Dark Matter: Daniela já não consegue confiar em Jason (Recap T.2, ep.4)

Atenção: este texto contém spoilers do quarto episódio da segunda temporada de Dark Matter, “Stars, Hide Your Fires”.

Depois de tantas portas abertas, mundos visitados e versões alternativas encontradas, Dark Matter começa a fazer a pergunta que talvez seja mais interessante do que qualquer explicação científica sobre a Caixa: o que acontece quando alguém consegue escapar do perigo, mas já não sabe como voltar à própria vida? Em “Stars, Hide Your Fires”, o multiverso permanece em movimento, novas ameaças surgem e Jason 2 recebe uma oportunidade bastante discutível de redenção, mas o centro emocional está em Daniela, que finalmente admite que encontrar o marido certo não foi suficiente para recuperar a segurança que perdeu.

O episódio volta inicialmente a Leighton, ainda abalado depois de visitar o avô no hospital. Ele entra na Caixa à procura de Jason 2, mas sua primeira parada é o mundo original de Jason 1, agora ocupado por agentes da DARPA. Ali, encontra Jason 13 preso diante da máquina e entende, por um gesto silencioso dele, que deveria sair o mais depressa possível. Leighton consegue escapar e chega ao mundo onde Jason, Daniela e Charlie tentam reconstruir a vida. Embora não encontre o homem que procurava, pede desculpas a Jason 1 e promete que não voltará àquela realidade.

A presença de Leighton convence Jason de que Daniela estava certa ao sugerir que a família deveria deixar Chicago. Eles têm novos documentos, dinheiro e a possibilidade de desaparecer em outra cidade ou até em outro país, mas Charlie se recusa a começar novamente. Depois de perder sua casa, seus amigos e qualquer sensação de continuidade por causa das decisões tomadas por diferentes versões do pai, ele quer permanecer em Chicago, trabalhar com Eduardo e construir alguma coisa que finalmente lhe pertença. Daniela deixa claro que não abandonará o filho, e Jason, naturalmente, também não quer fazer isso.

É assim que a família permanece naquele mundo tecnologicamente mais simples, tentando transformar uma realidade emprestada em lar. Charlie começa a trabalhar no restaurante da mãe de Eduardo, que, para surpresa de todos, é uma versão de Amanda. Nesta vida, ela não é psicóloga nem conheceu Jason 2: administra o negócio da família e tem um filho. O encontro é breve, mas reforça uma das ideias mais melancólicas da série, porque cada porta não revela apenas aquilo que alguém poderia ter conquistado, mas também as pessoas que poderia ter sido.

Daniela e Charlie visitam o Art Institute of Chicago, onde ela escolhe observar Uma Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de Georges Seurat, enquanto o filho prefere Nighthawks, de Edward Hopper. É também no museu que Daniela acredita ver outro Jason se aproximando de Charlie. Ela corre atrás do homem, mas não encontra ninguém, e o filho sequer percebe o que aconteceu. A série poderia usar a cena para anunciar mais uma variante, porém, desta vez, o perigo não parece estar vindo de outra realidade. Daniela está vendo Jasons porque o rosto do marido deixou de representar segurança. Depois de ser enganada, perseguida e ameaçada por homens idênticos a ele, já não consegue olhar para Jason sem enxergar também tudo aquilo que as outras versões foram capazes de fazer.

Enquanto isso, Amanda, Ryan, Jason 2 e o outro Ryan chegam ao mundo do qual este último foi retirado. Para explicar a presença de dois homens idênticos no mesmo bar, os Ryans inventam uma história cada vez mais absurda sobre irmãos gêmeos separados no nascimento, um deles supostamente sequestrado e criado por uma enfermeira. A sequência traz um pouco de humor a um episódio pesado, mas também confirma algo importante: Amanda está aprendendo a controlar a Caixa e já não depende de Jason 2 para conduzir o grupo entre as realidades.

Ryan não esconde que gostaria de abandonar Jason 2 em algum mundo terrível, devolvendo-lhe ao menos parte do sofrimento que recebeu quando foi deixado sozinho em outra realidade. Amanda, porém, ainda acredita que as pessoas podem ser definidas pelas escolhas que fazem a partir de agora, e não apenas pelos piores atos do passado. Isso não significa que aceite facilmente o pedido de desculpas de Jason 2. Ao contrário, quando ele tenta explicar por que roubou a vida de Jason 1, ela se recusa a transformar arrependimento em justificativa.

Jason 2 admite que ficou fascinado por uma versão de si mesmo que havia desistido das grandes conquistas profissionais, mas possuía tudo aquilo que ele sacrificara: Daniela, Charlie e uma família. Em vez de aceitar as consequências de suas escolhas, decidiu roubar a vida que outro Jason havia construído. Amanda lembra que o amou como ele realmente era, com todas as falhas, mas que ele jamais permitiu uma intimidade verdadeira porque estava sempre ocupado demais perseguindo outra versão de si mesmo.

Pela primeira vez, Jason 2 parece admitir que foi covarde, egoísta e incapaz de oferecer a Amanda o amor que ela merecia. Não é exatamente uma redenção, muito menos uma absolvição, mas é o início de uma responsabilidade que ele sempre evitou. Quando diz que gostaria de fazer alguma coisa boa, Amanda convence Ryan a lhe entregar algumas doses de Lilac Wings, permitindo que volte a viajar pela Caixa. É uma aposta extremamente perigosa: Jason 2 agora possui novamente acesso a infinitas realidades e, portanto, a infinitas oportunidades para repetir os mesmos erros. Ainda assim, promete que não tornará a vida de mais ninguém miserável.

Amanda e Ryan retornam ao mundo aparentemente pacífico onde estavam vivendo, aquele que eles apelidaram de “mundo do sexo educado”, mas encontram uma realidade muito diferente da que deixaram. Os dois são cercados por policiais, acusados de violar uma quarentena e um toque de recolher. Um escaneamento mostra que não estão contaminados, resultado que parece impossível para as autoridades, e ambos são levados sob custódia. O episódio não confirma que a mesma doença encontrada por Leighton tenha atravessado a Caixa, mas a possibilidade é difícil de ignorar. Se vírus e outras ameaças biológicas podem viajar entre os mundos, a máquina não coloca em risco apenas as pessoas que entram nela, mas todas as realidades às quais está conectada.

No mundo de Jason e Daniela, o tempo passa e Charlie finalmente parte para a faculdade. A casa fica silenciosa, deixando o casal sozinho com tudo o que tentou esconder sob a rotina familiar. Jason continua estudando a Caixa e acredita que descobriu uma maneira diferente de neutralizá-la. Como todas as máquinas parecem estar ligadas por um emaranhamento quântico, destruí-las fisicamente não resolveria o problema; seria necessário separar aquele mundo da rede formada pelas outras Caixas.

Para Jason, não se trata de retomar a antiga obsessão, mas de proteger a família. Para Daniela, a diferença já não existe. A Caixa continua ocupando os pensamentos do marido e determinando a vida dos dois, mesmo quando ele garante estar tentando destruí-la. Mais do que isso, Daniela confessa que não reconhece mais a si mesma e que começou a enxergar nos gestos de Jason características das versões que a feriram. Ela sabe que está diante do homem que ama, mas também sabe que todos os outros Jasons nasceram da mesma pessoa e carregam, em alguma medida, as mesmas possibilidades.

Quando Jason pergunta o que pode fazer, a resposta é a mais dolorosa possível: nada. Daniela precisa ir embora, não necessariamente para encerrar o casamento, mas para descobrir quem se tornou depois de tudo o que viveu. Ela reafirma que Jason ainda é a pessoa dela e que ela continua sendo a pessoa dele, porém precisa encontrar sozinha o caminho de volta para si mesma.

O final não separa apenas Daniela e Jason. Ele expõe o verdadeiro dano causado pelo multiverso: já não é possível fechar uma porta e fingir que aquilo que estava do outro lado deixou de existir. Jason talvez consiga descobrir uma forma de desemaranhar as Caixas e isolar aquela realidade, mas Daniela enfrenta uma tarefa muito mais difícil. Ela precisa separar o marido que ama de todos os homens com o mesmo rosto que aprendeu a temer.


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