Há episódios de Ted Lasso que emocionam porque parecem espontâneos e outros que mostram tanto esforço para produzir uma mensagem edificante que quase podemos enxergar a sala dos roteiristas montando cada metáfora. “Yes & Baby”, o sétimo episódio da quarta temporada, pertence inicialmente ao segundo grupo. A brincadeira com “yes, and”, princípio básico do improviso, é repetida, explicada e encenada tantas vezes que o resultado chega a ser constrangedor. Ainda assim, quando a série finalmente abandona a dinâmica de workshop motivacional e volta a olhar para seus personagens, algumas coisas importantes acontecem.
O episódio começa mostrando a realidade das jogadoras fora do campo, algo que a temporada precisava fazer há muito tempo. Lizzie volta a ser decepcionada pelo ex, Gemma precisa conciliar o treino com uma entrevista para um estágio em um escritório de advocacia, Niamh e Siobhan enfrentam outro aumento de aluguel, Shannon continua entregando pizzas apesar de agora jogar profissionalmente, e o carro de Boots quebra. O futebol pode ser o sonho, mas ainda não paga todas as contas nem resolve a falta de estrutura que acompanha o esporte feminino.
É nesse contexto que Alice retorna depois da suspensão, decidida a mudar completamente sua maneira de trabalhar. Influenciada por um podcast de autoajuda, passa a dizer “sim” para tudo. Aceita que Lizzie leve o filho ao treino, permite que Gemma chegue atrasada e concorda até quando as jogadoras começam a fazer pedidos absurdos, como treinar descalças ou vendadas. A intenção é boa: Alice compreendeu que sua rigidez a estava afastando do grupo. O problema é que substituir autoridade por submissão não transforma ninguém em uma treinadora melhor.

Ted e Beard então apresentam a ela o conceito do “sim, e…”, usado no improviso para aceitar a proposta do outro e acrescentar alguma coisa à cena. A solução é óbvia demais, especialmente porque a série explica o mecanismo até não restar qualquer espaço para o espectador chegar sozinho à conclusão. No entanto, Alice finalmente entende que pode ouvir as jogadoras sem abandonar seu próprio conhecimento.
A mudança aparece em sua relação com Shannon. Quando a jovem pede para treinar com o grupo principal, Alice diz sim, mas acrescenta uma orientação: ela precisa parar de pensar tanto e simplesmente jogar. Shannon responde imediatamente, mostrando a habilidade que havia ficado escondida pela insegurança. É um momento pequeno, mas importante, porque Alice não deixa de ser exigente. Ela apenas aprende a usar a exigência para desenvolver uma atleta, não para diminuí-la.
O mesmo raciocínio aparece quando Alice leva o conhecido cartaz “Believe” para o vestiário feminino. As jogadoras não se impressionam. Para mulheres que precisam cuidar dos filhos, entregar pizzas, comparecer a entrevistas de emprego e encontrar dinheiro para o aluguel, acreditar não é suficiente. Elas já acreditaram o bastante para chegar até ali. Alice, então, aplica a lição de Ted e acrescenta duas palavras ao slogan: “Believe and Win”. A crença deixa de ser apenas uma promessa abstrata e passa a exigir ação e resultado.
Enquanto Alice tenta encontrar um novo equilíbrio, Rebecca e Higgins precisam enfrentar Derek Tarp, o agente de Dani Rojas. Ele afirma que Dani está insatisfeito no Richmond e recebeu uma proposta do Newcastle, usando a suposta transferência para pressionar o clube por mais dinheiro. Roy, outro cliente seu, também entra na negociação como ameaça futura.

É Zelda quem percebe o blefe. Em uma cena deliberadamente exagerada, ela telefona para Derek fingindo ser uma americana, enquanto Rebecca assume o papel de secretária com um sotaque igualmente absurdo. Higgins confirma com seus contatos que o Newcastle jamais fez a proposta, deixando o agente sem qualquer poder de negociação. Derek retorna derrotado e muito mais cooperativo.
A sequência é longa, caricata e confirma por que Zelda continua sendo uma presença difícil de engolir. Ao mesmo tempo, mostra que ela conhece os jogos de poder do futebol e sabe usar métodos que Rebecca jamais adotaria. Impressionada, Rebecca a convida para se tornar consultora especial do Richmond. Pode ser uma excelente contratação, mas a história do escorpião contada por Zelda deixa um aviso bastante claro: ela pode ajudar o clube sem necessariamente deixar de ser perigosa.
Roy, por sua vez, volta ao trabalho usando um scooter para se locomover depois do acidente da festa de Ano-Novo e sem se lembrar direito do que disse no hospital. Erin lembra. Durante uma consulta, Roy passa mais tempo falando sobre Keeley e sobre a discussão dos dois em torno do convite para integrar o Wall of Legends do Chelsea do que prestando atenção na própria namorada.

Erin finalmente diz o que todos já sabem: Roy continua apaixonado por Keeley. Ele explica que começou a sair com outras mulheres por causa do desafio dos dez encontros e que não esperava realmente se envolver com alguém. Gostar de Erin, porém, não significa estar emocionalmente disponível para ela. Os dois terminam sem gritaria, vilões ou ressentimento, numa conversa surpreendentemente adulta para uma série que tantas vezes recorre a mal-entendidos artificiais. Roy aprendeu alguma coisa com a relação, mas já não pode continuar usando Erin para evitar Keeley.
Beard também atravessa sua própria crise. Depois de ser chamado de velho na festa, aparece com cabelo pintado, bronzeamento e lentes de contato assustadoras, tentando recuperar uma juventude que obviamente não perdeu apenas na aparência. É engraçado, mas há algo mais triste acontecendo com ele, e a temporada continua adiando a explicação.
Ted enfrenta outra forma de insegurança. Depois da conversa com Michelle, decide criar um perfil no Bantr, mas trava quando precisa escolher três palavras para se definir. Ele consegue enxergar qualidades em todos à sua volta, especialmente em Keeley, mas não sabe como olhar para si mesmo. Quando escolhe “esperançosa, resiliente e gentil”, percebe que está descrevendo Keeley, não Ted Lasso.
Sua resposta surge mais tarde: “I am lovable”, ou “eu sou digno de ser amado”. A frase tem a clareza quase infantil das grandes conclusões da série, embora chegue cercada por uma quantidade considerável de autoajuda. Ted termina o perfil, olha para ele e decide apagá-lo. Em vez de esperar que um aplicativo escolha alguém, volta ao teatro onde conheceu a gerente de palco.
Como ainda não sabe o nome dela, Ted assobia nos bastidores, lembrando que ela havia dito que isso dá azar no teatro. Ela aparece, ele finalmente a convida para sair e recebe um não. A mulher já está se relacionando com alguém que, ironicamente, conheceu em um aplicativo. A recusa é gentil: se estivesse solteira, teria aceitado. Ted sai sem o encontro e, inacreditavelmente, sem perguntar novamente o nome dela.

O episódio não termina com uma conquista romântica, mas com uma mudança mais importante. Ted aceita que pode ser amado e se permite correr o risco de ouvir um não. É a mesma transformação proposta pelo novo cartaz do Richmond: acreditar continua sendo necessário, mas acreditar sem agir é apenas uma forma mais bonita de permanecer parado.
“Yes & Baby” exagera nas lições, insiste em piadas que deveriam terminar antes e transforma parte do episódio numa aula de improvisação particularmente constrangedora. No entanto, quando Alice acrescenta “and win” ao velho “Believe”, a temporada encontra uma ideia que justifica o esforço. O Richmond feminino não precisa apenas herdar os símbolos da equipe masculina. Precisa questioná-los, modificá-los e torná-los seus.
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