Antes mesmo da entrevista começar, Tom Cruise já está dirigindo a cena. Ele conversa com Zach Baron, da GQ, sobre enquadramento, linha de olhar e para qual olho o jornalista deve olhar durante a gravação. É uma orientação técnica, dessas que ajudam a manter o rosto bem posicionado diante da câmera e evitam que o olhar pareça inquieto na montagem. Também é uma abertura perfeita para uma entrevista na qual Cruise controla não apenas como será visto, mas até onde o entrevistador poderá enxergá-lo.
Aos 64 anos e com 45 anos de carreira, Tom Cruise voltou à capa da GQ depois de duas décadas para iniciar a campanha de Digger, a comédia sombria dirigida por Alejandro González Iñárritu que chega aos cinemas em outubro. Depois de receber o Oscar honorário, ele agora tem diante de si a possibilidade de disputar o prêmio competitivo de melhor ator por um personagem que descreve como o mais desafiador de sua trajetória. É o retorno do intérprete que trabalhou com Stanley Kubrick, Paul Thomas Anderson, Oliver Stone, Steven Spielberg, Michael Mann e Martin Scorsese, depois de anos em que o produtor, o dublê e o guardião das salas de cinema quase engoliram o ator.
Não há dúvida de que Cruise é um excelente ator, como provam Nascido em 4 de Julho, Magnólia, Colateral e De Olhos Bem Fechados. No entanto, seu lugar na história talvez seja ainda maior quando pensamos nele como superestrela. Pouquíssimos nomes sustentaram durante mais de quatro décadas tamanho reconhecimento global, poder de atração, controle criativo e capacidade de levar o público aos cinemas. Outros vieram e outros ainda virão, mas Cruise permanece num patamar muito particular entre os maiores astros já produzidos por Hollywood.

É por isso que uma entrevista longa com ele se transforma imediatamente em acontecimento. Cruise participa de junkets, aparece em estreias, conversa brevemente com jornalistas e distribui seu entusiasmo aparentemente inesgotável, mas há muitos anos não se senta diante de um repórter para a promessa de um perfil mais aprofundado. A entrevista da GQ dura quase meia hora e é anunciada como uma oportunidade rara de finalmente ouvir o homem mais esquivo de Hollywood. O problema é que, ao final, conhecemos muito sobre sua relação com o cinema e praticamente nada sobre sua vida.
Cruise fala da infância instável, das aproximadamente 15 escolas pelas quais passou em 16 anos e de como a necessidade de adaptação despertou nele a curiosidade pelo comportamento humano. Recorda que morou em casas alugadas e estabeleceu para si uma regra íntima: deixar cada lugar um pouco melhor do que o encontrou. Conta que escrevia seus sonhos num quadro, mas aprendeu cedo a não compartilhá-los com qualquer pessoa. Também lembra que, aos 18 anos, durante o Toque de Recolher, raspou a cabeça sem consultar o diretor porque levou ao pé da letra a instrução de criar o personagem.
Tudo isso, porém, é transformado em explicação para o profissional que se tornaria. Sua infância explica a curiosidade. As mudanças explicam sua capacidade de adaptação. Os sonhos explicam a ambição. Até uma lembrança familiar, quando cita a mãe e o respeito que ela lhe ensinou, é rapidamente incorporada à narrativa maior de dedicação, aprendizado e trabalho. Cruise não conta uma memória apenas para revelar algo sobre si; cada memória precisa ajudar a construir Tom Cruise.
O momento mais interessante acontece quando Zach Baron pergunta por que ele não concede uma entrevista assim há tanto tempo. Cruise não responde propriamente. Diz apenas: “Estive muito ocupado”, e imediatamente retorna ao discurso sobre competência, oportunidades, aprendizado e tudo o que deseja ensinar a outros artistas. Baron percebe a evasão e tenta novamente, perguntando por que Cruise decidiu finalmente parar e conversar. O ator menciona o tempo consumido pela pandemia, o esforço para manter as produções funcionando e conclui que este seria o momento de falar. Falar sobre cinema, naturalmente, nunca sobre sua vida.


Quando Baron pergunta o que Tom Cruise faz numa terça-feira comum, longe de um set, ele responde que está se preparando para o próximo projeto. Está sempre estudando alguma coisa, aprendendo uma nova habilidade ou planejando o filme seguinte. Quando perguntam onde vive, diz que sua casa são os sets e que se considera cidadão do mundo. Quando o jornalista quer saber qual seria a maior ideia equivocada a seu respeito, Cruise afirma que não pensa nisso. Quando a idade entra na conversa, ele recusa qualquer reflexão sobre limites e volta a falar de sonhos futuros.
Não há uma palavra sobre seus três filhos, incluindo Suri, de quem estaria afastado há anos. Não fala das ex-mulheres Mimi Rogers, Nicole Kidman e Katie Holmes, de relacionamentos atuais, da possibilidade de já ser avô ou da Cientologia, presença incontornável em sua biografia e nas controvérsias que cercam sua família. Seja por acordo formal, por uma condição implícita para a entrevista ou por escolha editorial, os limites são evidentes. A GQ conseguiu acesso a Tom Cruise, mas apenas ao Tom Cruise que ele escolheu oferecer.
Não julgo inteiramente Zach Baron. Diante de uma das maiores estrelas da história do cinema, com um acesso tão raro, qualquer jornalista saberia que uma pergunta indesejada poderia mudar o clima, encerrar a conversa e talvez impedir o próximo encontro. Eu também gostaria de saber muito mais, mas não tenho certeza de que, sentada diante de Tom Cruise, escolheria começar incomodando-o. Isso também faz parte do poder de uma superestrela: ela nem sempre precisa proibir explicitamente determinada pergunta, porque sua presença e as condições construídas ao redor dela podem realizar esse trabalho antecipadamente.
Cruise, por sua vez, não nega sua fama de controlador ou sua intensidade. Ao contrário, apropria-se dela com inteligência e bom humor. Confirma que “os rumores são verdadeiros”, diz que chega antes dos outros, trabalha muito e espera o mesmo compromisso de quem o acompanha. Ele afirma que avisa seus colegas sobre aquilo que encontrarão e pergunta se estão preparados para a experiência. Ao confessar a intensidade antes que ela seja usada contra ele, Cruise neutraliza a crítica: o controle deixa de parecer autoritarismo e passa a significar responsabilidade, enquanto a exigência se transforma em compromisso com a equipe e com o público.


Iñárritu reforça essa imagem ao descrever a capacidade quase assustadora de Cruise para absorver instruções. Durante uma cena complexa de Digger, com centenas de figurantes e movimentos cuidadosamente coordenados, o diretor lhe deu sete observações. Cruise ouviu, registrou cada uma delas e executou tudo, dominando ritmo, espaço, silêncio, agressividade, vulnerabilidade e relação com a câmera. É uma competência construída durante décadas, mas também uma necessidade permanente de compreender e controlar cada elemento da experiência.
Essa necessidade aparece ainda com mais clareza quando Cruise fala sobre o medo. Questionado se teme a morte, responde que não, mas faz uma distinção importante: isso não significa que não sinta medo. A sensação existe, apenas não o incomoda nem o paralisa. “Não tenho medo de sentir medo”, diz ele. Quando Baron tenta descobrir de onde vem essa necessidade de viver física e metaforicamente à beira do precipício, Cruise encerra a investigação: é simplesmente quem ele é.
As duas respostas resumem muito mais do que seus riscos físicos em Missão: Impossível. Cruise não se apresenta como um homem incapaz de sentir medo, mas como alguém que se recusa a ser governado por ele. O perigo torna-se estímulo; a incerteza, movimento; o medo, mais uma força a ser dominada e transformada em espetáculo. Ao mesmo tempo, quando afirma que isso é apenas parte de sua natureza, impede que a conversa avance para a pergunta psicológica mais interessante: por que ele precisa procurar permanentemente essa beira do precipício?
É assim durante toda a entrevista. Cruise permite que vejamos o mecanismo, mas não o que existe por trás dele. Explica como reage ao medo, não porque precisa enfrentá-lo. Revela como trabalha, mas não quem é quando deixa de trabalhar. Fala de sua curiosidade pelas pessoas, mas não oferece acesso às relações mais importantes de sua própria vida.
O discurso que resta é o do homem que vive para fazer cinema, ensinar o que aprendeu e aprender enquanto ensina. Cruise se apresenta simultaneamente como aluno e professor, artista e artesão, astro e servidor do público. Parece acreditar sinceramente nisso. Seu conhecimento técnico, sua memória e sua dedicação seriam difíceis de sustentar durante 45 anos apenas como estratégia promocional. Quando diz que fazer filmes não é apenas o que faz, mas quem é, provavelmente está dizendo a verdade.

Essa verdade, porém, é também a proteção perfeita. Ao transformar trabalho e identidade na mesma coisa, Cruise elimina a obrigação de revelar qualquer outra parte de si. Não existe uma terça-feira comum porque ele está trabalhando. Não existe uma casa porque sua casa é o set. Não existe passado porque está concentrado no próximo sonho. Não existe vida pessoal porque o cinema ocupa todo o espaço disponível na narrativa.
Tom Cruise começou a entrevista orientando o olhar de Zach Baron e passou os minutos seguintes fazendo exatamente a mesma coisa com a conversa. Sempre que o jornalista tentou olhar para o homem, Cruise reposicionou delicadamente seu olhar em direção ao cinema. Ao final, sabemos da vida de Tom Cruise exatamente aquilo que ele decidiu que podemos saber. E mesmo numa entrevista anunciada como rara, longa e pessoal, o acesso termina onde começaria a pessoa.
O que ele oferece em seu lugar é o personagem mais duradouro de sua carreira: Tom Cruise, o homem que vive exclusivamente para o cinema. Talvez seja uma construção, talvez seja a mais absoluta verdade ou, mais provavelmente, uma combinação perfeita das duas coisas. Em qualquer caso, o controle continua intacto — e foi justamente esse controle que ajudou a criar uma das maiores superestrelas da história de Hollywood.
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