Há cinquenta anos, Brian De Palma fez uma coisa particularmente cruel com Carrie White: antes de destruí-la, deixou que ela fosse feliz. Durante alguns minutos do baile de formatura de Carrie, a Estranha, lançado em 1976, a menina que passara a vida sendo humilhada pela mãe e pelos colegas, dança com Tommy Ross, sorri, relaxa e talvez acredite pela primeira vez que existe um lugar para ela naquele mundo. Nós sabemos que há um balde de sangue sobre sua cabeça. Ela não sabe. E é justamente por isso que, meio século depois, a cena continua quase insuportável de assistir.
A cultura popular transformou Carrie na garota coberta de sangue, com os olhos arregalados enquanto o ginásio pega fogo, mas esse não é o verdadeiro segredo do filme. Se Carrie fosse apenas uma adolescente furiosa que descobre poderes e decide se vingar, Brian De Palma teria feito um eficiente filme de horror. O que ele construiu foi uma tragédia. Primeiro conhecemos uma menina que não sabe sequer o que significa menstruar, que vive aterrorizada por uma mãe religiosa e que aprendeu na escola que qualquer diferença pode transformá-la em alvo. Depois, durante alguns minutos, o filme nos permite acreditar junto com ela que talvez seja possível escapar. É essa esperança que o balde destrói.
E talvez isso explique por que, depois de uma continuação, outras adaptações, um musical, uma refilmagem de cinema e agora uma série de Mike Flanagan, ninguém conseguiu realmente substituir a versão de 1976. Quando pensamos em Carrie White, ainda vemos Sissy Spacek.

De um primeiro romance a um clássico do cinema
Quando Carrie chegou às mãos de Brian De Palma, Stephen King estava longe de ser o escritor que hoje praticamente constitui um gênero em si mesmo. O romance, publicado em 1974, era seu primeiro livro publicado, e De Palma contou posteriormente que soube dele por intermédio de um amigo escritor. Gostou, descobriu que os direitos ainda não haviam sido comprados e começou a perseguir o projeto. Depois de passar pela 20th Century Fox, a adaptação acabou na United Artists, que insistiu para que De Palma assumisse a direção.
Foi uma combinação particularmente feliz porque De Palma não tinha reverência pelo livro. Ele entendeu alguma coisa que continua separando adaptações memoráveis de adaptações apenas corretas: fidelidade não significa transcrição.
O romance de King é estruturado como a reconstrução de uma catástrofe. A narrativa é interrompida por depoimentos, investigações, livros, documentos e estudos sobre telecinese. Desde cedo sabemos que algo terrível aconteceu e observamos uma sociedade tentando explicar depois aquilo que ajudou a produzir. O primeiro roteiro chegou a preservar parte desse material, mas De Palma e o roteirista Lawrence D. Cohen o abandonaram. Também reduziram drasticamente a escala da destruição. No livro, depois do baile, Carrie praticamente devasta Chamberlain; no filme, a tragédia é concentrada na escola, na estrada e, finalmente, naquela casa sufocante onde vive com Margaret.
A decisão foi fundamental. De Palma transformou uma catástrofe coletiva numa experiência emocional extremamente íntima.
Stephen King aprovou. Anos depois, disse que o filme era artisticamente mais elegante do que seu próprio romance e elogiou tanto a direção quanto Sissy Spacek. É uma comparação especialmente interessante diante da guerra que King travaria depois contra Stanley Kubrick por O Iluminado. Com De Palma, ele compreendeu que as mudanças não traíam Carrie: encontravam uma linguagem cinematográfica para ela.

Sissy Spacek não deveria ser Carrie
Hoje chega a parecer absurdo imaginar outra atriz naquele papel, mas Sissy Spacek precisou conquistar Carrie. De Palma não estava convencido de que ela fosse sua protagonista e a enxergava mais facilmente como Chris Hargensen, a garota que organiza a humilhação do baile. Quando chegou a hora do teste definitivo, Spacek resolveu fazer exatamente o contrário do que se esperava de uma jovem atriz tentando conseguir um papel em Hollywood. Passou vaselina nos cabelos, dispensou maquiagem e apareceu usando um velho vestido de marinheiro que a mãe havia feito para ela na época da escola. Enquanto as outras candidatas procuravam parecer bonitas, Spacek decidiu parecer Carrie. De Palma lhe deu o papel.
Essa escolha é uma das razões pelas quais o filme ainda funciona. Spacek não interpreta Carrie como uma criatura que espera para se transformar em monstro. Ela é desajeitada, estranha, assustadoramente vulnerável e, ao mesmo tempo, nunca completamente passiva. Há alguma coisa naquela menina que parece estar sempre prestes a quebrar ou explodir. Quando finalmente surge no baile com o vestido, os cabelos arrumados e um sorriso que quase não sabemos existir, a transformação é tão grande que compreendemos imediatamente o que está em jogo.
Piper Laurie produziu outro tipo de milagre. Ela estava há cerca de 15 anos afastada do cinema quando voltou como Margaret White. A personagem lhe pareceu inicialmente tão excessiva que Laurie imaginou estar participando de uma espécie de comédia negra. De Palma precisou convencê-la de que Margaret precisava acreditar absolutamente em tudo o que dizia. O resultado fica naquele lugar extraordinário entre o assustador, o grotesco e o quase operístico. Margaret pode ser monstruosa, mas nunca parece estar interpretando a vilã de sua própria história.
E basta olhar em volta para perceber a quantidade impressionante de gente que ainda estava começando. Amy Irving é Sue, Nancy Allen é Chris, William Katt interpreta Tommy e John Travolta, pouco antes de Os Embalos de Sábado à Noite transformá-lo em astro, aparece como Billy Nolan.


Existe ainda uma deliciosa coincidência da história de Hollywood: George Lucas e Brian De Palma realizaram parte das audições de Star Wars e Carrie juntos. Jovens atores chegavam para serem avaliados pelos dois diretores, enquanto Lucas procurava Luke, Leia e Han e De Palma montava sua escola infernal. Amy Irving recordaria que conheceu De Palma numa audição para Star Wars; P.J. Soles contou que entrou naquele processo e acabou na lista de Carrie. Dois filmes de 1976 e 1977 que ajudariam a mudar para sempre Hollywood procuravam seus rostos praticamente na mesma sala.
O filme muda quando Carrie entra no baile
Tudo isso desemboca no verdadeiro feito de Brian De Palma. Nós sabemos que Carrie será humilhada. Mesmo quem nunca leu o livro provavelmente sabe. Hoje, então, não existe possibilidade de surpresa: a imagem do sangue se tornou uma das mais reproduzidas da história do terror. De Palma, portanto, não depende do que vai acontecer. Depende de quando vai acontecer. É uma diferença enorme.
Carrie chega ao baile esperando o desastre antes de nós. Ela está acostumada a ser ridicularizada e não consegue entender por que Tommy poderia querer estar ali com ela. Aos poucos, ele a tranquiliza. Eles conversam. Dançam. A câmera começa a girar ao redor dos dois e, por alguns instantes, o filme inteiro parece pertencer a outro gênero. Há romantismo, música, luz, movimento. Carrie ri.
Roger Ebert percebeu isso já em 1976. Para ele, o horror dos minutos finais funcionava porque nascia inevitavelmente de uma personagem que o público já conhecia e compreendia; não era uma catástrofe colocada artificialmente no fim de um filme. Pauline Kael também identificou no trabalho de De Palma aquela combinação muito própria de lirismo, humor, perversidade e suspense, em que sabemos que estamos sendo manipulados e mesmo assim nos deixamos conduzir. Enquanto Carrie dança, entretanto, nós sabemos algo que ela finalmente conseguiu esquecer. O balde continua lá.
De Palma prolonga sua felicidade precisamente porque entende que quanto mais felizes estivermos por ela, mais violenta será a queda. O horror não começa quando o sangue atinge o vestido. Começa quando percebemos que Carrie acreditou.

Pino Donaggio e o fantasma de Psicose
A música desempenha um papel enorme nessa construção. De Palma pretendia trabalhar novamente com Bernard Herrmann, o compositor de Hitchcock que já havia feito para ele Irmãs Diabólicas e Trágica Obsessão. Herrmann morreu em dezembro de 1975, antes que pudesse compor Carrie. Foi o crítico Jay Cocks quem sugeriu Pino Donaggio, depois de ouvir seu extraordinário trabalho para Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg.
Donaggio encontrou o tom perfeito porque não compôs apenas uma trilha de horror. Sua música pode ser delicada, sentimental e romântica, quase como se estivesse acompanhando o filme que Carrie gostaria que sua vida fosse. É isso que torna a passagem para o terror tão agressiva.
Ao mesmo tempo, o fantasma de Herrmann permanece por toda parte. Durante a montagem, De Palma havia usado músicas temporárias de Psicose, Irmãs Diabólicas e outras trilhas do compositor. Quando a telecinese de Carrie entra em ação, aqueles golpes agudos de cordas deliberadamente evocam Psicose. Não se trata de uma referência escondida para cinéfilos: De Palma queria que reconhecêssemos instintivamente aquela linguagem de perigo.
Há muito Hitchcock em Carrie, mas nunca simplesmente copiado. De Palma pega técnicas que conhecemos e as transforma em algo mais febril, sexual, adolescente e excessivo. A tela dividida durante o massacre, os movimentos de câmera, o slow motion, a montagem de Paul Hirsch e a fotografia de Mario Tosi fazem do baile uma sequência que pode ser desmontada plano a plano e ainda assim manter a capacidade de nos atingir.
A mão que se recusou a deixar Carrie morrer
E então há o final. Depois de tanta violência, De Palma aparentemente nos oferece silêncio. Sue Snell caminha até o terreno onde ficava a casa dos White, aproxima-se das flores deixadas diante de uma placa e parece finalmente haver espaço para respirar. A mão de Carrie rompe o solo e agarra seu braço. É um sonho, claro. Mas pouco importa.
A imagem tornou-se uma espécie de ancestral de incontáveis sustos finais do cinema moderno. A narrativa terminou, o monstro foi destruído, a vítima sobreviveu, e então o filme nos avisa que trauma nenhum obedece aos créditos.
Carrie teve enorme sucesso comercial e conseguiu algo ainda incomum para o terror: colocou Sissy Spacek e Piper Laurie no Oscar, respectivamente, como Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. O filme não foi recebido apenas como uma eficiente máquina de sustos. Críticos importantes viram nele aquilo que continua evidente 50 anos depois: por baixo da telecinese existe uma história humana terrivelmente reconhecível.

Tentaram outra vez. E outra. E outra.
É possível fazer outra Carrie. A história já provou isso. Tivemos A Maldição de Carrie, em 1999, que funcionava como continuação; Angela Bettis assumiu o papel num telefilme de 2002; Chloë Grace Moretz e Julianne Moore protagonizaram a adaptação de 2013; o musical chegou à Broadway e adquiriu sua própria história de culto. Agora Mike Flanagan transformou o romance em série.
Mas há uma diferença entre refazer uma narrativa e substituir uma imagem. Nenhuma das versões posteriores conseguiu fazer isso. Talvez porque De Palma tenha encontrado algo que não depende de tecnologia, época ou fidelidade ao romance. O vestido, o sangue e a telecinese são reproduzíveis. A felicidade de Carrie antes do sangue não é.
É ali que Sissy Spacek faz o filme permanecer. Durante aqueles poucos minutos, ela não é um ícone do horror, não é a adolescente com poderes sobrenaturais e ainda não é a figura que será imitada, parodiada e homenageada durante meio século. É simplesmente uma menina que descobre, surpresa, que pode ser bonita, desejada e aceita. William Katt olha para ela sem crueldade. As pessoas a aplaudem. Seu nome é anunciado. Pela primeira vez, Carrie ocupa o centro daquela escola sem querer desaparecer.
E então De Palma destrói tudo.

O problema de Mike Flanagan
É por isso que a missão de Mike Flanagan talvez seja ainda mais difícil do que parecia quando sua nova versão foi anunciada. Ele não precisa apenas convencer uma geração de que a história de Carrie continua relevante; isso é relativamente simples. Bullying, fanatismo, repressão, misoginia e humilhação pública infelizmente envelheceram muito bem. Flanagan também já demonstrou que sabe encontrar novas camadas em Stephen King, como fez em Jogo Perigoso, Doutor Sono e A Vida de Chuck.
Seu verdadeiro desafio é outro. Ele precisa criar uma Carrie que possa existir ao lado de Sissy Spacek sem tentar apagá-la. Porque cinquenta anos de refilmagens, continuações, homenagens e referências provaram uma coisa curiosa: podemos mudar a escola, a época, a mãe, o bullying, a tecnologia e até a forma de contar a história. Mas basta alguém dizer Carrie para que ainda vejamos aquela garota imóvel, completamente ensanguentada, olhando para uma plateia que acredita estar rindo dela. É uma imagem terrível. Mas talvez o verdadeiro triunfo de Brian De Palma seja que, 50 anos depois, ainda nos lembramos de como ela estava feliz poucos minutos antes.
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