pode pensar em uma pessoa e ser conduzido a um mundo no qual ela existe. Portanto, esconder-se em uma sociedade de baixa tecnologia nunca seria suficiente para proteger os Dessen.

Jason destruiu uma Caixa, mas não pode destruir todas. Também não consegue impedir que outras versões dele, Leighton, Blair ou qualquer pessoa treinada para viajar pensem em Daniela e encontrem o caminho até ela.

O título “Everything Beautiful, Everything Terrible” resume perfeitamente o episódio. Leighton leva a cura a um mundo devastado por uma pandemia, mas usa o mesmo sistema para construir um império. Amanda e Ryan encontram Jason 2, mas também conduzem os agentes até ele. Daniela reencontra uma amiga, sem saber se aquela mulher é realmente a Blair que conheceu. Jason escolhe novamente a família, mas sua decisão chega tarde demais para fechar uma porta que agora pode ser aberta de qualquer lugar.

O problema da Caixa nunca foi apenas permitir que alguém visitasse realidades infinitas. O verdadeiro perigo é que, depois de aberta, nenhuma realidade consegue permanecer isolada. E agora que Leighton encontrou os Dessen, a vida tranquila que eles construíram está oficialmente terminada.


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