Blood of My Blood: quando saber o fim aumenta a emoção

Entrevista publicada no Blog do Amaury Jr./ Splash UOL

Há um problema básico em toda prequela: nós já sabemos demais. Conhecemos os personagens que virão depois, muitas vezes sabemos quem sobrevive, quem morre, quem se casa e até quais filhos serão importantes. Em tese, o suspense desapareceu antes mesmo da história começar. Outlander: Blood of My Blood, porém, encontrou uma maneira inteligente de transformar essa limitação em parte do seu apelo.

A segunda temporada estreia no Disney+ no Brasil em 19 de setembro, com um novo episódio aos sábados, e retoma as histórias dos pais de Jamie Fraser e Claire Beauchamp em um momento em que os dois casais voltam a ser separados. De um lado estão Brian Fraser e Ellen MacKenzie, no início da Rebelião Jacobita de 1715; de outro, Henry e Julia Beauchamp, tentando reencontrar o caminho para sua época e para a filha que deixaram para trás.

Conversei com exclusividade com Jamie Roy, Harriet Slater e Jeremy Irvine sobre essa espécie de paradoxo da série. O público de Outlander conhece muito mais sobre Brian e Ellen do que os próprios personagens sabem sobre o futuro que os espera. Sabemos que ficarão juntos, que terão filhos, que construirão Lallybroch. Sabemos também das perdas que virão. Como manter a curiosidade quando o destino, em grande parte, já está escrito?

Jamie Roy, que interpreta Brian, tem uma resposta simples e bastante precisa. Para ele, conhecer o final não significa conhecer uma história. É como abrir um livro na última página: você pode descobrir o que aconteceu, mas aquilo não terá peso algum se não souber o que foi necessário para chegar até ali.

“Sabemos alguns fatos sobre a vida de Brian e Ellen. Sabemos que eles ficam juntos, se casam, têm filhos, constroem Lallybroch”, lembra. O que falta, segundo ele, ocupa um espaço enorme. “Só porque eles ficaram juntos não significa que foram felizes o tempo todo. Quem pode dizer que Brian e Ellen não brigavam? Como seria uma discussão entre eles?”

É uma observação que explica muito do que funcionou na primeira temporada. Blood of My Blood não precisava inventar um novo destino para personagens que já faziam parte da história de Outlander. Precisava dar vida ao intervalo.

Lallybroch é um ótimo exemplo. Para quem acompanha Outlander, a casa é quase um personagem. Sabemos o que ela representa para Jamie, conhecemos seu lugar na história dos Fraser e sabemos que Brian a construiu. Roy olha para a informação conhecida e faz as perguntas que a prequela pode responder: quanto tempo levou? O que aconteceu durante a construção? Alguma coisa precisou ser refeita? Há uma vida inteira escondida entre duas frases da história familiar.

Harriet Slater enfrenta algo parecido com Ellen MacKenzie. Ellen sempre existiu em Outlander, mas como memória. Conhecemos sua importância através de quem veio depois dela. Nunca tivemos acesso à mulher antes que ela se transformasse naquela figura quase mítica da família Fraser.

“Sabemos que Ellen morre e que tem alguns filhos, mas, fora isso, não sabemos muito sobre ela ou sobre sua vida”, diz Harriet. “Nunca a vimos antes. Só ouvimos algumas coisas sobre ela através de outros personagens em Outlander.”

E talvez esse seja o ponto em que Blood of My Blood se torna mais interessante para quem já passou tantos anos com Jamie Fraser. Harriet fala sobre conhecer as provações que fizeram de Ellen quem ela é e, consequentemente, compreender um pouco melhor o filho que ela criou.

Não significa reduzir Jamie a seus pais ou transformar personalidade em uma conta simples de causa e efeito. Mas é impossível assistir a Brian e Ellen sem reconhecer alguns ecos. O sentido de família, a lealdade, a relação entre amor e dever, a ideia de pertencimento a um lugar e a um clã. Aquilo que em Outlander já estava pronto agora ganha uma história anterior.

Jeremy Irvine tem um problema narrativo diferente. Henry e Julia Beauchamp não chegam à prequela carregando um futuro tão detalhado quanto Brian e Ellen. Sabemos, evidentemente, que Claire existe. Fora isso, há muito mais território desconhecido.

“Com Henry e Julia, a história deles não foi contada anteriormente”, observa Irvine. “Não sabemos realmente onde eles terminam.” Para um ator dentro de uma prequela, é quase um privilégio: enquanto parte do elenco trabalha dentro das fronteiras de um destino conhecido, Henry e Julia ainda possuem zonas muito mais amplas de incerteza.

Na nova temporada, Henry talvez seja também quem paga o preço emocional mais alto. Quando conversei com Jeremy, disse a ele que considero Henry um dos personagens mais trágicos dessa parte da saga. Ele já chega traumatizado, é novamente separado, está dividido entre mulher, filhos, passado e presente e começa a perder até a segurança sobre aquilo que vê.

Irvine gosta desse aspecto do personagem como ator. “Ele não tem certeza do que é real e do que não é. Não sabe se alguma coisa é uma alucinação ou se está realmente ali”, explica. Depois de tudo o que Henry já viveu, a mente fragmentada passa a fazer parte da própria narrativa. Para nosso alívio, Jeremy promete que existirão alguns momentos mais leves. Não muitos, aparentemente.

Se a primeira temporada apresentou e aproximou esses dois grandes romances, a segunda coloca novamente a História entre os casais. No caso de Brian e Ellen, de forma literal.

Eles acabaram de conquistar a liberdade e a possibilidade de ficarem juntos quando as cruzes são acesas e anunciam que a guerra está chegando. Ellen precisa voltar para os MacKenzie; Brian retorna ao lado dos Fraser. A Rebelião Jacobita de 1715 divide as Terras Altas e obriga os clãs a escolherem lados. Na trama anunciada pelo Disney+, Brian se compromete a lutar ao lado do pai, Lord Lovat, enquanto Ellen tenta proteger seu próprio clã das consequências do conflito.

“As apostas são muito mais altas para todos”, diz Harriet. Para ela, há algo particularmente cruel na nova separação porque Brian e Ellen já sabem que encontraram um ao outro. Agora precisam aceitar que fazem parte de uma história maior do que o próprio romance. “Eles estão lutando um pelo outro, mas também por seus clãs e pela Escócia.”

Há também uma distância cultural que a série precisa vencer. Para nós, espectadores do século 21 — e especialmente para quem não cresceu estudando a história escocesa —, a reação imediata pode ser simples: se Brian e Ellen querem ficar juntos, por que não fogem?

Jamie Roy faz questão de lembrar que essa escolha quase não existia.

Abandonar as obrigações com o clã, explica, poderia significar exílio ou morte. O pertencimento não era apenas sentimental; organizava família, proteção, identidade e sobrevivência. “O amor é importante, mas as obrigações com o clã, especialmente quando estamos falando de algo tão grande quanto uma guerra, acabam tendo precedência.”

Harriet acrescenta outro detalhe que ajuda a compreender a dimensão do conflito: a Escócia não possuía, naquele contexto, um exército nacional permanente nos moldes que imaginaríamos hoje. Os próprios clãs forneciam os homens, divididos inclusive entre diferentes lealdades. Pessoas comuns precisavam se transformar em soldados porque, como ela resume, não havia “alguém” que pudesse lutar no lugar delas.

Essa aproximação com a história real foi uma descoberta também para o elenco. Jamie conta que aprendeu muito sobre as revoltas jacobitas simplesmente lendo os roteiros e depois começou a pesquisar por conta própria.

“Eu lia e pensava: ‘Ah, isso é interessante’. Depois pesquisava e descobria: ‘Nossa, realmente aconteceu assim’”, conta. Para ele, a série consegue algo que Outlander sempre soube fazer muito bem: entreter enquanto empurra o espectador para a História.

Jeremy Irvine fala da mesma experiência por outro ângulo. Nas grandes cenas de batalha, figurinos, cenários e detalhes de produção ajudam os atores a entrar naquele mundo. “Você olha ao redor e pensa: ‘Uau, provavelmente era realmente muito parecido com isso’.”

Talvez seja essa a melhor resposta para a pergunta que uma prequela inevitavelmente precisa enfrentar. Por que voltar, se sabemos onde tudo termina?

Porque saber que Brian e Ellen terão Jamie não nos diz quem eles foram quando se apaixonaram. Saber que Claire nasceu não explica Henry e Julia. Saber que Lallybroch existe não conta como aquela casa foi construída. E saber que alguns desses personagens terão finais trágicos pode tornar cada pequeno momento de felicidade ainda mais doloroso, não menos.

Eu disse a eles durante nossa conversa que, de certa maneira, Blood of My Blood nos transforma em uma audiência cruel. Quanto mais obstáculos aparecem, mais história temos para assistir. Sofremos quando eles se separam, mas sabemos que a separação significa mais episódios, mais caminhos e mais respostas.

Jamie Roy riu. Harriet Slater também. Talvez eles saibam que esse sempre foi o pacto de Outlander conosco. Amor nunca foi garantia de felicidade. Foi apenas a razão para continuar lutando.


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