Swan Song: por que o livro sobre Diana não surpreende

Por que algumas pessoas parecem tão surpresas com o que Charles Spencer começa a contar em Swan Song: Diana, My Sister? O livro ainda nem foi lançado e, portanto, conhecemos apenas os trechos antecipados pela imprensa, mas eles já foram suficientes para provocar uma reação raramente tão direta do Palácio de Buckingham. Talvez a resposta seja geracional. Se você tem menos de 30 anos e conheceu essa história principalmente por meio de The Crown, é possível que esteja encontrando agora um Charles muito diferente daquele que a série construiu. Para quem viveu a morte de Diana e se lembra da percepção pública da família real em 1997, porém, há pouco de verdadeiramente novo.

Spencer afirma que, ao conversar com o então príncipe Charles depois da morte da irmã, ouviu um homem estranhamente eufórico, quase como alguém que havia ganhado na loteria. Durante uma discussão sobre a participação de William e Harry no cortejo fúnebre, Charles teria perdido a calma e dito que todos esqueceriam Diana em pouco tempo. O rei contesta essa memória sem negar diretamente a frase: em uma declaração cuidadosamente escrita, o Palácio afirmou que a dor de um irmão pode afetar o julgamento, obscurecer a razão e colorir lembranças mesmo décadas depois.

É uma resposta reveladora. Em vez de dizer que Charles jamais pronunciou aquelas palavras, o Palácio questiona a capacidade de Spencer de recordá-las. Spencer, por sua vez, sustenta que repetiu o comentário a amigos e familiares ainda naquela época justamente porque ficou chocado. Não temos como entrar naquela conversa telefônica quase 30 anos depois, mas podemos perguntar se o comportamento descrito é incompatível com o que se sabia sobre o então príncipe de Gales. Richard Kay, jornalista do Daily Mail, amigo de Diana e testemunha privilegiada daquele período, diz que não. Ele não confirma uma conversa que não ouviu, mas tampouco encontra no relato algo incoerente com o ambiente e as atitudes que testemunhou.

Esse é o ponto que se perde quando cada nova revelação sobre Diana é tratada como uma bomba completamente inesperada. Seu casamento com Charles foi infeliz, a separação foi devastadora e o divórcio, concluído em 1996, ocorreu em meio a uma guerra pública e privada. Diana manteve o título de princesa de Gales, mas perdeu o tratamento de Sua Alteza Real. Depois de anos nos quais sua popularidade frequentemente superava a dos próprios Windsor, passou a ser tratada dentro de certos círculos como uma mulher que havia se beneficiado da monarquia e agora usava essa visibilidade contra a instituição.

A ideia de que Diana acabaria desaparecendo quando deixasse de ocupar formalmente um lugar na família real parece hoje quase absurda, mas corresponde ao instinto histórico da instituição: quem sai do centro da monarquia perde acesso, relevância e, com o tempo, presença pública. Algo semelhante pode ser reconhecido, guardadas todas as diferenças, na relação com Harry e Meghan. O casal deveria ter se tornado progressivamente menos importante depois de deixar as funções oficiais. Isso não aconteceu principalmente porque continuou falando. Diana também não se calava, mas possuía algo ainda mais difícil de controlar: uma capacidade quase incomparável de atrair atenção simplesmente ao aparecer.

A visibilidade excessiva não foi a única causa de sua morte, mas ajudou a criar as circunstâncias daquela noite em Paris, quando fotógrafos perseguiram o carro em que ela estava. Seria irresponsável transformar essa constatação em uma explicação única para o acidente, assim como seria irresponsável ignorar a investigação que apontou a velocidade, o estado do motorista e a ausência do cinto de segurança entre os fatores determinantes. Ainda assim, Diana morreu porque sua imagem havia se tornado uma mercadoria global. Todos queriam vê-la, fotografá-la, protegê-la, possuí-la ou falar por ela.

O silêncio seletivo dos Spencer

Charles Spencer também não ocupa nesta história o lugar simples do irmão que finalmente decidiu contar a verdade. Ele é uma figura tão complexa quanto todos os outros envolvidos. Desde o discurso no funeral de Diana, assumiu o papel de voz pública dos Spencer, enquanto as irmãs, Lady Sarah McCorquodale e Lady Jane Fellowes, mantiveram um silêncio quase absoluto. Spencer afirma que decidiu escrever o livro diante da aproximação do trigésimo aniversário da morte da irmã, em 2027, reunindo suas lembranças, anotações feitas na época e o relato de outras pessoas.

O momento escolhido levanta perguntas. Richard Kay observou que Spencer não apenas esperou a proximidade da data simbólica, como publicou o livro depois da morte de Robert Fellowes, marido de Jane Spencer e secretário particular de Elizabeth II entre 1990 e 1999. Fellowes, que morreu em julho de 2024, estava em uma posição familiar quase impossível: era cunhado de Diana e, ao mesmo tempo, um dos principais auxiliares da rainha durante a separação, o divórcio e a morte da princesa.

Não sabemos se existia um pacto explícito entre os Spencer para que determinados episódios jamais fossem revelados. No entanto, é razoável supor que havia uma rede de lealdades, afetos e silêncios. Lady Jane era irmã de Diana, esposa do secretário da rainha e tia de William e Harry. Enquanto Robert Fellowes estivesse vivo, uma acusação de Charles Spencer contra o Palácio poderia atingir também o marido de sua irmã e o papel desempenhado por ele durante a maior crise da monarquia contemporânea. Agora, Elizabeth II e Robert Fellowes estão mortos, e Charles Spencer parece considerar que o tempo da contenção terminou.

Isso não o transforma automaticamente no narrador definitivo da vida de Diana. Foi o próprio Spencer quem aproximou a irmã de Martin Bashir, o jornalista da BBC que usou documentos falsos e alegações enganosas para conquistar sua confiança e conseguir a entrevista ao Panorama, exibida em novembro de 1995. A investigação independente conduzida por Lord Dyson concluiu que Bashir agiu de maneira fraudulenta e que a BBC falhou posteriormente ao investigar seus métodos.

William afirmou que as mentiras contadas à mãe contribuíram significativamente para seu medo, sua paranoia e seu isolamento. Harry preferiu ampliar a responsabilidade e relacionou a tragédia à cultura de exploração e às práticas antiéticas da imprensa. Charles Spencer também sustenta que a manipulação de Bashir desencadeou uma sequência de acontecimentos que deixou Diana cada vez mais isolada e sem uma proteção adequada. Há verdade em todas essas leituras, mas também existe uma pergunta desconfortável para o próprio conde: como ele pretende tratar no livro sua participação na aproximação entre Diana e o repórter?

Spencer não inventou os medos da irmã. Diana tinha razões concretas para desconfiar de pessoas próximas, dos cortesãos e de uma imprensa que publicava histórias plantadas por diferentes lados da guerra dos Wales. O problema é que Bashir alimentou essa desconfiança com informações falsas, fazendo com que ameaças reais e fantasias de conspiração se misturassem de uma maneira que Diana já não conseguia separar facilmente. Ela não era simplesmente paranoica, mas estava emocionalmente vulnerável e cercada por pessoas que descobriram como usar seus medos.

É essa complexidade que impede qualquer versão pura da história. William acredita que a mãe foi manipulada e teve sua fragilidade agravada por quem deveria protegê-la. Harry enxerga sua morte como resultado final de uma cultura de exploração que nunca terminou. Spencer se apresenta como o irmão que tentou defendê-la, embora tenha aberto a porta para Bashir. O Palácio afirma ter sido injustamente responsabilizado, mas passou décadas plantando, corrigindo e negociando narrativas sobre Diana, Charles e Camilla. Todos dizem desejar apenas que a verdade seja conhecida. Todos também disputam o direito de definir qual verdade sobreviverá.

O Charles de A Rainha e o Charles de The Crown

Talvez a maior explicação para o espanto atual esteja na ficção. A Rainha, de Stephen Frears, foi lançado em 2006, menos de dez anos depois da morte de Diana e ainda sob o impacto da imagem que se consolidou em 1997. Escrito por Peter Morgan, o filme não trata Charles como o único integrante sensível da família. Ao contrário: mostra um homem inseguro, vaidoso, assustado com a possibilidade de que a indignação popular destrua também sua imagem e disposto a se aproximar de Tony Blair para pressionar a própria mãe.

A Elizabeth II de Helen Mirren — interpretação que lhe rendeu o Oscar — demora a compreender a dimensão da crise, mas preserva dignidade e coerência. Ela acredita estar respeitando os netos, o protocolo e o caráter privado de uma morte que, formalmente, já não pertencia à família real. Charles, interpretado por Alex Jennings, percebe antes dela que nada na morte de Diana será privado. No entanto, essa percepção não nasce apenas de uma sensibilidade maior. Nasce do medo e do instinto de sobrevivência.

O filme já sugeria, com menos cores e menos emoção, muito do que Charles Spencer agora afirma. Charles podia estar sinceramente abalado e, ao mesmo tempo, perceber que a morte da ex-mulher criava uma oportunidade para reconstruir sua posição pública. As duas coisas não se excluem. Uma pessoa pode sofrer e calcular, proteger os filhos e pensar na própria imagem, lamentar uma morte e sentir que um obstáculo desapareceu. É justamente essa ambiguidade que torna o relato de Spencer plausível, ainda que não seja possível comprovar cada palavra.

Quando Peter Morgan voltou ao mesmo episódio na última temporada de The Crown, quase vinte anos depois, apresentou outro Charles. A transformação havia começado antes, com Josh O’Connor, que conquistou o público ao interpretar um príncipe jovem, tímido, emocionalmente negligenciado pelos pais e esmagado pela expectativa de um trono que demoraria décadas a chegar. O público passou a compreender melhor o homem que seria rei e, em muitos casos, a sentir pena dele.

Essa humanização não era necessariamente mentirosa. Charles esperou até os 73 anos para subir ao trono, depois da morte de uma mãe que reinou até os 96. Viveu quase toda a vida sem poder exercer plenamente a função para a qual acreditava ter nascido, ocupando o espaço indefinido e por vezes frustrante do herdeiro. Também foi criado dentro de uma família pouco preparada para demonstrar afeto e impedido, quando jovem, de construir a vida que desejava com Camilla. Tudo isso ajuda a compreender suas inseguranças. Nada disso muda o que aconteceu com Diana.

Em “Aftermath”, episódio de The Crown sobre a morte da princesa, Charles, agora interpretado por Dominic West, é praticamente a consciência emocional da família. Ele chora diante do corpo de Diana, preocupa-se com os filhos, percebe a dimensão do luto coletivo e enfrenta a resistência da rainha. A série ainda cria uma cena imaginária na qual Diana aparece para ele e reconhece sua dor, oferecendo uma espécie de reconciliação que jamais poderia ser confirmada. O mesmo Peter Morgan que, em A Rainha, mostrara Charles procurando Blair para proteger a própria imagem agora o apresenta como o único Windsor capaz de compreender o que Diana significava.

A diferença entre as duas obras diz tanto sobre a época em que foram produzidas quanto sobre Charles. Em 2006, ele ainda era o homem que fizera Diana sofrer e tentava tornar Camilla publicamente aceitável. Em 2023, já era rei, Camilla era rainha e a reconstrução de ambos estava praticamente concluída. Mark Bolland, responsável pela comunicação de Charles entre 1997 e 2002, é frequentemente apontado como um dos principais arquitetos dessa reabilitação. O processo levou décadas, mas funcionou.

Harry descreve em Spare o lado menos elegante dessa operação, acusando Camilla e os assessores reais de usarem histórias sobre ele e William para melhorar a própria imagem. Pode haver ressentimento na versão de Harry, assim como pode haver ressentimento na de Spencer, mas a existência de uma estratégia para tornar Charles e Camilla aceitáveis não está seriamente em discussão. O próprio resultado está diante de nós.

Compreender não é absolver

É possível olhar hoje para Charles com mais compreensão do que em 1997. Podemos reconhecer o homem criado à espera de uma função, o filho incapaz de se sentir amado pela mãe, o príncipe apaixonado por outra mulher e o pai que provavelmente acreditou estar fazendo o melhor possível em circunstâncias terríveis. Podemos inclusive aceitar que, depois da morte de Diana, ele tenha percebido uma oportunidade para se redimir e tentado agir corretamente por William e Harry.

O que não podemos fazer é permitir que essa compreensão reescreva os fatos. A popularidade de Diana incomodava Charles. Seu domínio natural da imprensa e sua ligação com o público despertavam ciúme e ressentimento. A família real foi mesquinha em diferentes momentos, acreditou que poderia controlar a narrativa e demorou demais para entender que Diana havia se tornado maior do que o papel que lhe haviam concedido. Sua morte não fez com que ela desaparecesse. Tornou-a impossível de superar.

É por isso que Swan Song é tão incômodo para a família real no presente. O livro não revela apenas frases potencialmente cruéis; ele ameaça desfazer parte da reabilitação construída durante 30 anos. Recupera o Charles inseguro, rancoroso, vaidoso e enciumado que o público reconhecia antes de The Crown lhe oferecer infância, contexto, lágrimas e uma absolvição imaginária de Diana.

O Palácio tenta novamente controlar a maneira como o rei será visto, mas esse é o único poder que nunca conseguiu exercer completamente. Charles Spencer também tenta controlar a memória da irmã, assim como Harry, William, jornalistas, roteiristas, biógrafos e todos nós que continuamos escrevendo e falando sobre ela. Alguns lucram financeiramente; outros obtêm autoridade moral, influência, audiência ou proteção institucional. Ninguém é inteiramente inocente nessa disputa.

A grande tristeza da história de Diana é que ela continua sendo usada para que os vivos expliquem a si mesmos. O irmão quer finalmente contar sua versão. Os filhos defendem memórias diferentes da mãe. O rei deseja que sua trajetória seja compreendida para além do casamento fracassado. A monarquia precisa preservar sua legitimidade. A imprensa continua transformando cada fragmento em notícia. E Diana, que também era contraditória, inteligente, impulsiva, manipuladora em alguns momentos e manipulada em tantos outros, permanece congelada aos 36 anos, sem poder corrigir nenhuma dessas versões.

Talvez Charles Spencer esteja certo sobre cada palavra daquela conversa. Talvez a dor tenha alterado alguns detalhes. O que não parece convincente é fingir que o homem descrito em Swan Song jamais existiu. Ele já havia sido visto, discutido e até representado pelo cinema. Foi apenas suavizado por uma campanha de imagem bem-sucedida e por uma série que nos ensinou a compreendê-lo melhor.

Compreender, porém, não é apagar. E nada do que The Crown acrescentou à história de Charles modifica aquilo que Diana viveu.


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