Há poucas horas do domingo 19 de setembro de 2026, Kate Beckinsale transformou uma madrugada em motivo de preocupação para quem a acompanha. Aos 53 anos, a atriz britânica publicou um quadrado preto no Instagram com uma única palavra, “bye”, e, nos Stories, uma imagem de um arco-íris sobre uma estrada acompanhada da frase “congratulations you win I give up” — “parabéns, vocês venceram, eu desisto”. Também apagou as publicações anteriores de seu perfil.
O detalhe que torna tudo mais inquietante, sem que seja correto tirar conclusões que ela própria não expressou, está em sua bio. Beckinsale colocou ali um link para uma reportagem sobre Caroline Flack, a apresentadora britânica que morreu por suicídio em 2020, e sobre a campanha “Be Kind”, criada em meio à discussão sobre o efeito da imprensa e dos ataques online. Até agora, não houve uma explicação de Beckinsale sobre as mensagens. Portanto, há preocupação real, mas ainda não sabemos exatamente o que ela quis dizer.
Para quem conhece apenas a belíssima estrela de Anjos da Noite, talvez seja difícil entender a quantidade de história que existe por trás dessa imagem cuidadosamente construída. E a história de Kate Beckinsale é marcada, desde muito cedo, por duas forças que parecem contraditórias: uma inteligência e um humor quase desafiadores, e uma relação muito profunda com a perda.

Kate nasceu em Londres, em 26 de julho de 1973, filha de dois atores. A mãe, Judy Loe, construiu uma carreira longa no teatro e na televisão britânica. O pai, Richard Beckinsale, era um dos atores cômicos mais queridos da televisão inglesa, especialmente por Porridge e Rising Damp. Ele morreu repentinamente de um ataque cardíaco em 1979. Tinha apenas 31 anos. Kate tinha cinco.
É impossível transformar uma experiência dessas em uma explicação automática para tudo o que veio depois, mas Beckinsale nunca escondeu a importância que aquela perda teve em sua vida. Aos 15 anos, desenvolveu anorexia severa. Anos depois, contou que chegou a pesar pouco mais de 31 quilos e que ela própria pediu à mãe para fazer análise freudiana. Fez terapia duas ou três vezes por semana durante aproximadamente quatro anos e relacionou parte daquela crise à morte precoce do pai e à consciência, adquirida cedo demais, de que uma pessoa aparentemente saudável podia simplesmente morrer.
Isso também ajuda a desfazer outra imagem simplificada de Beckinsale: a da estrela de ação escolhida principalmente pela beleza. Ela era uma adolescente academicamente brilhante, ganhou prêmios de escrita e estudou francês e russo no New College, em Oxford. Já queria ser atriz, mas decidiu ir à universidade em vez de uma escola de teatro porque queria conviver com pessoas de outras áreas, e não apenas atores. Abandonou o curso antes de se formar quando a carreira começou a tornar impossível conciliar os dois caminhos.
E sua carreira começou muito longe de roupas de couro preto e vampiros.
Ainda muito jovem, Beckinsale apareceu em Muito Barulho por Nada, de Kenneth Branagh, em 1993. Vieram Cold Comfort Farm, uma adaptação televisiva de Emma, de Jane Austen, e, em 1998, The Last Days of Disco, de Whit Stillman. Era um percurso de atriz britânica associada a literatura, filmes de época, comédia sofisticada e cinema independente.

Hollywood mudou o tamanho de sua carreira. Pearl Harbor, em 2001, deu a ela enorme exposição internacional; no mesmo ano veio Serendipity, que continua sendo um de seus filmes mais lembrados. Então aconteceu algo que nem ela parecia prever: Kate Beckinsale virou uma estrela de ação.
Em 2003, Underworld — lançado no Brasil como Anjos da Noite — apresentou Selene, a vampira guerreira vestida de preto que se tornaria a personagem mais identificada com Beckinsale. A franquia nunca dependeu particularmente do carinho da crítica, mas criou uma base de fãs enorme e transformou a atriz em algo relativamente raro naquele momento: uma mulher conduzindo uma série de filmes de ação.
A ironia é que esse parecia o lugar mais distante possível de sua formação. Beckinsale admitiria depois que, justamente por ter tanto medo de ser enquadrada em um tipo de papel, acabou se tornando conhecida pelo gênero que menos combinava com a ideia que tinha de si mesma.
Vieram Van Helsing, O Aviador, no qual interpretou Ava Gardner para Martin Scorsese, Click, Vacancy, Nothing But the Truth e muitos outros trabalhos. Mas talvez um dos melhores lembretes do alcance real de Beckinsale tenha surgido em 2016, quando Whit Stillman voltou a escalá-la, agora como Lady Susan em Love & Friendship. Era novamente Jane Austen, novamente ironia, linguagem e manipulação social — e um papel muito mais próximo da atriz que existia antes de Selene.
Na vida pessoal, Beckinsale teve uma relação longa com Michael Sheen, entre os anos 1990 e 2003. Os dois tiveram uma filha, Lily Mo Sheen, nascida em 1999, e permaneceram próximos depois da separação. No set de Underworld, Kate conheceu o diretor Len Wiseman; os dois se casaram em 2004, separaram-se em 2015 e finalizaram o divórcio em 2019. Mais tarde, seus relacionamentos com homens mais jovens — especialmente Pete Davidson — passaram a alimentar outra curiosidade constante da imprensa sobre sua vida.

A idade, aliás, se tornaria quase uma obsessão externa em torno dela. Beckinsale passou anos respondendo a comentários sobre o rosto, o corpo, supostas cirurgias plásticas e sobre como uma mulher de 40, depois 50 anos, deveria se vestir ou se comportar. Em 2024, pediu publicamente que parassem com o que chamou de bullying “insidioso” sobre sua aparência e negou ter feito as intervenções estéticas que constantemente lhe atribuíam.
Era justamente o pior momento possível para esse tipo de escrutínio.
Seu padrasto, o diretor Roy Battersby, que participava de sua vida desde a infância e que Beckinsale considerava efetivamente um segundo pai, morreu em janeiro de 2024, aos 87 anos. A atriz falou depois sobre o impacto de acompanhar sua morte e sobre como aquela experiência reativou lembranças da perda do pai biológico.
Ao mesmo tempo, Judy Loe estava gravemente doente. Beckinsale revelou que a mãe tinha câncer em estágio 4. Em meio ao luto pelo padrasto e à doença da mãe, a própria Kate passou cerca de seis semanas hospitalizada. Mais tarde, disse que o estresse e o sofrimento haviam provocado uma lesão no esôfago e episódios de sangramento gastrointestinal.
Judy morreu em julho de 2025, aos 78 anos. Beckinsale contou que a mãe morreu em seus braços e escreveu que ela tinha sido sua “bússola”, sua melhor amiga e o grande amor de sua vida. Também voltou diretamente à morte do pai: perder a mãe, escreveu, era seu maior medo desde os cinco anos.
E aqui a história recente começa a se aproximar perigosamente das mensagens publicadas neste domingo.

Durante meses, usuários das redes sociais passaram a comentar sobre o peso e a aparência da atriz. Em agosto de 2026, ela respondeu. Disse que sofria de síndrome de ativação mastocitária, diagnóstico que afirma ter recebido anos antes, e explicou que o luto também havia afetado profundamente seu apetite e seu peso. Depois apagou praticamente todo o Instagram.
Não era a primeira vez. Beckinsale tem uma relação peculiar com a plataforma: muito engraçada quando está bem, extremamente pessoal quando não está. Seus vídeos absurdos, fantasias, gatos, humor britânico e respostas afiadas a trolls criaram uma persona online muito menos controlada do que a típica conta de uma estrela de Hollywood. Mas justamente por isso seu Instagram também se tornou o lugar onde ela expõe sofrimento de forma direta.
No início de setembro, foi ainda mais explícita. Beckinsale publicou vídeos falando sobre PTSD, dizendo que pessoas que convivem com trauma podem parecer perfeitamente funcionais por fora enquanto enfrentam pesadelos, gatilhos e enorme sofrimento. Falou também sobre o isolamento de quem cuida sozinho de familiares gravemente doentes e sobre como ouvir constantemente “você é tão forte” pode ser quase o contrário do que a pessoa precisa.
São declarações da própria Beckinsale, não material para diagnosticá-la à distância agora. Mas são contexto indispensável.
Há ainda outro capítulo recente de conflito público. Em abril de 2026, Beckinsale afirmou ter sido dispensada por uma agente depois de curtir uma publicação defendendo um cessar-fogo em Gaza. Também criticou Mark Ruffalo, dizendo que havia tentado falar com ele sobre o episódio e não recebera resposta. A alegação sobre a demissão partiu da própria Beckinsale, e os comentários foram posteriormente apagados.
Sua carreira, porém, continuou ativa. Depois de Canary Black, Stolen Girl e Wildcat, ela permanece ligada ao cinema de ação que ajudou a transformá-la em estrela internacional. Ao mesmo tempo, entrou numa disputa judicial com produtores de Canary Black, alegando ter sofrido uma lesão séria no joelho durante as filmagens e ter sido pressionada a trabalhar em circunstâncias inseguras. Os produtores contestaram suas acusações.

Talvez seja exatamente por isso que o episódio deste domingo não deva ser reduzido nem a fofoca de celebridade nem a uma conclusão que ainda não podemos fazer. Kate Beckinsale passou boa parte da vida pública sendo observada primeiro como filha de um homem que morreu jovem demais, depois como uma mulher extraordinariamente bonita, depois como namorada ou mulher de alguém, depois como a vampira de roupa colada, depois como a mulher de 50 anos cuja aparência estranha se sentia autorizada a ser analisada.
Por baixo dessas camadas sempre houve uma atriz muito mais interessante: culta, muito engraçada, capaz de fazer Austen e ação física, filha de atores profundamente ligados à tradição britânica, uma mulher que fala publicamente de análise desde os anos 1990 e que nunca parece ter aprendido — ou talvez nunca tenha querido aprender — a transformar sua vida pessoal em respostas cuidadosamente higienizadas por assessores.
Hoje, porém, o humor desapareceu.
“Bye.” “I give up.”
E o link para Caroline Flack torna impossível simplesmente ignorar o gesto, embora também seja irresponsável decidir por Beckinsale o que ele significa. Neste momento, a única informação segura é que suas mensagens despertaram preocupação e que ainda não existe uma explicação pública da atriz ou de sua equipe.
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