Mariana Xavier: aos 46, o direito de parecer ter a própria idade

Como publicado em CLAUDIA

Existe um elogio que nós, mulheres, aprendemos a receber sorrindo: “Nossa, você não parece ter a sua idade”. Mariana Xavier resolveu devolver a pergunta. “Mas não parece com o quê?”, me disse quando conversamos sobre Marido de Aluguel, sua nova comédia. Aos 46 anos, ela não quer mais agradecer por parecer mais jovem. Quer saber por que ainda temos tanta dificuldade em aceitar a aparência, a energia e os desejos reais de uma mulher depois dos 40.

A conversa começou, na verdade, por Alice, sua personagem no filme dirigido e escrito por Paulo Fontenelle, que chega aos cinemas em 24 de setembro. Alice está falida depois que o ex-marido é preso por desvio de dinheiro, tenta manter a enorme casa onde vive com a filha e acaba contratando Vadeco, o “marido de aluguel” interpretado por Maurício Manfrini. Quando o ex foge da prisão, o que já era complicado vira uma sucessão deliberadamente absurda de confusões. O elenco ainda reúne Alexandre Lino, Heitor Martinez, Letícia Braga e Letícia Isnard.

É um filme assumidamente popular, físico, escrachado. Paulo Fontenelle chegou a descrevê-lo para Mariana como “um desenho animado com gente”, definição que ela adorou. Mariana, por sua vez, encontrou outra: uma mistura de Esqueceram de Mim com Um Morto Muito Louco. E é exatamente isso. Há portas, tropeços, gente escondida, planos dando errado e aquela deliciosa sensação de que tudo sempre pode piorar mais um pouco.

Curiosamente, Mariana me contou que estava justamente tentando se afastar desse tipo de trabalho quando aceitou o convite. Queria outros registros, outros personagens, sair da caixinha da comédia. Só que descobriu que também estava com saudade de brincar. Hoje atriz, produtora, empresária, palestrante e responsável pelo próprio conteúdo nas redes sociais, ela resumiu de uma forma ótima: às vezes cansa dela mesma.

“Tem hora que tudo que eu quero é poder ser só atriz”, disse. Poder chegar ao set e encontrar o roteiro escrito, o figurino pensado, a maquiagem preparada, o diretor dirigindo, cada profissional ocupando o seu lugar, enquanto ela faz aquilo para o qual escolheu a profissão: emprestar corpo e voz para viver outra pessoa. “Eu posso viver várias vidas numa encarnação só.”

Alice lhe deu essa oportunidade, mas trouxe outra coisa que hoje parece ainda mais importante. Pela primeira vez, Mariana interpreta a mãe de uma adolescente, vivida por Letícia Braga. Para uma atriz que passou anos associada a Marcelina, de Minha Mãe É uma Peça, ocupar esse lugar significa também pedir ao público e ao mercado que atualizem a imagem que guardaram dela.

Mariana ama o que Marcelina representou em sua carreira e sabe que será reconhecida por ela para sempre. Mas aquela história começou a ser filmada em 2012 e terminou de maneira dolorosa, com a morte de Paulo Gustavo. Ela precisa seguir. “Eu tenho 46 anos. Eu quero fazer outras coisas e eu preciso fazer outras coisas.”

É aí que voltamos ao “não parece”.

Mariana acredita que já perdeu trabalhos justamente porque não correspondia à imagem que alguém fazia de uma mulher da sua idade. E sua pergunta desmonta a lógica inteira: se ela tem 46 anos e tem aquele rosto, aquele corpo, aquela energia, por que uma personagem de 46 anos não poderia ser exatamente assim? Talvez o problema nunca tenha sido Mariana “não parecer” ter 46. Talvez seja a nossa representação dos 46 que tenha parado no tempo.

A discussão passa inevitavelmente pela menopausa. Mariana é hoje embaixadora do Instituto Menopausa Feliz e contou que, durante as filmagens de Marido de Aluguel, em pleno verão carioca, enfrentava cenas físicas usando roupas quentes sem perceber que estava na perimenopausa e ainda sem reposição hormonal. Hoje fala sobre o tema com naturalidade e repete uma frase da ginecologista Juliana Risso que deveria estar estampada em muitos lugares: a menopausa marca o fim da idade reprodutiva da mulher, não da produtiva.

Talvez por isso Alice tenha chegado na hora certa. Ela é uma mulher que levou um tombo enorme, está endividada, foi enganada pelo homem em quem confiou, cria a filha, administra uma casa que já não consegue sustentar e continua andando. Não porque seja uma super-heroína impermeável ao sofrimento, mas porque encontra humor até onde aparentemente só existe problema.

Mariana também está há quatro anos e meio rodando o Brasil com seu solo Antes do Ano Que Vem, no qual interpreta sete personagens. Em dezembro, o espetáculo fará sua primeira temporada internacional, em Portugal. Ela fala do teatro como quem fala de casa: continuar no palco, diz, é “regar minhas raízes para que elas continuem fortes”.

No fim, percebi que Alice e Mariana se encontraram justamente nesse lugar. São duas mulheres para quem seguir em frente não significa fingir que nada aconteceu, mas não permitir que aquilo que aconteceu determine onde suas histórias precisam terminar.

E talvez seja também por isso que Marido de Aluguel funcione tão bem agora. Nem toda arte precisa nos confrontar, provocar ou desmontar emocionalmente. Às vezes ela pode simplesmente nos oferecer uma sala escura, uma pipoca e uma hora e meia de bobagem bem-feita. Mariana lembrou uma frase de Paulo Gustavo: rir é um ato de resistência.

Em tempos tão amargos, não deixa de ser.


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