A chamada para o último episódio da terceira temporada de Lioness mudou novamente a pergunta que nos acompanhou desde o sequestro de Joe. Durante algum tempo, acreditamos que os iranianos estavam por trás de tudo e, de fato, foram eles que a mantiveram em cativeiro, torturaram e transportaram. No entanto, o sétimo episódio deixou claro que Babat e seus homens podem ter sido apenas a mão de obra contratada. Alguém planejou a operação, escolheu Joe como alvo e alimentou os sequestradores com informações que dificilmente estariam disponíveis fora dos círculos mais restritos da inteligência americana.
Portanto, a pergunta já não é quem sequestrou Joe, mas quem mandou sequestrá-la. E tudo começa a apontar para alguém de dentro.

Oleksandra é culpada ou foi preparada para levar a culpa?
A principal suspeita apresentada pela série é Oleksandra Balakin, a agente ucraniana interpretada por Elizaveta Neretin. Foi ela quem se aproximou dos russos, identificou Joe e demonstrou conhecer detalhes impressionantes não apenas sobre sua vida, mas também sobre Cruz e a operação que terminou com a morte de Aaliyah, de seu pai e do homem com quem ela se casaria na primeira temporada.
Desde o início, havia algo estranho naquela quantidade de informação. Como Oleksandra sabia tanto? Foi justamente isso que nos levou a considerar a possibilidade de Aaliyah estar viva e envolvida, direta ou indiretamente, com a vingança contra Cruz e Joe. A teoria não apareceu apenas aqui: fãs no Reddit também começaram a discutir se o passado da primeira temporada havia finalmente retornado para cobrar sua conta.
A menção a Aaliyah certamente não parece gratuita. Ela pode ter sobrevivido e alimentado uma rede de inteligência com informações sobre Cruz, mas também existe uma explicação mais simples: Oleksandra pode ter tido acesso aos arquivos russos sobre a missão. A Rússia certamente investigaria o assassinato de uma família tão importante e tentaria descobrir quem havia se infiltrado em sua estrutura. Portanto, saber quem era Cruz não prova que Aaliyah esteja por trás do sequestro. Prova apenas que a primeira missão da Lioness continua produzindo consequências.
Ao final do sétimo episódio, porém, a CIA aceita outra explicação. Oleksandra teria planejado o sequestro para provocar uma resposta militar dos Estados Unidos contra a Rússia, forçar um cessar-fogo e melhorar a posição da Ucrânia na guerra. Em teoria, é uma operação desesperada, brutal e compatível com o universo moralmente turvo de Taylor Sheridan. Na prática, há um problema: o plano não beneficia Oleksandra.
Ao contrário, o sequestro deixa a Ucrânia prestes a perder o apoio americano e coloca a própria Oleksandra sob risco de execução. Se ela planejou tudo para salvar seu país, produziu exatamente o resultado oposto. Por isso, uma das teorias mais convincentes em discussão no Reddit sugere que ela foi preparada para levar a culpa. Alguém usou os iranianos, plantou pistas que conduzem à Ucrânia e, depois, ofereceu ao governo americano uma análise pronta, capaz de transformar suspeita em verdade oficial.

O marido de Kaitlyn está envolvido?
É nesse ponto que Errol Meade, o marido de Kaitlyn, se torna o personagem mais suspeito da temporada.
Desde o início de Lioness, o casamento de Kaitlyn e Errol funciona como uma aliança entre duas pessoas que vivem de segredos. Ela ocupa uma posição importante na CIA; ele transita entre o mercado financeiro, grupos privados de análise e os círculos mais influentes de Washington. Os dois sabem que o outro lida com informações confidenciais e estabeleceram uma regra bastante conveniente: não perguntam diretamente sobre o trabalho um do outro, mas trocam fragmentos de inteligência quando isso interessa aos dois.
É um casamento íntimo e frio ao mesmo tempo, quase uma sociedade transformada em relação amorosa. Há carinho entre eles, mas também cálculo, códigos e uma ética particular. Eles não contam tudo, embora saibam o suficiente para ajudar um ao outro. E nunca ficou inteiramente claro quanto poder Errol possui, a quem responde ou como utiliza as informações que recebe da mulher.
Essa dinâmica sempre chamou a atenção, inclusive pela reunião de Nicole Kidman e Martin Donovan, que trabalharam juntos em Retrato de uma Mulher. Agora, porém, aquilo que parecia apenas uma curiosidade sofisticada do relacionamento ganhou um peso muito maior dentro da trama.
O think tank de Errol foi contratado pelo Departamento de Estado para analisar o sequestro de Joe. Até aí, tudo poderia ser apenas uma coincidência muito conveniente. O problema está na maneira como ele conduz a conversa com Kaitlyn. Errol pergunta quem se beneficiaria com o sequestro, elimina pouco a pouco as possibilidades e a leva até a conclusão de que a responsável só pode ser Oleksandra. Ele não entrega apenas uma informação à mulher; delimita a forma como ela passará a enxergar o caso.
Kaitlyn, por sua vez, leva essa interpretação para Byron Westfield e Edwin Mullins como se fosse a resposta mais racional. Em poucas cenas, uma hipótese produzida por um grupo privado transforma-se na possível sentença de morte de uma agente ucraniana. O que Errol apresenta em casa pode definir a política externa dos Estados Unidos.
Se ele fosse apenas um analista externo, por que Taylor Sheridan dedicaria tanto tempo a mostrar como plantar essa ideia na cabeça de Kaitlyn? E por que revelar somente agora que sua empresa foi escolhida pelo Departamento de Estado para estudar justamente o caso de Joe?
A pergunta mais importante talvez nem seja o que Errol sabe, mas quem encomendou aquele relatório e qual resposta esperava receber.

Errol pode ser culpado sem ter organizado o sequestro
Errol não precisa ser o homem que telefonou para Babat e mandou sequestrar Joe para estar envolvido. Ele pode ter produzido conscientemente uma análise destinada a incriminar Oleksandra; pode ter sido manipulado pela pessoa que contratou seu think tank; pode estar protegendo interesses econômicos ligados à Rússia, à Ucrânia ou à continuidade da guerra; ou pode ter servido como o canal perfeito para transformar desinformação em decisão de governo.
Existe ainda uma possibilidade mais interessante: Errol pode não perceber que está sendo usado. Sua segurança, seu dinheiro e sua certeza de que entende os movimentos geopolíticos talvez tenham feito dele uma ferramenta ideal. Nesse caso, sua culpa seria menos operacional e mais moral. Por vaidade intelectual, ele teria ajudado a manipular a própria mulher e colocado o projeto dela, seus agentes e Oleksandra em risco.
Isso também destruiria a regra central do casamento. Kaitlyn e Errol acreditam que conseguem trocar informações sem comprometer um ao outro, como se fosse possível separar intimidade, inteligência e poder dentro daquela casa. A terceira temporada pode estar mostrando que essa fronteira nunca existiu. Um deles sempre poderia transformar o outro em instrumento.
O verdadeiro traidor está no governo americano?
Outra teoria forte aponta para alguém dentro do Departamento de Estado ou do núcleo que assessora o presidente. Se Oleksandra foi incriminada e o relatório de Errol serviu para legitimar a acusação, alguém precisava ter acesso tanto às informações da CIA quanto aos canais necessários para contratar os iranianos e direcionar a análise posterior.

Nessa hipótese, o verdadeiro objetivo seria afastar os Estados Unidos da Ucrânia, favorecer a Rússia e eliminar Oleksandra antes que ela pudesse revelar quem realmente está infiltrado em Washington. Ela não seria a autora da conspiração, mas sua testemunha mais perigosa.
Há desconfianças também sobre o grupo responsável pela coordenação das operações, incluindo a personagem interpretada por Dawn Olivieri. Durante a procura por Joe, algumas decisões pareciam atrasar ou desviar a equipe, e houve resistência em investigar determinadas pistas. Isso pode ser apenas a burocracia cínica que Sheridan gosta de mostrar, mas também pode revelar que o vazamento não parte de uma única pessoa. Talvez exista uma rede interna protegendo seus próprios interesses.
Byron, Bobby e Kyle também são suspeitos?
Byron entrou na lista porque aceitou rapidamente a hipótese contra Oleksandra e demonstrou disposição para eliminá-la antes que o caso fosse plenamente esclarecido. Pode ser apenas o pragmatismo brutal que sempre definiu o personagem: para ele, se matar uma pessoa encerra uma crise internacional, a discussão termina ali. Entretanto, também é possível que Byron tenha pressa porque não quer que Joe chegue até o verdadeiro mandante.
Bobby também foi apontada por alguns espectadores, principalmente por causa de mensagens enviadas durante a operação, de alguns olhares ambíguos e de sua reação quando Joe anuncia que pretende encontrar e matar todos os responsáveis. Não compro essa teoria. A relação entre Bobby e Joe foi construída ao longo de três temporadas, e transformar Bobby em traidora exigiria muito mais do que gestos suspeitos usados na montagem de um trailer. Seu olhar pode significar apenas que ela conhece Joe o suficiente para saber até onde aquela promessa de vingança poderá levá-la.


Kyle desperta desconfiança por estar sempre próximo das decisões mais clandestinas e por operar com uma liberdade que nem mesmo os agentes da CIA parecem possuir. Mas foi essencial para localizar e resgatar Joe, colocando a própria vida e a carreira em risco. Se estiver envolvido, será uma reviravolta enorme e difícil de justificar apenas com as pistas apresentadas até agora.
Existe ainda a possibilidade de a família de Joe ter se tornado uma fonte involuntária. Kate pode ter exposto informações sobre a mãe nas redes sociais ou ter sido observada por alguém ligado à operação. Isso ajudaria a explicar como os sequestradores conheciam determinados aspectos da rotina de Joe, mas não seria suficiente para explicar toda a engenharia política construída em torno de Oleksandra.
E Aaliyah?
A teoria de que Aaliyah está viva continua possível e, para mim, a série não mencionaria seu nome de forma tão específica se não pretendesse reabrir aquela história. A questão é saber se ela retornará como responsável pelo sequestro ou como parte de algo ainda maior.
Aaliyah tinha motivos pessoais para odiar Cruz e Joe, embora nunca tivesse sabido, diante das câmeras, toda a verdade sobre a missão. Se sobreviveu e descobriu que Cruz matou seu pai e o noivo na noite do casamento, a vingança seria compreensível dentro da lógica da série. Mas organizar uma operação envolvendo iranianos, russos, ucranianos, agentes infiltrados e integrantes do governo americano exigiria uma estrutura que Aaliyah nunca demonstrou possuir.
Ela pode ser uma peça, uma fonte ou até mesmo a revelação final que prepara a próxima temporada. Neste momento, porém, a conspiração parece grande demais para ser apenas uma vingança pessoal.

Quem traiu Joe?
Minha aposta é que Oleksandra foi preparada para levar a culpa e que Errol terá uma participação importante na revelação, mas talvez não seja o cérebro da operação. Ele pode ser culpado, cúmplice ou apenas o homem escolhido para dar credibilidade a uma mentira. O verdadeiro traidor provavelmente está dentro do governo americano, ou tão próximo dele que consegue manipular a CIA, o Departamento de Estado e os analistas privados ao mesmo tempo.
Os iranianos sequestraram Joe, mas não parecem ter escolhido Joe. Oleksandra conhece informações demais, mas sua suposta operação prejudica a própria causa. Errol oferece a resposta no momento exato, embora ninguém saiba quem formulou a pergunta. E a administração americana já se prepara para eliminar a principal suspeita antes que Joe consiga interrogá-la.
A chamada do último episódio praticamente confirma que existe alguém de dentro. Agora precisamos descobrir se Joe chegará a essa pessoa antes que o governo mate Oleksandra, encerre oficialmente o caso e transforme mais uma mentira conveniente em verdade.
Talvez seja justamente esta a grande virada da melhor temporada de Lioness: Joe passou semanas procurando o inimigo no Irã, na Rússia e na Ucrânia, quando ele pode ter estado o tempo inteiro sentado em uma sala de Washington ou à mesa de jantar de Kaitlyn.
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